Linha Direta Com o Inferno

03


Tinha algo de estranho acontecendo ali, Tomaz pensava observando o teto da cela. Por algum motivo ele e Felicia haviam sido separados dos outros e enviados para dois quartos existentes nos andares superiores da fortaleza.

Até aquele momento havia deixado levar-se pelos acontecimentos. Não passara-lhe pela cabeça sequer perguntar do porque de precisarem dele naquela missão; estava ali apenas por força de seu voto de obediência para com a ordem. Mas os acontecimentos estranhos estavam se avolumando. Acontecimentos estranhos como aquelas criaturas na vila. Como aquele homem que lhe dizia que era famoso entre sua gente, mas afinal quem era a gente dele? Outra coisa estranha era a conversa que o homem tivera com Felicia. Mais estranha ainda foi a reposta dela.

O sacerdote fechou os olhos, mas abriu-os imediatamente. A maçaneta da porta se movia furiosamente. Depois parou e então veio uma pancada. A porta se abriu com violência e Felicia apareceu.

- Já descansou o suficiente padre. Está na hora de ir!

O padre saltou da cama e correu na direção da porta. Ia perguntar para a freira como ela havia escapado quando viu a garota do lado dela.

- Esta é Amely Mcdamill. Ela era nosso contato dentro da fortaleza – Felicia fez as apresentações sem tirar os olhos do corredor – Precisamos agir rápido! Vou libertar nosso pessoal e o senhor vai resgatar o doutor Jorge Filho...

- Mas não faço idéia de onde ele esteja?

- Eu sei – Amely respondeu – Ele costuma ser mantido próximo ao portal...

- Portal?!

- Não percamos tempo! Vamos!

Felicia não esperou concordância e partiu.

- Não podemos ir pelos corredores principais! - Tomaz disse enquanto observava a freira desaparecer numa curva.

- E não iremos – Amely foi até a parede e tocou num local especifico. Uma parte da parede se moveu e revelou uma escada escondida – Este forte está cheio de passagens secretas. Seja da época espanhola, seja da época inca...

+ + + +

O religioso já perdera a conta de quantas vezes trocara de passagem secreta e de quantos metros descera por aquelas escadarias escuras, poeirentas, cheios de teias de aranha e ar viciado quando Amely abriu aquela que seria a ultima porta. Somente após se assegurar de que a passagem estava livre avançou e fez sinal para que o sacerdote a seguisse.

Primeiramente Tomaz sentiu-se como estivesse numa tumba inca a dezenas de metros dentro da montanha. E talvez estivesse. Depois percebeu que estava num dos laboratórios mais avançados do mundo, tamanha era a quantidade de telas de visor liquido celular de energia, plataformas e cabos de força que existiam por todo aquele lugar. Então, ao ver o imenso portal em forma de aro, teve a certeza de que havia entrado no laboratório de algum cientista louco.

- O doutor está naquele container – Amely apontou um cubículo de aço do outro lado da sala.

Eles começaram a avançar cuidadosamente, evitando tropeçar nos cabos de força que forravam o chão, mas quando passaram na frente do portal o padre não resistiu e parou para admirar a peça. Havia varias inscrições na em todo o aro, passagens bíblicas na verdade, e ele acabou se lembrando de um antigo filme de ficção cientifica que vira na infância. Amely alertou-o de que deviam se apressar.

Libertar o inventor não foi problema, Amely conhecia o código da fechadura eletrônica, o problema era carregá-lo, pois estava muito debilitado e mal conseguia manter-se em pé. Com dificuldade a garota e Tomaz conseguiram levá-lo até o portal. Foi quando ouviram o desengatilhar das armas.

- Ora, ora, o que temos aqui? Uma filha rebelde e um padre fugitivo...

- Você não é meu pai! – Amely gritou em meio a soluços – Não mais...

O clérigo tentou acalmá-la.

- Quer ouvir uma história padre? Sei que quer... Há muitas perguntas em sua cabeça: Tudo começou quando a esposa deste ser morreu e ele pos na cabeça que queria continuar falando com ela. As sessões espíritas ajudaram durante um tempo, mas não estava bom; havia muita gente e sentia falta de intimidade e privacidade. Então resolveu dar uma de inventor e criar uma máquina para falar com os mortos. E não é que ele conseguiu, o que considero um grande golpe de sorte, mas nunca conseguiu localizar a esposa no além. Também pudera, a máquina alcançava apenas um nível do “outro lado”, o Céu, mais especificamente o Purgatório. Então decidiu comercializar seu invento e assim conseguir capital para aperfeiçoá-lo até conseguir contato com o Paraíso dos Santos. Criatura tola, sua arrogância humana não o deixou pensar por um momento que sua esposa não estava no Céu...

- Não! Pare, pare!! – o cientista começou a gritar tapando os ouvidos – Não quero ouvir é mentira!!

- Está vendo. Mesmo após ter ouvido a verdade seu orgulho não o deixa acreditar. Acreditar que a sua querida e amada esposa está no Inferno. Bom, continuando, é neste ponto que entra o pai desta garota. O pastor Allan Mcdamill tinha prosperado incrivelmente desde que fundara sua própria igreja, mas ele sentia que poderia conseguir mais só precisava que a oportunidade surgisse. E a oportunidade apareceu quando ficou sabendo do aparelho criado pelo doutor Jorge. Então pensou: se as pessoas pagam para terem um lugar garantido no céu depois da morte, quantos não pagariam para ir, em vida, para o céu?

- É mentira!! Meu pai nunca faria isso! Ele sempre foi um homem devotado a Deus...

- Será? Se sua mãe estivesse aqui ela poderia contar-lhe como era seu pai “temente a Deus”. Mas ela não esta aqui não é mesmo?

- Pare de atormentar essas pessoas!!! – Tomaz gritou tentando acalmar Amely.

- Ora padre, achei que gostasse de uma boa história? Ora, não quer saber para que serve este portal atrás de vocês? Ele foi os frutos do investimento do pastor Mcdamill; um portal que desse acesso direto ao Paraíso.  Infelizmente, para ele, quando percebeu que se enganara já era tarde: já atravessara sua criação e sua alma mergulhava no desespero e na loucura. Somente aqueles com proteção divina, como a freira espanhola e aquelas crianças portuguesas, podem contemplar a Danação Eterna e não enlouquecer...

- Se você não é o pai de Amely! Então, quem é você?

- Ainda não percebeu? Havia uma casca vazia perambulando pelos infernos e uma porta aberta, não poderia deixar passar a oportunidade. Por azar o portal só permite o ir e vir de humanos. Aqueles de meu povo que conseguem atravessar sem uma casca humana não passam de animais como você percebeu...

- Se é verdade que apenas humanos podem voltar de lá porque minha mãe não voltou?

- Porque não era para ela voltar. Ela era um presente meu para meus senhores. Mas não se preocupe minha cara – Allan Mcdamill sorriu – logo você se juntara a ela. Assim como o padre e esse inventor imprestável! Ativem o portal!!

Um zumbido energético foi ouvido e o imenso aro de metal negro começou a girar. E, em questão de segundos um vortex, como a superfície de um lago, surgiu entre o aro refletindo uma luz negra oleosa.

- Tenham a bondade – Mcdamill disse enquanto dois de seus asseclas lhes empurravam com os canos de suas armas na direção do portal.

- Não! – Amely gritou – Eu não irei! Prefiro morrer!

Num primeiro momento, Tomaz se assustou com a súbita coragem a moça, mas concordou com ela. Existiam fins piores que a morte.

- De um jeito ou de outro você vai para lá mesmo, minha querida...

- Então prefiro ir morta!!

- Para mim tanto faz. Homens: atendam o desejo desta garota.

Armas foram apontadas e o barulho de disparos foi ouvido.

Mas não foram os disparos dos homens de Mcdamill. O som ouvido foi o das armas dos comandos, liderados por Felicia, que atravessaram todo a sala derrubando vários dos asseclas de Mcdamill.  Os sobreviventes procuraram abrigo, esquecendo-se completamente dos reféns.

Protegidos sob os disparos dos companheiros dois comandos se aproximaram.

- Vamos sair daqui!

Pegaram o inventor e voltaram pelo caminho que vieram. O frade pegou na mão de Amely e seguiu-os. Logo estavam em meio aos companheiros.

- Já temos o que viemos pegar! - a freira disse ao recarregar a pistola – Bom trabalho padre! Vamos sair daqui pessoal!

Um a um eles recuaram para o corredor e começaram a abrir caminho para os andares superiores.

- Há um helicóptero no telhado, vamos usá-lo para sair daqui!!

 - Não podemos! – Tomaz gritou – Temos que destruir aquele portal! Imagina o que acontecerá se conseguirem trazer milhares de criaturas como aquela da vila para o mundo!

- Você tem razão. Sargento: me de alguns explosivos e detonadores!

Rapidamente o oficial passou os apetrechos para a freira e o padre.

- Usem as passagens – Amely sugeriu tocando numa parede abrindo uma escadaria.

- Ok! Vocês continuem e esperem por cinco minutos! Se não voltarmos; decolem!

- Mas...

- Nada de “mas” sargento! É uma ordem! Vamos... –  ela e o clérigo enfiaram-se na escadaria escura.

CONTINUA EM... 7 DIAS!!

Ufa! Quase que não dá tempo de postar o capitulo, mas aqui esta ele... espero que gostem! E não deixem de comentar...


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