Linha Direta Com o Inferno

02

Era noite e o learjet negro cortava velozmente através dos Andes. Tomaz ainda tentava assimilar o que acontecia; doze horas atrás estava no acampamento de refugiados do Sudão cumprindo de sua paróquia e então uma freira apareceu e o arrastou até Cartum onde pegaram um avião para Lisboa. De lá decolaram para Salvador onde embarcaram no jato que agora voava sobre os Andes Chilenos. Seus olhos passearam pelo compartimento; fora ele e a irmã Felicia estavam naquele avião duas mulheres e quatro homens que exibiam cruzes cinzas nas mangas dos uniformes totalmente negros. Eles lembravam-lhe membros de uma força especial de algum exército.

- Acho que deve haver muitas perguntas em sua cabeça, não é? – Felicia, que estava sentada a se lado, disse enquanto checava sua pistola – Logo após o seqüestro do inventor o Vaticano e vários paises iniciaram uma busca desesperada. Foi uma busca infrutífera até que um informante notificou a arquidiocese chilena. Então fomos convocados e estamos rumando para uma antiga fortaleza espanhola nos Andes. Temos ordens expressas de resgatar o inventor das mãos de possíveis fanáticos religiosos...

- Mas este tipo de missão não é serviço deles?

- Pois é, mas por algum motivo eles me querem e querem você nela...

- Dois minutos para o ponto de lançamento - a voz do piloto interrompeu-lhes.

- Ok! Checar equipamento! – o líder dos comandos anunciou e todos se entregaram a tarefa no minuto restante.

- Preparar para saltar - outra vez o autofalante anunciou e uma luz sobre a porta mudou de vermelho para amarelo. O líder dos comandos levantou-se e abriu-a. Todos seguiram seu exemplo e perfilaram.

- Padre!? Podia nos abençoar?

O pedido pegou Tomaz de surpresa ao mesmo tempo em que a luz mudava de amarelo para verde.

- Que Deus lhes abençoe! – foi tudo o que conseguiu dizer.

Um “amém” uníssono se ouviu. Todos fizeram o sinal da cruz e o comandante ordenou que o primeiro comando saltasse. Em questão de segundos todos estavam envoltos pela escuridão.

+ + + +

“Para uma primeira vez até que o pouso foi macio”, Tomaz pensou enquanto procurava se livrar das cordas do pára-quedas que insistiam em se enrolar em suas pernas.

- Tá precisando de ajuda padre?

A voz de Felicia o assustou. Ele tinha certeza de que havia caído afastado dos outros e não ouvira ninguém se aproximando. A freira cortou as cordas com uma faca e indicou o caminho para onde tinham que seguir até encontrar com os outros. Estavam num bosque, no sopé de uma das montanhas da cordilheira. Era uma noite sem lua e o silencio era absoluto; nem mesmo ouvia-se os ruídos dos animais que caçavam a noite. Logo se encontraram e começaram a subir.

Era uma subida difícil, pelo menos para um sacerdote acostumado a planície desértica do norte da África, pois os comandos avançavam com desenvoltura apesar de estarem sendo cautelosos.

Quando o céu oriental começou a tomar os tons de uma nova manhã chegaram em um platô, ficando frente a frente com uma aldeia inca abandonada. Todos se entreolharam; não esperavam encontrar uma aldeia naquela altitude, nem tinham sido informados de que haveria uma. A um sinal do comandante voltaram a se mover de forma cautelosa.

Felicia se aproximou de Tomaz e fez um sinal mostrando algo para ele na  montanha logo acima. O sacerdote teve que forçar a vista para poder ver as paredes do forte entremeio as rochas.

- Antes de ser um forte espanhol a fortaleza era uma construção inca...

Felicia calou-se. Um dos comandos havia feito um sinal e todos pararam. Estavam no meio da aldeia e todos sentiam como se o silencio fosse mais agudo entre aquelas ruínas.

Súbito! O som de pedregulho sendo pisado. Todos olharam em volta e destravaram suas armas. Não estavam a sós afinal. Um vulto correu entre as ruínas de duas casas. Foi seguido por outro no lado oposto. Depois outro. E outro. A tensão entre os comandos começava a se tornar palpável.

- Vamos avançar sargento!! – Felicia gritou para o líder do grupo – Estamos desprotegidos aqui!

O oficial fez um sinal e todos voltaram a marcha. Não deram quatro passos e o grito, logo abafado, do ultimo soldado da fila chamou a atenção de todos.

Havia três criaturas sobre ele. Ele se debatia desesperado enquanto elas rasgavam-lhe a carne com seus dentes e garras. Como que pressentindo o pavor entre os soldados uma das criaturas levantou a cabeça e mostrou-lhes os dentes de tubarão, cheio de carne humana, num sorriso macabro. Foi abatido pelos disparos dos AK-47.  Levantou-se novamente e sua bocarra exibiu um sorriso satisfeito.

- Temos que sair daqui!! – alguém gritou.

- Não há mais tempo – Felicia respondeu. Seus olhos estavam fixos nas criaturas que abandonavam as ruínas – Estamos cercados.

As criaturas, uma centena delas, avançavam com seus longos dedos com garras adiante e com as bocarras escancaras, exibindo os dentes de tubarão, deixando escorrer uma saliva fétida.

Os comandos destravaram suas armas. Felicia sacou a pistola e o franciscano, por um minuto, pensou que não devia ter recusado a arma quando a freira lhe ofereceu. Nenhum deles esperava sair daquela armadilha com vida, mas não iriam tombar sem lutar. Em silencio, o padre encomendou a alma de todos.

Neste momento um assobio agudo ecoou por entre as ruínas. As criaturas pararam com se tentassem escutá-lo. Um segundo assobio, só que mais forte e longo, ecoou. Então as criaturas começaram a recuar com o temor em seus rostos. Sem entender nada os religiosos e os comandos mantiveram suas posições.

As criaturas continuaram recuando até pararem e abrirem caminho para vários homens armadas, com exceção de um que estava vestido como um nobre espanhol do século dezoito.

- Sugiro que abaixem as armas, senhores! – disse – Se quiserem sair vivos daqui!

A uma ordem de seu comandante todos soltaram as armas e levantaram as mãos. O homem sorriu satisfeito.

- Muito bom! Ao contrário do que parecem, vocês são seres sensatos. É uma honra tê-lo aqui padre Tomaz, o senhor não sabe, mas é famoso entre minha gente...

- E o senhor quem é?

- Tudo à seu tempo padre. Tudo à seu tempo. Agora tenho algo mais importante aqui.

O homem avançou na direção de Felicia e numa reação instintiva dois comandos se puseram entre eles. O homem fez uma careta. A freira ordenou que eles se afastassem e ficou face a face com o nobre espanhol.

- Muito me surpreende ver alguém como você entre os soldados da Ordem de Malta...

- A salvação pela cruz é para todos – ela o encarou mostrando os caninos – Até mesmo para os descendentes do primeiro homicida...

Ele gargalhou e se afastou fazendo um sinal para seus homens que avançaram. Recolheram as armas e indicaram a direção que o grupo de prisioneiros devia seguir.


CONTINUA EM... 7 dias!


E aqui está a segunda parte. Espero que tenham gostado da primeira e que apreciem esta também.  ^_________^

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