Linha Direta com o Inferno

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Os três homens esperaram pacientemente a passagem dos penitentes: homens e mulheres derramando lamentos para o céu enquanto se batiam com chicotes feitos de couro de cabra. Os dois mais novos, paletó, davam a impressão de não se importar com a multidão enquanto seus olhos corriam todos os arredores por trás das lentes escuras de seus óculos. O mais velho estava vestido de maneira informal e cabelo grisalho desalinhado e mantinha a cabeça baixa evitando a todo custo olhar para a procissão a sua frente.

- Vamos! – disse um dos mais novos, tocando-lhe o ombro, assim que o ultimo flagelante passou.

Ainda cabisbaixo ele obedeceu. Começou a seguir na direção da entrada do saguão do aeroporto. Subitamente fizeram-no parar e levaram suas mãos para dentro dos paletós. Ele sabia que procuravam as pistolas, mas quando levantou os olhos para ver o porquê seus acompanhantes já se encontravam mortos no asfalto.

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- Boa Tarde, padre Tomaz! – a voz saiu com alguns segundos de atraso em relação ao movimento dos lábios do ancião. Por algum motivo o sacerdote achou aquilo engraçado, mas segurou o riso - Gostaria de podermos conversar via videofone, mas as linhas de comunicação africanas não estão estáveis então me perdoe por mandar um disco gravado.

O cardeal fez uma pausa, como se refletisse, antes de continuar:

- Já ouviu falar no SisCoEsp?

Era apenas uma pergunta retórica, porque quem não ouvira falar do Sistema de Comunicação Espiritual, conhecido nos meios menos abastados como “Linha Direta com os Mortos”. Um aparelho do tamanho de uma caixa de sapato, parecido com um rádio, inventado pelo médico espírita Jorge Filho, que ao ser ligado permitia ao usuário conversar com alguém no outro lado da vida. Alguns diziam que era puro charlatanismo, outros gritavam aos quatro ventos de que era a maior invenção desde a roda. Pessoalmente o frade pouco pensou no assunto afinal tal maquina tinha pouca chance de aparecer no deserto do Sudão. Onde a maior preocupação era manter-se vivo durante a seca que enfrentavam e evitar os escravagistas muçulmanos...

- Obviamente tal novidade seduziu primeiramente os jovens, depois as senhoras abastadas e finalmente alcançou as classes mais baixas, graças às ações de alguns oportunistas que viram na caixa uma maneira de aumentar os cofres de suas seitas. E o que parecia apenas uma moda passageira começa a revelar-se um desastre socioeconômico. “Não se encontre entre vós quem pratica a invocação dos mortos”, disse o Senhor. Pode imaginar irmão, como o contato com os mortos pode ser tão viciante que leva o vivo a ser escravo do morto? Uma escravidão absoluta que termina com o vivo se sacrificando pelo morto? Pois é o que vemos desde que esta caixa foi lançada como simples brinquedo.

Temos uma sociedade entrando em colapso, pois os vivos devem atender os desejos de mortos que exigem atenção integral. Presenciamos o retorno de antigos excessos como o dos Flagelantes, que se espalham pelas ruas da Europa e da América Latina. Cultos idólatras a mortos populares se alastrando pelos Estados Unidos e Canadá. Ondas de suicídios se alastrando porque os mortos dizem que o lado de lá é melhor. O irmão faz uma idéia do perigo que corre a humanidade?

Tomaz fazia idéia e se preocupava com o fato de tantas almas estarem se perdendo por causa de um invento tecnológico. Mas, perguntou-se, o que um franciscano perdido no meio do deserto do Sudão, poderia fazer além de rezar? Felizmente o cardeal tinha a resposta:

Ciente da grave crise por que passa a humanidade Sua Santidade expressou o desejo de falar com o inventor do SisCoEsp. O localizamos no Rio de Janeiro mas nossos agentes foram atacados e o inventor seqüestrado. E é neste ponto que precisamos do senhor e de suas habilidades então estamos enviando um veiculo para pegá-lo...

- O quê? – Tomaz teve tempo de falar antes do barulho ensurdecedor de um helicóptero ouvir-se sobre o casebre que lhe servia de igreja. Correu para fora e encontrou uma moça sorridente esperando-o. Ela segurava uma corda que pendia desde a máquina voadora.

- Bom tarde padre Tomaz. Sou a irmã Felícia, terceira ordem agostiniana, e estou aqui para levá-lo. Por favor, segure-se firme.

Sem dar-lhe chance de reação ela passou um cinto em torno de sua cintura e ambos foram alçados pela aeronave que partiu velozmente.


CONTINUA EM UM SETE DIAS...


Já era hora de retomar esse blog e nada melhor do que reinicia-lo com um conto, mesmo que continuado. Espero seus comentários.

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