Linha Direta com o Inferno

04

A sala se encontrava vazia e estaria silenciosa se não fosse o zumbido do portal que fora deixado ligado.

- Vamos agir rápido! Enquanto você distribui as cargas em volta do portal enquanto faço o mesmo na sala de controle!

Não havia muito que discutir com Felicia, ela parecia estar em seu elemento, então Tomaz simplesmente obedeceu. De forma diligente espalhou os explosivos mas parou para contemplar o portal que vibrava sem parar. A luz negra oleosa parecia vibrar criando ondulações em meio ao aro. O padre se aproximou e levou a mão, parando-a a centímetros da luz.

- É fascinante não?

- Mcdamill?! – o franciscano virou e fitou o ex-pastor que o observava de uma plataforma.

- A Escuridão é tentadora não é? Poucos são aqueles que conseguem resistir ao seu chamado. Então padre, que tipo de pessoa o senhor será?

- Ei, Coisa Ruim! Não fique pondo minhoca na cabeça do padre!!
Mcdamill voltou-se a tempo de ver Felicia apertar o gatilho da submetralhadora que carregava. Seu corpo foi atingido por dezenas de projéteis até que despencou imóvel.

Felicia desceu as escadas se aproximando do franciscano. Entregou-lhe o detonador.

- Vamos acabar com isso e cair fora desse asilo de loucos!

O padre consentiu e ia apertando o botão quando...

- Hahahahahhaha! Belo disparo minha cara. Belo disparo.

Para a surpresa de Tomaz o pastor voltou a levantar mesmo tendo seu corpo crivado de balas. A freira pareceu pouca surpresa e antes mesmo que Mcdamill terminasse de falar ela começou a disparar sua pistola. Só que desta vez ele não caiu; as balas entravam em seu corpo como se este fosse feito de espuma.

- Não percebeu que suas balas nada adiantam?

- Percebi! – Felicia jogou a arma fora – Com você vai ser do jeito antigo!

Num salto inacreditável a freira se atirou sobre o pastor, que caiu, iniciando um combate corpo a corpo violentíssimo. Mas o pastor desviou-se de seus golpes e, após agarrá-la pelo ombro, lançou-a em direção a uma das paredes. Então voltou sua atenção para o padre e num piscar de olhos já estava junto ao clérigo.

Assustado pela rapidez e proximidade do outro o padre recuou alguns passos.

- Seria melhor se você me desse este detonador padre! Seria melhor para nós dois...

Tomaz sentia o hálito de enxofre que lhe tonteava ao mesmo tempo em que sentia um desejo enorme de entregar o aparelho para Mcdamill, que parecia babar. O frade chegou a estendeu a mão.

- Nããããooooo!                 

O grito de Felicia pareceu arrancá-lo de um transe. Puxou a mão de volta e olhou firme para Mcdamill; que estremeceu.

- “Só quem perseverar até o fim, será salvo!” – o franciscano citou e apertou o botão. O som das explosões reverberou por todo o aposento e o aro de metal ruiu sob os escombros. Mcdamill soltou um grunhido que gelou o coração do padre.

- Agora você via morrer padre maldito!! – garras, que antes eram dedos, avançaram em direção a garganta do frade.

- Não se esqueça de mim!!

O ataque de Felicia foi tão inesperado que lançou Mcdamill entre os escombros. Mas ela não poderia fazer outro ataque como àquele, Tomaz pensou, observando os ferimentos que expunham a carne da freira. Então decidiu agir; decidiu usar um conhecimento que usara poucas vezes desde que fora ensinado. Os escombros se agitavam enquanto Mcdamill procurava se recuperar. O franciscano ajoelhou-se e tocou no óleo que encharcava o piso desde as explosões. O ex-pastor se levantou e seu olhar colérico fitou Felicia, que se pos entre ele e o padre. Tomaz pronunciou uma prece e agarrou o máximo de óleo possível e passou na frente da freira.

Neste instante Mcdamill avançou, rosnando de fúria. Tomaz permaneceu imóvel até que a criatura estivesse perigosamente próxima; então levantou a mão com o óleo e;

- In Nomine Patris... – a mão desceu aspergindo o olho sobre a criatura que parou assustada.

- Et Filit... – a mão fez outro movimento da esquerda para a direita, aspergindo mais óleo sobre Mcdamill – Et Spiritus Sancti. Amen

O ex-pastor caiu de joelhos urrando como se cordas o apertassem. Felicia caiu de joelhos, juntou as mãos, fechou os olhos, e iniciou uma prece silenciosa.

- Sit haec sancta et innocens creatura, libera ab omini impugnatoris incursu et totius nequitiae purgata discessu – Tomaz continuou – Sit fons vivus aqua regenerans, unda purificans:

O padre aspergiu mais uma vez a cruz de óleo sobre Mcdamill que urrou mais alto. Seus olhos brilhavam de fúria assassina.

- Ut omnes hoc lavacro salutifero diluenti, operante in eis Spiritum Sancto, perfectae purgationis indulgentian consequantur.

O corpo de Mcdamill começou a se contorcer frenéticamente. Seus olhos viravam e uma baba esverdeada escorria de sua boca em meio aos rosnados.

- Unde benedicto te, creatura aquae, per Deum vivum, per Deum verum, per Deum Sanctum; Per Deum qui in principio verbo separavit ab arida:

- Eu te amaldiçôo!! – a criatura deformada pelos espasmos pronunciou entre os dentes cerrados.

- Cuius spiritus super te ferebatur!!

Um novo urro, animalesco, sobrenatural, demoniaco encheu toda a fortaleza fazendo Felicia tremer. Mas, em seguida, caiu o silencio. Um silencio sepulcral, tão intimidador quanto urro final de Mcdamill.

Tomaz tocou no ombro de Felicia; que abriu os olhos.

- Está tudo terminado – ele disse procurando sorrir – Vamos sair desse lugar maldito.

Eles correram escadarias acima e encontraram os templários esperando, apesar de já ter passado os cinco minutos estipulados por Felicia. Ela sorriu, parecia ter certeza de que o oficial templário a estaria esperando.

Conclui em... 7 dias!


Espero que tenham apreciado. Espero seus comentários...


Linha Direta Com o Inferno

03


Tinha algo de estranho acontecendo ali, Tomaz pensava observando o teto da cela. Por algum motivo ele e Felicia haviam sido separados dos outros e enviados para dois quartos existentes nos andares superiores da fortaleza.

Até aquele momento havia deixado levar-se pelos acontecimentos. Não passara-lhe pela cabeça sequer perguntar do porque de precisarem dele naquela missão; estava ali apenas por força de seu voto de obediência para com a ordem. Mas os acontecimentos estranhos estavam se avolumando. Acontecimentos estranhos como aquelas criaturas na vila. Como aquele homem que lhe dizia que era famoso entre sua gente, mas afinal quem era a gente dele? Outra coisa estranha era a conversa que o homem tivera com Felicia. Mais estranha ainda foi a reposta dela.

O sacerdote fechou os olhos, mas abriu-os imediatamente. A maçaneta da porta se movia furiosamente. Depois parou e então veio uma pancada. A porta se abriu com violência e Felicia apareceu.

- Já descansou o suficiente padre. Está na hora de ir!

O padre saltou da cama e correu na direção da porta. Ia perguntar para a freira como ela havia escapado quando viu a garota do lado dela.

- Esta é Amely Mcdamill. Ela era nosso contato dentro da fortaleza – Felicia fez as apresentações sem tirar os olhos do corredor – Precisamos agir rápido! Vou libertar nosso pessoal e o senhor vai resgatar o doutor Jorge Filho...

- Mas não faço idéia de onde ele esteja?

- Eu sei – Amely respondeu – Ele costuma ser mantido próximo ao portal...

- Portal?!

- Não percamos tempo! Vamos!

Felicia não esperou concordância e partiu.

- Não podemos ir pelos corredores principais! - Tomaz disse enquanto observava a freira desaparecer numa curva.

- E não iremos – Amely foi até a parede e tocou num local especifico. Uma parte da parede se moveu e revelou uma escada escondida – Este forte está cheio de passagens secretas. Seja da época espanhola, seja da época inca...

+ + + +

O religioso já perdera a conta de quantas vezes trocara de passagem secreta e de quantos metros descera por aquelas escadarias escuras, poeirentas, cheios de teias de aranha e ar viciado quando Amely abriu aquela que seria a ultima porta. Somente após se assegurar de que a passagem estava livre avançou e fez sinal para que o sacerdote a seguisse.

Primeiramente Tomaz sentiu-se como estivesse numa tumba inca a dezenas de metros dentro da montanha. E talvez estivesse. Depois percebeu que estava num dos laboratórios mais avançados do mundo, tamanha era a quantidade de telas de visor liquido celular de energia, plataformas e cabos de força que existiam por todo aquele lugar. Então, ao ver o imenso portal em forma de aro, teve a certeza de que havia entrado no laboratório de algum cientista louco.

- O doutor está naquele container – Amely apontou um cubículo de aço do outro lado da sala.

Eles começaram a avançar cuidadosamente, evitando tropeçar nos cabos de força que forravam o chão, mas quando passaram na frente do portal o padre não resistiu e parou para admirar a peça. Havia varias inscrições na em todo o aro, passagens bíblicas na verdade, e ele acabou se lembrando de um antigo filme de ficção cientifica que vira na infância. Amely alertou-o de que deviam se apressar.

Libertar o inventor não foi problema, Amely conhecia o código da fechadura eletrônica, o problema era carregá-lo, pois estava muito debilitado e mal conseguia manter-se em pé. Com dificuldade a garota e Tomaz conseguiram levá-lo até o portal. Foi quando ouviram o desengatilhar das armas.

- Ora, ora, o que temos aqui? Uma filha rebelde e um padre fugitivo...

- Você não é meu pai! – Amely gritou em meio a soluços – Não mais...

O clérigo tentou acalmá-la.

- Quer ouvir uma história padre? Sei que quer... Há muitas perguntas em sua cabeça: Tudo começou quando a esposa deste ser morreu e ele pos na cabeça que queria continuar falando com ela. As sessões espíritas ajudaram durante um tempo, mas não estava bom; havia muita gente e sentia falta de intimidade e privacidade. Então resolveu dar uma de inventor e criar uma máquina para falar com os mortos. E não é que ele conseguiu, o que considero um grande golpe de sorte, mas nunca conseguiu localizar a esposa no além. Também pudera, a máquina alcançava apenas um nível do “outro lado”, o Céu, mais especificamente o Purgatório. Então decidiu comercializar seu invento e assim conseguir capital para aperfeiçoá-lo até conseguir contato com o Paraíso dos Santos. Criatura tola, sua arrogância humana não o deixou pensar por um momento que sua esposa não estava no Céu...

- Não! Pare, pare!! – o cientista começou a gritar tapando os ouvidos – Não quero ouvir é mentira!!

- Está vendo. Mesmo após ter ouvido a verdade seu orgulho não o deixa acreditar. Acreditar que a sua querida e amada esposa está no Inferno. Bom, continuando, é neste ponto que entra o pai desta garota. O pastor Allan Mcdamill tinha prosperado incrivelmente desde que fundara sua própria igreja, mas ele sentia que poderia conseguir mais só precisava que a oportunidade surgisse. E a oportunidade apareceu quando ficou sabendo do aparelho criado pelo doutor Jorge. Então pensou: se as pessoas pagam para terem um lugar garantido no céu depois da morte, quantos não pagariam para ir, em vida, para o céu?

- É mentira!! Meu pai nunca faria isso! Ele sempre foi um homem devotado a Deus...

- Será? Se sua mãe estivesse aqui ela poderia contar-lhe como era seu pai “temente a Deus”. Mas ela não esta aqui não é mesmo?

- Pare de atormentar essas pessoas!!! – Tomaz gritou tentando acalmar Amely.

- Ora padre, achei que gostasse de uma boa história? Ora, não quer saber para que serve este portal atrás de vocês? Ele foi os frutos do investimento do pastor Mcdamill; um portal que desse acesso direto ao Paraíso.  Infelizmente, para ele, quando percebeu que se enganara já era tarde: já atravessara sua criação e sua alma mergulhava no desespero e na loucura. Somente aqueles com proteção divina, como a freira espanhola e aquelas crianças portuguesas, podem contemplar a Danação Eterna e não enlouquecer...

- Se você não é o pai de Amely! Então, quem é você?

- Ainda não percebeu? Havia uma casca vazia perambulando pelos infernos e uma porta aberta, não poderia deixar passar a oportunidade. Por azar o portal só permite o ir e vir de humanos. Aqueles de meu povo que conseguem atravessar sem uma casca humana não passam de animais como você percebeu...

- Se é verdade que apenas humanos podem voltar de lá porque minha mãe não voltou?

- Porque não era para ela voltar. Ela era um presente meu para meus senhores. Mas não se preocupe minha cara – Allan Mcdamill sorriu – logo você se juntara a ela. Assim como o padre e esse inventor imprestável! Ativem o portal!!

Um zumbido energético foi ouvido e o imenso aro de metal negro começou a girar. E, em questão de segundos um vortex, como a superfície de um lago, surgiu entre o aro refletindo uma luz negra oleosa.

- Tenham a bondade – Mcdamill disse enquanto dois de seus asseclas lhes empurravam com os canos de suas armas na direção do portal.

- Não! – Amely gritou – Eu não irei! Prefiro morrer!

Num primeiro momento, Tomaz se assustou com a súbita coragem a moça, mas concordou com ela. Existiam fins piores que a morte.

- De um jeito ou de outro você vai para lá mesmo, minha querida...

- Então prefiro ir morta!!

- Para mim tanto faz. Homens: atendam o desejo desta garota.

Armas foram apontadas e o barulho de disparos foi ouvido.

Mas não foram os disparos dos homens de Mcdamill. O som ouvido foi o das armas dos comandos, liderados por Felicia, que atravessaram todo a sala derrubando vários dos asseclas de Mcdamill.  Os sobreviventes procuraram abrigo, esquecendo-se completamente dos reféns.

Protegidos sob os disparos dos companheiros dois comandos se aproximaram.

- Vamos sair daqui!

Pegaram o inventor e voltaram pelo caminho que vieram. O frade pegou na mão de Amely e seguiu-os. Logo estavam em meio aos companheiros.

- Já temos o que viemos pegar! - a freira disse ao recarregar a pistola – Bom trabalho padre! Vamos sair daqui pessoal!

Um a um eles recuaram para o corredor e começaram a abrir caminho para os andares superiores.

- Há um helicóptero no telhado, vamos usá-lo para sair daqui!!

 - Não podemos! – Tomaz gritou – Temos que destruir aquele portal! Imagina o que acontecerá se conseguirem trazer milhares de criaturas como aquela da vila para o mundo!

- Você tem razão. Sargento: me de alguns explosivos e detonadores!

Rapidamente o oficial passou os apetrechos para a freira e o padre.

- Usem as passagens – Amely sugeriu tocando numa parede abrindo uma escadaria.

- Ok! Vocês continuem e esperem por cinco minutos! Se não voltarmos; decolem!

- Mas...

- Nada de “mas” sargento! É uma ordem! Vamos... –  ela e o clérigo enfiaram-se na escadaria escura.

CONTINUA EM... 7 DIAS!!

Ufa! Quase que não dá tempo de postar o capitulo, mas aqui esta ele... espero que gostem! E não deixem de comentar...


Linha Direta Com o Inferno

02

Era noite e o learjet negro cortava velozmente através dos Andes. Tomaz ainda tentava assimilar o que acontecia; doze horas atrás estava no acampamento de refugiados do Sudão cumprindo de sua paróquia e então uma freira apareceu e o arrastou até Cartum onde pegaram um avião para Lisboa. De lá decolaram para Salvador onde embarcaram no jato que agora voava sobre os Andes Chilenos. Seus olhos passearam pelo compartimento; fora ele e a irmã Felicia estavam naquele avião duas mulheres e quatro homens que exibiam cruzes cinzas nas mangas dos uniformes totalmente negros. Eles lembravam-lhe membros de uma força especial de algum exército.

- Acho que deve haver muitas perguntas em sua cabeça, não é? – Felicia, que estava sentada a se lado, disse enquanto checava sua pistola – Logo após o seqüestro do inventor o Vaticano e vários paises iniciaram uma busca desesperada. Foi uma busca infrutífera até que um informante notificou a arquidiocese chilena. Então fomos convocados e estamos rumando para uma antiga fortaleza espanhola nos Andes. Temos ordens expressas de resgatar o inventor das mãos de possíveis fanáticos religiosos...

- Mas este tipo de missão não é serviço deles?

- Pois é, mas por algum motivo eles me querem e querem você nela...

- Dois minutos para o ponto de lançamento - a voz do piloto interrompeu-lhes.

- Ok! Checar equipamento! – o líder dos comandos anunciou e todos se entregaram a tarefa no minuto restante.

- Preparar para saltar - outra vez o autofalante anunciou e uma luz sobre a porta mudou de vermelho para amarelo. O líder dos comandos levantou-se e abriu-a. Todos seguiram seu exemplo e perfilaram.

- Padre!? Podia nos abençoar?

O pedido pegou Tomaz de surpresa ao mesmo tempo em que a luz mudava de amarelo para verde.

- Que Deus lhes abençoe! – foi tudo o que conseguiu dizer.

Um “amém” uníssono se ouviu. Todos fizeram o sinal da cruz e o comandante ordenou que o primeiro comando saltasse. Em questão de segundos todos estavam envoltos pela escuridão.

+ + + +

“Para uma primeira vez até que o pouso foi macio”, Tomaz pensou enquanto procurava se livrar das cordas do pára-quedas que insistiam em se enrolar em suas pernas.

- Tá precisando de ajuda padre?

A voz de Felicia o assustou. Ele tinha certeza de que havia caído afastado dos outros e não ouvira ninguém se aproximando. A freira cortou as cordas com uma faca e indicou o caminho para onde tinham que seguir até encontrar com os outros. Estavam num bosque, no sopé de uma das montanhas da cordilheira. Era uma noite sem lua e o silencio era absoluto; nem mesmo ouvia-se os ruídos dos animais que caçavam a noite. Logo se encontraram e começaram a subir.

Era uma subida difícil, pelo menos para um sacerdote acostumado a planície desértica do norte da África, pois os comandos avançavam com desenvoltura apesar de estarem sendo cautelosos.

Quando o céu oriental começou a tomar os tons de uma nova manhã chegaram em um platô, ficando frente a frente com uma aldeia inca abandonada. Todos se entreolharam; não esperavam encontrar uma aldeia naquela altitude, nem tinham sido informados de que haveria uma. A um sinal do comandante voltaram a se mover de forma cautelosa.

Felicia se aproximou de Tomaz e fez um sinal mostrando algo para ele na  montanha logo acima. O sacerdote teve que forçar a vista para poder ver as paredes do forte entremeio as rochas.

- Antes de ser um forte espanhol a fortaleza era uma construção inca...

Felicia calou-se. Um dos comandos havia feito um sinal e todos pararam. Estavam no meio da aldeia e todos sentiam como se o silencio fosse mais agudo entre aquelas ruínas.

Súbito! O som de pedregulho sendo pisado. Todos olharam em volta e destravaram suas armas. Não estavam a sós afinal. Um vulto correu entre as ruínas de duas casas. Foi seguido por outro no lado oposto. Depois outro. E outro. A tensão entre os comandos começava a se tornar palpável.

- Vamos avançar sargento!! – Felicia gritou para o líder do grupo – Estamos desprotegidos aqui!

O oficial fez um sinal e todos voltaram a marcha. Não deram quatro passos e o grito, logo abafado, do ultimo soldado da fila chamou a atenção de todos.

Havia três criaturas sobre ele. Ele se debatia desesperado enquanto elas rasgavam-lhe a carne com seus dentes e garras. Como que pressentindo o pavor entre os soldados uma das criaturas levantou a cabeça e mostrou-lhes os dentes de tubarão, cheio de carne humana, num sorriso macabro. Foi abatido pelos disparos dos AK-47.  Levantou-se novamente e sua bocarra exibiu um sorriso satisfeito.

- Temos que sair daqui!! – alguém gritou.

- Não há mais tempo – Felicia respondeu. Seus olhos estavam fixos nas criaturas que abandonavam as ruínas – Estamos cercados.

As criaturas, uma centena delas, avançavam com seus longos dedos com garras adiante e com as bocarras escancaras, exibindo os dentes de tubarão, deixando escorrer uma saliva fétida.

Os comandos destravaram suas armas. Felicia sacou a pistola e o franciscano, por um minuto, pensou que não devia ter recusado a arma quando a freira lhe ofereceu. Nenhum deles esperava sair daquela armadilha com vida, mas não iriam tombar sem lutar. Em silencio, o padre encomendou a alma de todos.

Neste momento um assobio agudo ecoou por entre as ruínas. As criaturas pararam com se tentassem escutá-lo. Um segundo assobio, só que mais forte e longo, ecoou. Então as criaturas começaram a recuar com o temor em seus rostos. Sem entender nada os religiosos e os comandos mantiveram suas posições.

As criaturas continuaram recuando até pararem e abrirem caminho para vários homens armadas, com exceção de um que estava vestido como um nobre espanhol do século dezoito.

- Sugiro que abaixem as armas, senhores! – disse – Se quiserem sair vivos daqui!

A uma ordem de seu comandante todos soltaram as armas e levantaram as mãos. O homem sorriu satisfeito.

- Muito bom! Ao contrário do que parecem, vocês são seres sensatos. É uma honra tê-lo aqui padre Tomaz, o senhor não sabe, mas é famoso entre minha gente...

- E o senhor quem é?

- Tudo à seu tempo padre. Tudo à seu tempo. Agora tenho algo mais importante aqui.

O homem avançou na direção de Felicia e numa reação instintiva dois comandos se puseram entre eles. O homem fez uma careta. A freira ordenou que eles se afastassem e ficou face a face com o nobre espanhol.

- Muito me surpreende ver alguém como você entre os soldados da Ordem de Malta...

- A salvação pela cruz é para todos – ela o encarou mostrando os caninos – Até mesmo para os descendentes do primeiro homicida...

Ele gargalhou e se afastou fazendo um sinal para seus homens que avançaram. Recolheram as armas e indicaram a direção que o grupo de prisioneiros devia seguir.


CONTINUA EM... 7 dias!


E aqui está a segunda parte. Espero que tenham gostado da primeira e que apreciem esta também.  ^_________^

Linha Direta com o Inferno

01


Os três homens esperaram pacientemente a passagem dos penitentes: homens e mulheres derramando lamentos para o céu enquanto se batiam com chicotes feitos de couro de cabra. Os dois mais novos, paletó, davam a impressão de não se importar com a multidão enquanto seus olhos corriam todos os arredores por trás das lentes escuras de seus óculos. O mais velho estava vestido de maneira informal e cabelo grisalho desalinhado e mantinha a cabeça baixa evitando a todo custo olhar para a procissão a sua frente.

- Vamos! – disse um dos mais novos, tocando-lhe o ombro, assim que o ultimo flagelante passou.

Ainda cabisbaixo ele obedeceu. Começou a seguir na direção da entrada do saguão do aeroporto. Subitamente fizeram-no parar e levaram suas mãos para dentro dos paletós. Ele sabia que procuravam as pistolas, mas quando levantou os olhos para ver o porquê seus acompanhantes já se encontravam mortos no asfalto.

+ + + +

- Boa Tarde, padre Tomaz! – a voz saiu com alguns segundos de atraso em relação ao movimento dos lábios do ancião. Por algum motivo o sacerdote achou aquilo engraçado, mas segurou o riso - Gostaria de podermos conversar via videofone, mas as linhas de comunicação africanas não estão estáveis então me perdoe por mandar um disco gravado.

O cardeal fez uma pausa, como se refletisse, antes de continuar:

- Já ouviu falar no SisCoEsp?

Era apenas uma pergunta retórica, porque quem não ouvira falar do Sistema de Comunicação Espiritual, conhecido nos meios menos abastados como “Linha Direta com os Mortos”. Um aparelho do tamanho de uma caixa de sapato, parecido com um rádio, inventado pelo médico espírita Jorge Filho, que ao ser ligado permitia ao usuário conversar com alguém no outro lado da vida. Alguns diziam que era puro charlatanismo, outros gritavam aos quatro ventos de que era a maior invenção desde a roda. Pessoalmente o frade pouco pensou no assunto afinal tal maquina tinha pouca chance de aparecer no deserto do Sudão. Onde a maior preocupação era manter-se vivo durante a seca que enfrentavam e evitar os escravagistas muçulmanos...

- Obviamente tal novidade seduziu primeiramente os jovens, depois as senhoras abastadas e finalmente alcançou as classes mais baixas, graças às ações de alguns oportunistas que viram na caixa uma maneira de aumentar os cofres de suas seitas. E o que parecia apenas uma moda passageira começa a revelar-se um desastre socioeconômico. “Não se encontre entre vós quem pratica a invocação dos mortos”, disse o Senhor. Pode imaginar irmão, como o contato com os mortos pode ser tão viciante que leva o vivo a ser escravo do morto? Uma escravidão absoluta que termina com o vivo se sacrificando pelo morto? Pois é o que vemos desde que esta caixa foi lançada como simples brinquedo.

Temos uma sociedade entrando em colapso, pois os vivos devem atender os desejos de mortos que exigem atenção integral. Presenciamos o retorno de antigos excessos como o dos Flagelantes, que se espalham pelas ruas da Europa e da América Latina. Cultos idólatras a mortos populares se alastrando pelos Estados Unidos e Canadá. Ondas de suicídios se alastrando porque os mortos dizem que o lado de lá é melhor. O irmão faz uma idéia do perigo que corre a humanidade?

Tomaz fazia idéia e se preocupava com o fato de tantas almas estarem se perdendo por causa de um invento tecnológico. Mas, perguntou-se, o que um franciscano perdido no meio do deserto do Sudão, poderia fazer além de rezar? Felizmente o cardeal tinha a resposta:

Ciente da grave crise por que passa a humanidade Sua Santidade expressou o desejo de falar com o inventor do SisCoEsp. O localizamos no Rio de Janeiro mas nossos agentes foram atacados e o inventor seqüestrado. E é neste ponto que precisamos do senhor e de suas habilidades então estamos enviando um veiculo para pegá-lo...

- O quê? – Tomaz teve tempo de falar antes do barulho ensurdecedor de um helicóptero ouvir-se sobre o casebre que lhe servia de igreja. Correu para fora e encontrou uma moça sorridente esperando-o. Ela segurava uma corda que pendia desde a máquina voadora.

- Bom tarde padre Tomaz. Sou a irmã Felícia, terceira ordem agostiniana, e estou aqui para levá-lo. Por favor, segure-se firme.

Sem dar-lhe chance de reação ela passou um cinto em torno de sua cintura e ambos foram alçados pela aeronave que partiu velozmente.


CONTINUA EM UM SETE DIAS...


Já era hora de retomar esse blog e nada melhor do que reinicia-lo com um conto, mesmo que continuado. Espero seus comentários.