CANHÕES DE MARTE

OITAVA PARTE


Fobos é a maior lua de Marte com um diâmetro médio de 22,4 Km. Também é a lua mais próxima de Marte ficando a aproximadamente 6000 Km da superfície marciana, sendo também a lua mais próxima de seu planeta em todo sistema solar. Uma de suas características marcantes é o grande numero de crateras, sendo as sete maiores conhecidas como: d’Arrest, Hall, Roche, Sharpless, Stickney, Tood e Wendell.

Com quase dez quilômetros Stickney é a maior de todas e por este motivo fora o lugar escolhido para construir aquela que era uma das mais antigas colônias de cúpula do Sistema. De Stickney saíram as naves e os trabalhadores que terraformaram Marte e além.

Mas esses fatos fazem parte do passado. Naquele tempo Stickney não passava de uma colônia semi-esquecida e decadente, aonde a quantidade de prédios abandonados e docas vazias superava o número de seus habitantes.

Felisatti, Liambos e Fisher sentiram toda esta decadência quando desceram do transporte. Foram recebidos por um homem de meia idade que trazia nos olhos o brilho de quem havia visto dias melhores.

– Sou Dante Matsuda! – Apresentou-se - Sejam bem-vindos à cidade colônia Stickney!

– Obrigado, senhor Matsuda! Sou o capitão Felisatti e estes são a agente Liambos e o sargento Fisher!

Matsuda cumprimentou-os com um movimento de cabeça.

– Por aqui, senhores e senhora!

Entraram no veiculo apontado por Matsuda e partiram para as zonas residenciais da colônia. Pararam em frente a uma residência semi-incrustada na rocha lunar. Minutos depois estavam debruçados sobre uma mesa contendo fotos e mapas de Fobos e do canhão uranita. Três marcianos estudavam o mapa junto a eles.

A cratera onde se encontrava a arma uranita distava uns dez quilômetros da cidade, então os comandos chegaram à conclusão de que o melhor meio para alcançá-la seria através de uma caminhada externa. Mas havia um problema: numa tentativa de proteger sua arma os uranitas haviam proibido caminhadas externas, estando todas as comportas de acesso ao exterior vigiadas ou lacradas com soldas de oxigênio.

Já cogitavam a tomada de assalto de uma das comportas quando um dos marcianos surgiu com a solução.

– Agora estou me lembrando! Quando era garoto eu e uns amigos descobrimos um túnel da época da construção da colônia que levava para fora dos limites da cúpula! E no fim deste túnel, se me lembro bem, havia uma comporta de descompressão! Só não sei se esta funcionando, pois nunca tentamos abrir! Tínhamos medo de sermos sugados para o espaço!

– Você lembra onde fica esse túnel?

O marciano balançou positivamente a cabeça.

* * * * *

O veiculo parou em frente a uns edifícios em ruínas que, como a casa onde estavam hospedados, estavam semi-incrustados na rocha da cratera. Sua arquitetura mostrava que aquelas habitações eram tão velhas quanto a colônia.

O marciano, Fisher e outro marciano desceram do carro e entraram em um dos prédios.

– Se não me falha a memória é por aqui! – Disse, indicando uma escada de metal semi-obstruída que descia para a escuridão.

Os três desceram, ouvidos atentos a cada rangido do metal enferrujado. Suspiraram de alivio quando chegaram ao final. Os fachos das lanternas iluminaram todo o cômodo, possivelmente um depósito, e localizaram a entrada do túnel.

Uma hora de caminhada depois adentraram outro cômodo, possivelmente um hangar dada a profusão de caixas e peças, itens comumente encontrados nestes locais. Fisher teve certeza de que se tratava de um hangar antigo quando sua lanterna encontrou os restos dos macacos hidráulicos que serviam aos elevadores.

– Aqui, sargento!

O comando atendeu o chamado e logo estava num pequeno vestíbulo adjacente. Os fachos de luz exploraram todo o local até deterem-se na porta. Fisher examinou os controles manuais e constatou que eles funcionavam.

– Devia ser uma saída de manutenção ou de emergência! – comentou passando a lanterna a um dos marcianos.

– Me ajude! – disse ao outro.

Os séculos de desuso tornaram a tranca teimosa. Cedeu apenas quando os músculos doíam e os corpos estavam cobertos de suor. O ar, aprisionado por gerações, era fétido, invadiu e queimou gargantas e pulmões.

Fisher estudou cada canto da câmara detendo-se com calma na porta que dava para o exterior. Seu estado parecia semelhante à interna. Entretanto precisava certificar-se, mas somente faria isso quando voltasse com um escafandro.

* * * * *

Após Fisher ter se certificado que a câmara não ofereceria perigo os três a usaram. Segundos depois estavam na superfície de Fobos. A cúpula cobria-os com sua sombra.

Felisatti consultou o mapa e apontou uma direção. Fisher e Liambos ajeitaram suas mochilas e seguiram-no.

Seria uma dura caminhada, dificultada pela falta de gravidade do satélite e pela camada de poeira que recobria o solo que em certos momentos batia-lhes no joelho.

Após cinco horas, quase à beira da exaustão, eles vislumbraram a cratera que era o lar do canhão uranita.

Uma das mais antigas doutrinas militares era a que dizia que instalações militares construídas em astros cuja única atmosfera era o vácuo celeste não precisavam de defesas antipessoais de proximidade. Felisatti contava que os uranitas estivessem seguindo esta doutrina quando começou a vasculhar a encosta da cratera com o binóculo de aproximação digital.

– Não há nada lá! Apenas as casamatas costumeiras das AA e os silos dos SAM! – Disse após alguns minutos.

– Adoro o conservadorismo militar! – Fisher sorriu - Eles nunca esperariam uma ação de sabotagem perpetrada por comandos em escafandros!

– Então aproveite bastante, amigo! Pois hoje é o dia em que esta doutrina cairá! – Liambos bateu em seu ombro antes de seguir Felisatti, que retomava o caminho em direção a cratera.

Em vinte minutos eles já ultrapassavam a primeira casamata. Não havia nenhuma presença de vigilância uranita, nem ao menos eletrônica. Cautelosamente começaram a escalar as encostas íngremes. Graças à ausência de gravidade não demoraram muito para estarem debruçados sobre a borda observando o imenso espelho de aço polido em forma de parabólica que cobria o fundo da cratera.

O binóculo de Felisatti passeou por toda a extensão da cratera por alguns minutos.

– Ao que parece o sistema todo é automático! Há toda uma rede de trilhos para robôs de manutenção sobre o espelho! Pude identificar apenas quatro escadas que começam na borda da cratera e levam diretamente até o centro!

– Parece que os uranitas não confiam tanto assim nos robôs para deixá-los cuidar do mecanismo principal!

– Agora ouçam meu plano: eu descerei até o centro da arma para por uns explosivos naquele centro enquanto que vocês darão a volta na cratera! Estão vendo aquelas rochas elevando-se acima da borda do espelho? Então, há fissuras nelas, se colocarem as cargas dentro destas fissuras a reação desmoronará todo aquele lado da cratera! Agora vão! E cuidado!

Eles se separaram.

Felisatti procurou um meio de chegar à borda do espelho e quando o tocou começou a avançar cautelosamente até o ponto onde se iniciava uma das escadas. Escorregou uma, duas vezes. Mas em todas conseguiu manter o equilíbrio apesar do suor em sua testa. Se caísse seria morte na certa.

Enfim alcançou a escada. No chão, delineado no aço do espelho, via-se as marcas da comporta que se abria para a passagem dos técnicos. Torceu para que a arma estivesse funcionando perfeitamente. Devagar começou a descer a escada.

Demorou mais do que gostaria, mas chegou ao fundo. Ajoelhou-se e contemplou o mecanismo por alguns segundos antes de retirar as cargas dos bolsos do escafandro. Uma detonação concentrada ali causaria mais dano do que se explodisse diversas cargas por todo o espelho da parabólica.

Cinco minutos foi o tempo que levou para instalar as cargas de uma forma que maximizasse o dano. Conectou o detonador conjunto. Levantou-se e girou nos calcanhares.

Quase caiu sobre os explosivos. A menos de trinta centímetros de seu rosto um olho eletrônico olhava-o fixamente. O robô de manutenção não esboçou nenhuma reação. Felisatti começou a suar olhando em volta, procurando o ponto onde as escadas terminavam e... nem sinal de que as comportas estavam se abrindo.

Deixou o robô para trás e começou a subir apressadamente. A máquina começou a segui-lo, com seu olho vermelho inquirindo-o. Felisatti sacou a pistola. Através daquele olho os uranitas deviam estar seguindo seus passos. Apontou a arma e atirou no olho vermelho. Faíscas voaram e a maquina parou.

Aproximou-se do fim da escada. Um ar gelado começou a vazar pelas fissuras da comportas. Os uranitas estavam vindo. Retirou uma granada do bolso e colocou sobre a comporta.

Recuou e deitou-se, protegendo a cabeça. Um silvo silencioso ecoou quando a comporta se abriu por completo. Imediatamente a granada detonou consumindo o oxigênio restante, transformando a antecâmara num forno e calcinando quem estivesse nela.

Levantou-se e passou pelo buraco sem olhá-lo. Aquela comporta estava inutilizada, mas ainda havia outras três.

– Fisher! Liambos! Precisamos neutralizar as escadas! – Gritou pelo comunicador.

A resposta foi imediata. Uma outra comporta desapareceu sob o peso da detonação de uma mina teleguiada. O capitão tinha certeza de que era obra de Fisher.

Percebeu um vulto. Liambos descia até a comporta, de seu lado, e colocou várias granadas sobre a mesma. Com certeza um exagero, Felisatti pensou, mas que causaria um belo estrago quando caíssem dentro da antecâmara.

Ela veio ao encontro dele. Caminhou apenas alguns metros quando a comporta se abriu e as granadas detonaram. A força da explosão desequilibrou-a. Prevendo o pior Felisatti correu. Conseguiu agarra-la quando seu corpo já começava a rolar para a morte no fundo da cratera.

– Obrigada, capitão! Acho que exagerei nos fogos!

– Mas foi um espetáculo e tanto!

Então veio o primeiro tiro. A bala passou entre eles e ricochetou, para longe, no piso espelhado. A ultima comporta havia sido aberta e por ela surgiam vários guardas uranitas.

Felisatti revidou enquanto ajudava Liambos a se firmar. Imediatamente ela sacou sua arma e prestou ajuda derrubando um uranita logo no primeiro disparo, cujo corpo inerte caiu sobre seus companheiros.

Aproveitando a confusão os comandos procuraram escalar a encosta. A primeira a subir foi Liambos que voltou a disparar dando cobertura para que o capitão também subisse. Mas antes que seus tiros chegassem aos guardas a cabeça de um deles esfarelou-se: Fisher também estava disparando, do lado oposto.

Subitamente os uranitas, ainda presos dentro da antecâmara, viram-se entre o fogo cruzado de Liambos, Felisatti e Fisher. Sem alternativa recuaram. Era a deixa que Fisher precisava. Primeiro uma. Depois outra. As duas granadas bateram na borda da abertura e rolaram para dentro. Mais uma vez línguas de fogo elevaram-se e o aço retorceu para fora.

– Vamos dar o fora antes que mandem os veículos!

Felisatti e Liambos transpuseram a borda e começaram a descer a cratera. Então, o capitão lembrou-se dos trilhos. Mesmo com as escadas destruídas os uranitas poderiam mandar os robôs desativarem as cargas no centro.

– PROTEJAM-SE! Vou detonar a carga do centro! – Gritou pelo comunicador.

Levantou o braço e apertou o botão no bracelete. O tremor desequilibrou-os, fazendo com que rolassem pela encosta. Uma nuvem de poeira negra, rocha, gelo, metais e plástico retorcido elevou-se no centro da cratera.

Pararam de rolar quando uma casamata se interpôs em seu caminho.

– Fisher! FISHER! – O capitão gritou pelo interfone, recebendo apenas estática. – DROGA! Responda Allan!

– Estou bem, capitão! – Sua voz chegou entrecortada pela estática. - A explosão me fez rolar pela encosta e o radio acabou se danificando!

– Vamos nos encontrar no sopé! No ponto combinado!

Felisatti recebeu apenas estática como resposta. Mesmo sem responder o sargento já havia partido. Ele e Liambos fizeram o mesmo após conferirem se seus escafandros estavam intactos.

Vinte minutos depois se encontraram. Os três arfavam, mas sorriam.

Não havia sinais de patrulhas aéreas. Com certeza estavam mais preocupados em conter os danos do que perseguir os comandos.

– Tá na hora de completarmos nosso serviço! – Mais uma vez Felisatti ergueu o punho e apertou o bracelete.

Por alguns segundos nada aconteceu. O sargento e a agente haviam enterrado as cargas profundamente nas fissuras e apenas uma leve nuvem de poeira elevou-se nos lados da cratera.

Então um tremor como aquele que aconteceu quando o capitão detonou a primeira carga sacudiu-os. Eles se firmaram, mas um segundo tremor mais violento arremessou-os ao chão. Tudo ao seu redor tremia e puderam vislumbrar o solo enchendo-se de fissuras.

Por um instante temeram que a própria lua fosse se partir. Mas o tremor parou e um estrondo que entrou pelos microfones externos dos escafandros anunciou quando as bordas da cratera começaram a desmoronar.

Em minutos tudo o que sobrou do canhão de Fobos foi um monturo de gelo, rocha e metais retorcidos.


CONCLUI EM... 7 DIAS!

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