CANHÕES DE MARTE


SÉTIMA PARTE

Deimos, com 12,20 Km de diâmetro médio, é a menor lua de Marte e também o menor satélite natural de todo Sistema Solar. Assim como Fobos apresenta um formato irregular semelhante a uma batata. É formado por uma mistura de rocha escura e gelo, por esse motivo reflete muito pouca luz, possuindo, no céu de Marte, um brilho semelhante ao da estrela Vega na constelação de Lira.

A lua marciana possui uma superfície escura e cheia de crateras, entretanto tais crateras não são muito grandes. As maiores são Swift, com 2,3 Km de diâmetro, e Voltaire, com 3 Km de diâmetro. Outra característica é a pouca profundidade das crateras, parecendo que foram cobertas por um material semelhante à poeira. Em alguns casos, só é possível ver os contornos e bordas dessas crateras.

E era numa destas crateras, mais precisamente na cratera Swift, que estava instalado o canhão de disrupção ionica. Graças ao trabalho da resistência os comandos tinham uma ampla visão, através de fotos, descrições e até mesmo uma ou duas plantas, das instalações militares de Deimos.

Para Ibañes, com todos seus anos de pratica como demolidora nas minas do cinturão de asteróides, bastou apenas olhar uma única vez as fotos e plantas para que esboçasse um sorriso. O major já havia visto aquele sorriso em outras ocasiões: ela já sabia onde pôr cada carga para que o dano fosse maximizado ao extremo.

Só restava encontrar um jeito de chegar a Deimos.

Era sobre este tema que debatiam quando um homem calvo e de olhar astuto entrou na sala chamando a atenção de todos.

– Deixe-me apresentá-lo. – Ferratti se aproximou do estranho. – Este é Herculano Vivarina, um dos responsáveis diretos por havermos conseguido tantas informações sobre as instalações em Deimos...

– Não fiz nada de mais! Os verdadeiros responsáveis, que merecem todo o crédito, foram as moças que deixaram sua honra de lado em nome da causa! – Vivarina voltou sua atenção para os comandos.

– Acontece, senhores, que a condição de conquistadores dá aos uranitas algumas regalias. Então uma vez por semana chega à minha pessoa uma lista destas regalias que na condição de conquistado devo cumprir...

– E quais seriam estas regalias?

– Ora, o que um grupo de homens isolados numa base perdida no espaço mais querem? Biscoitos, alguns pedaços de picanha, vinhos e vodkas e...

– Principalmente mulheres! – Ibañes completou, sem tirar os olhos de um mapa da base.

– Exatamente senhorita. Enfim, coisas simples, mas que alegram a vida de um homem.

– Seus compatriotas devem amá-lo!

– Confesso que é uma tarefa ingrata, mas recebemos alguma compensação como podem ver pelas fotos e mapas que os senhores tem em mãos! Meus amigos uranitas me têm em tão alta estima que nem perguntam o que há nos porões de minha singela nave.

– Ótimo! – Francisco levantou-se e apertou a mão de Vivarina. – Obrigado por sua colaboração, senhor Vivarina! Bom, agora que resolvemos este problema passemos ao plano em si! Ibañes?

A tenente avançou em meio aos homens e abriu um mapa por sobre as fotos.

* * * * *

O ônibus espacial, o que de fato era a nave de Vivarina, iniciou as manobras para pousar no exíguo astroporto da base. Pouso completado, as pesadas comportas fecharam sobre ele, isolando-o do exterior.

Vivarina desceu seguido por um séqüito de mulheres com olhares assustados. Um oficial veio recebê-lo e logo chamou dois guardas que acompanharam as mulheres para o interior da base. Vivarina, o oficial e mais alguns guardas aproximaram-se da porta do compartimento de carga. Um código foi digitado e a porta se abriu. Imediatamente, os uranitas entraram e começaram a descarregar a carga.

O trabalho demorou uns vinte minutos e, então, o hangar foi tomado pelo silêncio.

Nesse momento, um clique surdo e abafado foi ouvido. A porta de um alçapão se abriu no piso do ônibus espacial. Francisco foi o primeiro a sair, ele vestia o escafandro espacial e empunhava a pistola. Logo foi seguido por Ibañes e Bilatto. Um rápido olhar pela porta abaixada mostrou que o hangar estava deserto. Os uranitas deviam estar se divertindo à custa das bebidas e das moças.

A tenente indicou uma porta no sentido oposto aquela por onde haviam ido os uranitas e as moças. Correram até lá. Bilatto usou suas habilidades e destrancou a porta. Um corredor que tinha as paredes forradas por cabos abriu a sua frente.

A velocidade com que haviam construído aquela arma não permitira aos uranitas criarem uma estrutura complexa. Simplesmente usaram a cratera para terem a antena parabólica necessária e instalaram os equipamentos de controle e operação numa casamata pré-fabricada na encosta. Mas, por mais simples que fosse o projeto, deveriam dispor de um meio para eventuais reparos nos mecanismos que corriam por toda a extensão da cratera. Para este fim fora criada uma rede de corredores de serviço. E era num destes corredores que eles haviam entrado.

Ibañes distribuiu as cargas. Entregou para Francisco e Bilatto um mapa simples indicando onde deveriam instalar as cargas para que conseguissem o máximo de dano. Como não havia como saberem se havia ar respirável nos corredores decidiram manter os capacetes vedados.

Não deviam perder tempo, então Bilatto seguiu para a direita. Francisco e Ibañes para a esquerda. Assim que chegaram numa bifurcação a tenente entrou por ela deixando que o major seguisse só.

Graças à distração proporcionada por Vivarina e suas mulheres os comandos puderam instalar as cargas sem contratempos. Duas horas depois estavam de volta ao ponto de partida. A respiração de todos estava ofegante por terem corrido a maior parte do percurso, mas os sorrisos que se divisavam através dos visores indicavam que haviam cumprido a tarefa.

Abriram a porta cuidadosamente e, ao constatarem que não havia ninguém no hangar, avançaram na direção do ônibus.

Então, quando se encontravam no meio do caminho, uma porta se abriu e por ela surgiu um guarda uranita. Depois outro e mais outro.

A visão dos invasores em seus escafandros surpreendeu os guardas, retardando suas reações. Os terráqueos se aproveitaram. Pistolas abandonaram seus coldres e abateram dois deles instantaneamente. Infelizmente um dos disparos não foi tão preciso. Apenas raspou na cabeça do uranita que procurou abrigo do outro lado da porta. Imediatamente as sirenes de alerta começaram a soar.

Francisco, Bilatto e Ibañes praguejavam por sua falta de sorte quando o som de um tropel de passos se ouviu pelo corredor seguido por vários disparos. A porta se abriu violentamente. Francisco e seus companheiros prepararam-se para abater qualquer uranita que passasse por ela. Mas quem surgiu foi uma das mulheres empunhando um rifle uranita. Vivarina e as outras marcianas surgiram atrás dela.

– TODAS PARA DENTRO! – Gritou e as moças assustadas correram para a entrada do ônibus espacial. Somente aquelas armadas com rifles uranitas, permaneceram no hangar dando cobertura.

– O que aconteceu? Vocês estão adiantados!

– Eles receberam uma mensagem, dizendo que um oficial de inspeção estava a caminho, então decidiram nos dispensar mais cedo! Não seria bom se o oficial os pegasse “confraternizando” com mulheres marcianas! Estávamos no corredor vindo para cá quando as sirenes começaram a soar! Não tivemos opção a não ser dominar nossa escolta e correr para cá. Tínhamos certeza de que haviam os encontrado! Precisamos dar o fora daqui! Mas antes temos que abrir as comportas!

Diversos uranitas surgiram pela porta e começaram a disparar. Os comandos e as mulheres revidaram.

– Mantenham esta posição e estejam preparados para levantar vôo! Bilatto! Venha comigo!

Recebendo cobertura, Francisco e o sargento correram até a escada que dava acesso à sala de controle das comportas. Subiram os degraus apressadamente disparando sobre os guardas. Bilatto deteve-se na porta hermeticamente fechada.

– Rápido, sargento! – Francisco gritou disparando e abatendo um guarda. Ibañes e as mulheres mantinham fogo cerrado, impedindo que os uranitas tomassem uma atitude contra os dois homens no alto da escada.

Um clique e a porta se abriu. Entraram.

Francisco virou uma chave. Apertou alguns botões e uma sirene forte ecoou pelo hangar. As comportas iriam se abrir. Os uranitas pararam de atirar assustados. As mulheres aproveitaram para ferir e abater alguns deles.

A sirene ecoou mais alta e um estrondo ensurdecedor indicou que as comportas estavam se movendo. Os guardas recuaram para dentro do corredor. A porta se fechou atrás deles. As mulheres fizeram o mesmo abrigando-se no interior do ônibus espacial. Um fino espaço já se abria entre as comportas e a descompressão começou a levantar a carga solta arremessando-a contra elas.

Em minutos elas escancararam, arremessando a carga no vácuo e abrindo espaço para que o ônibus decolasse.

Quando ele já se encontrava fora da proteção do hangar Francisco e Bilatto saíram da cabine e tomando impulso, graças à gravidade zerada, alcançaram a asa prendendo-se com as presilhas magnéticas dos escafandros. Vivarina acelerou a nave. Precisava tirá-la do alcance das baterias AA da base.

Quando o ônibus espacial parecia estar numa distância segura colunas de chamas e destroços elevaram-se da cratera. Ibañes, com certeza, havia apertado o detonador que carregava no pulso. A cratera Swift foi tomada por dezenas, logo centenas, de explosões silenciosas. Francisco e Bilatto cumprimentaram-se.

O canhão de Deimos não existia mais.


CONTINUAM EM.... 7 DIAS!



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