CANHÕES DE MARTE


SEXTA PARTE


Ilana abriu dolorosamente os olhos. Assim que eles se acostumaram com a luz não gostou do que viu.

Há sua frente havia um homem de olhar sádico vestindo o uniforme da policia secreta uranita. Atrás dele havia outros vultos que ela acreditou serem o médico e de uma enfermeira. Naquele instante teve certeza de que não havia morrido. O inferno não poderia ser tão ruim.

– Até que enfim acordou, bela adormecida! – O uranita esboçou o que deveria ser um sorriso. Ela respondeu com um gemido.

– A operação durou 12 horas! Suas perguntas não podem esperar, major? Se forçá-la agora, talvez ela não sobreviva!

– Não estou interessado na sobrevivência de sua paciente, doutor! Tudo o que me interessa é que ela dure o suficiente para responder minhas perguntas! Agora, cale-se! Então, moça, o que você e seus amigos vieram fazer em Marte? – Novamente seu rosto contorceu no que ele pretendia que fosse um sorriso.

- Sim, nós sabemos que vocês vieram da Terra! Nosso ServIntel não é tão obtuso quanto vocês, terráqueos, acham! Vamos, responda, qual é o objetivo de vocês? ME RESPONDA!

Os lábios dela começaram a tremer. E num esforço que a fez arfar pronunciou palavras num fio de voz quase inaudível. Percebendo que de onde estava não ouviria nada ele aproximou a orelha de sua boca. Então, com a respiração ofegante, ela disse mais uma vez o que tinha a dizer.

– Vá se...dan...ar!!

Os olhos do oficial uranita foram obscurecidos por uma sombra de ódio. Seu rosto ficou vermelho e suas artérias saltaram em seu pescoço.

Então veio a pancada.

Ilana sentiu uma dor lancinante percorrer-lhe a face e o gosto acre do sangue que escorria dos lábios cortados. Antes da escuridão da inconsciência envolver-lhe, ela esboçou um sorriso. Débil, mas triunfante.

– ESTÁ LOUCO! O que pensa que está fazendo? – O médico afastou-o da cama - Mais uma dessa e você nunca mais obterá resposta alguma dela!

Os sensores médicos luziam desesperançados. Estavam a ponto de perder a vida que monitoravam.

* * * * *

– Um de nossos hackers conseguiu entrar na rede do hospital central e acessou os arquivos da paciente na ala uranita. Aqui estão os arquivos que ele conseguiu baixar antes que um programa de defesa o expulsasse.

Francisco pegou a tela de leitura digital que lhe era oferecida. Todos seus companheiros o rodearam. Seus olhos se arregalaram. No canto superior direito da ficha médica estava a foto tridimensional de Liambos.

– Precisamos resgatá-la!

– Como? – Afanassief encarou Bilatto - Não podemos simplesmente invadir o hospital e arrancar sua amiga de lá! Ela esta numa ala reservada para uso dos uranitas e somente pessoal autorizado, acompanhado de um guarda, pode entrar.

– Não sei quanto a vocês marcianos, mas nós da Terra não costumamos deixar nossos companheiros para trás! Ainda mais nas garras do inimigo!

– Também não deixamos nossos companheiros para trás, sargento, mas não nos arriscamos em missões suicidas que podem causar vitimas civis! Precisamos esperar o momento certo!

– E qual é este momento, capitã? – Francisco perguntou.

– De acordo com os registros a operação da agente Liambos foi demorada e arriscada, portando ela permanecerá por alguns dias no hospital para monitoramento. Assim que estiver fora de perigo ou não precisar mais de acompanhamento médico ou eletrônico será transferida para a base uranita local.

– Devemos agir no momento da transferência! Pois se a levarem para os porões da tortura uranita Liambos não durará duas horas!

Todos concordaram com Francisco.

* * * * *

Não fazia nem duas horas que ela havia recebido alta quando apareceram com a cadeira de rodas. Os olhos das enfermeiras que a ajudaram a trocar a cama pela cadeira estavam resignados. Ilana descobriu o porquê quando a porta se abriu e dois uranitas mal encarados começaram a acompanhar as três mulheres.

Ao passar pelo médico, que estava cabisbaixo e soturno, soube qual era seu destino. Descobrira também do porquê de terem demorado tanto para lhe darem alta apesar de há dias sentir-se bem. Com um leve aceno e um sorriso agradeceu o esforço do médico.

Após saírem do elevador que os levou ao térreo, deslocaram-se até uma ambulância que os aguardava. Num movimento sincronizado as enfermeiras puseram-na no interior do veiculo, os dois uranitas subiram e as portas se fecharam. A ambulância ligou o motor e abandonou o pátio do hospital. Imediatamente um carro preto posicionou-se à frente e outro atrás.

Quando o veiculo entrou numa movimentada avenida central os eventos sucederam-se rapidamente: a janela que dava para o motorista se abaixou e uma pistola surgiu derrubando os dois acompanhantes de Ilana imediatamente.

– Como vai, Ilana?

– Major? Capitão? – Ela reconheceu de imediato o homem com a pistola na mão e o motorista, que lhe acenou.

Felisatti vestia o uniforme de motorista do hospital e Francisco as vestes do guarda que devia acompanhar o motorista. Sua roupa, ao contrario do uniforme impecável de Felisatti, estava amarrotada e apresentava um rasgo no lado direito onde se via perfeitamente as manchas de sangue.

– Segure-se, Liambos! Porque agora começa a diversão! – Felisatti disse ao se aproximarem de um cruzamento entre duas avenidas.

Quando a primeira escolta entrou na via, o capitão pisou no freio. O motorista da escolta traseira foi obrigado a fazer o mesmo para que não batesse na ambulância. Felisatti deu uma guinada de trinta graus e entrou em outra avenida. Pisou no acelerador o máximo que pôde.

Recuperadas da surpresa, as escoltas entraram em perseguição.

Felisatti manteve a ambulância na via até alcançar outro cruzamento onde mudou de curso. Seu objetivo era alcançar os bairros operários de Xhante, pois suas ruas estreitas e becos ofereceriam um obstáculo para qualquer perseguição. Foi o que realmente aconteceu quando entraram no primeiro bairro. Duas curvas bruscas e três esquinas depois já não havia sinal de seus perseguidores.

Mas, neste instante, ouviram o ronco dos rotores de uma aeronave de asa rotativa.

Assim que a ambulância se encontrou dentro de seu alcance o canhão entrou em ação.
Felisatti sorriu. Aparentemente os uranitas haviam descartado seu prisioneiro.

Os projéteis de vinte milímetros destruíam o asfalto em torno da ambulância. Liambos encolheu-se quando um pedaço do asfalto perfurou a fuselagem destruindo os equipamentos. Com surpreendente perícia o capitão conduzia o veiculo num ziguezague que dificultava a mira eletrônica da aeronave uranita.

Francisco lançou-lhe um olhar ao qual ele retribuiu confiante.

Abandonaram o bairro e entraram numa via que os levou a uma região cheia de galpões abandonados. Desviaram de uma pilha de bobinas enferrujadas e dirigiram-se para um dos barracões. Assim que a ambulância desapareceu dentro do mesmo uma figura solitária surgiu à porta. Em seus ombros havia o que parecia uma caixa.

Pressentindo o perigo o piloto puxou o manche e forçou a subida da aeronave. Já era tarde. O míssil terra-ar abandonara seu lançador e atingira-a no ventre. Suas asas giraram por alguns segundos antes de despencar envolta em chamas.

Felisatti pisou no freio. Francisco desceu e abriu a porta traseira e uma sorridente Liambos saltou de dentro. Ela não se conteve em seus braços.

– Por que demoraram tanto?

– Queríamos ter certeza de que os remendos que puseram em você fossem de boa qualidade! – Francisco sorriu.

Felisatti correu ao encontro de Bilatto, que já se livrara do lançador. Ambos dirigiram-se até um bueiro e empregaram toda sua força para abri-lo.

– O que eles sabem sobre nossa missão?

– Aparentemente nada, major! O interrogador que esteve comigo no hospital sabia que éramos comandos terráqueos, mas não sabia o que estávamos fazendo em Marte!

– Vamos! – Bilatto gritou apontando para o bueiro aberto. – Logo isto aqui estará cheio de uranitas!

* * * * *

O reencontro de Liambos com os outros membros da equipe de Francisco foi caloroso e cheio de tapinhas nas costas. Todos estavam em um posto de parada do monotrilho distante seis quilômetros de Xhantes. Francisco havia chegado ali após atravessar uma rede de canais subterrâneos que permitiram-no passar sob as patrulhas uranitas responsáveis por fechar as saídas, ansiosos para recuperarem a prisioneira que lhes escapara.

Não demorou e um trem de carga parou. Embarcaram suas coisas e se despediram dos marcianos. Em especial da capitã Afanassief e de Hulnar. Desta vez não haveria guia local. Um apito agudo e longo anunciou que a composição estava partindo.

Seu próximo destino era Olimpus, a capital marciana. Última parada antes de cumprirem a tarefa que os trouxera a Marte.

* * * * *

A viagem fora longa, cansativa e ao mesmo tempo monótona e sem incidentes. Os comandos aproveitaram para recuperar as forças. Ao fim de uma semana avistaram as primeiras luzes da capital.

Assim como haviam feito em Xhantes, os terráqueos saltaram na primeira parada, nos limites da zona rural da capital. Caminharam alguns quilômetros sob o sol vespertino até conseguirem uma carona que os levou diretamente para Olimpus.

A capital do planeta vermelho era de tamanho comparável as megalópoles terrestres como Nova York, São Paulo ou Xangai, sendo que sua fundação datava dos primórdios da colonização. Naquele mesmo local, aos pés do maior vulcão do sistema solar, a primeira colônia de cúpula fora construída. Além de ser a maior concentração humana fora da Terra, excetuando-se obviamente as colônias lagrangeanas de Júpiter e Saturno, era também a cidade mais terráquea do sistema solar.

Ali as arquiteturas dos diferentes povos não se misturaram e um viajante poderia localizar com facilidade o bairro americano, o bairro francês, o bairro brasileiro, o chinês ou o árabe.

E foi justamente para o bairro árabe que os comandos se dirigiram.

O sol desaparecia no poente, lançando uma tênue luz avermelhada sobre as torres da principal mesquita da cidade quando eles saíram da estação do metro. E, enquanto eles desabavam nos bancos, da praça em frente à mesquita, Liambos aproximou-se de um telefone público. Meia hora se passou até que uma van parasse próxima a eles.

Dois dias depois o grupo se dividiu. Felisatti, Fisher e Liambos partiram para a cidade espaço-portuária de Albor Tholu. Francisco, Bilatto e Ibañes permaneceram na capital.


CONTINUA EM… 7 DIAS!




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