CANHÕES DE MARTE


QUINTA PARTE:


Um silvo agudo cortou as áridas planícies marcianas. A composição avançava velozmente levantando a poeira avermelhada que havia se acumulado sobre seus trilhos. Era basicamente um trem de carga, mas desta vez, além das mercadorias costumeiras, sua carga era complementada pelos membros do comando terrestre.

Seria uma viagem longa e monótona de acordo com as palavras de Hulnar, então cada um procurou passar o tempo enquanto os 360 km/h contínuos da composição levantavam a poeira avermelhada que se depositara nos trilhos desde a ultima viagem.
E assim foram os dois primeiros dias.

Então chegou ao fim o terceiro dia com o sol terminando sua caminhada, mergulhando no horizonte. A noite caiu rapidamente no deserto vermelho-sangue. Era a ultima etapa da viagem, ao meio-dia marciano seguinte eles estariam aportando em Xanthe.

As horas avançaram indicando que aquela noite seria igual às anteriores. Pelo menos era o que pensava um sonolento Fisher quando ouviu o que pareceu ser o som de rotores que se aproximavam rapidamente. Tudo não poderia ser mais que sua imaginação se segundos depois não sentisse que a composição começara a reduzir a velocidade.

Então, seu instinto de sobrevivência, mesclado à experiência de anos nas forças especiais, gritou.

– URANITAS!

A resposta foi instantânea.

Homens e mulheres saltaram de seus lugares e apossaram-se das armas com uma agilidade e prontidão que somente anos de treino e sobrevivência sobre situações estressantes dariam.

– ELES JÁ ESTÃO AQUI! PRO CHÃO!

Mas não houve tempo. O ronco ensurdecedor dos motores das hélices invadiu o vagão seguido pela luz dos refletores que banharam os corpos dos terráqueos.

– Merda! CORRAM!

Correram.

Os sons característicos do canhão rotativo de dezesseis canos abafaram seus passos. Dezenas não, centenas de projéteis perfuraram as paredes do vagão extinguindo qualquer possibilidade de sobrevivência naquele espaço.

O sibilo dos projéteis cantava em suas costas quando Felisatti, que era o último da fila, saltou para dentro do outro vagão.

– Qual é a desses caras? – Bilatto resmungou, em meio a balburdia dos disparos. – Nunca ouviram falar que se deve dar chance de rendição?

Os disparos pararam, restando somente o som intermitente das asas rotativas da aeronave. A luz dos holofotes voltou iluminando o vagão arruinado.

– Precisamos neutralizá-lo! – Francisco expôs o óbvio. – Quando perceberem que não estamos no vagão irão transformar este trem num queijo suíço! Fisher! Bilatto! Isto é função de vocês, não?

– Achei que nunca iria falar, chefe! – Fisher sorriu, enquanto retirava algumas granadas magnéticas de dentro de uma das mochilas. Os dois sargentos se esgueiraram entre os paletes e chegaram à porta.

O som da aeronave fazia-se mais alto. Bilatto abriu vagarosamente a porta. Recuou assustado ao ver a cauda da aeronave tão próxima. Ela havia aproximado o máximo que pudera para observar dentro do vagão destruído. Isso facilitaria o trabalho deles.

Fisher ajustou o tempo da granada e ativou o dispositivo magnético. Seu braço descreveu um arco ao arremessá-la e o explosivo passou a menos de vinte centímetros da fuselagem da aeronave, distância mais que suficiente para que a micro-bateria magnética se ativasse, impedindo a queda e fixando o artefato na fuselagem. Os sargentos desapareceram porta adentro.

Indiferente, a aeronave elevou-se aparentemente satisfeita com o resultado de sua metralha. Então a granada detonou. O piloto sentiu o controle fugir de suas mãos ao mesmo tempo em que seu artilheiro lhe gritava algo. Ele nunca soube o que era, pois fora envolvido pela bola de fogo em que se transformara o aparelho.

E, como ultimo ato, aquela bola de chamas e metal retorcido chocou-se contra o vagão. Uma imensa pira elevou-se iluminando o deserto e fazendo a composição estremecer. Aço retorcido caiu sobre os trilhos e as labaredas lamberam os outros vagões fazendo as chamas propagarem-se. O calor solar fundiu o metal e os trilhos estalaram, desmanchando como gelatina aquecida. Um tranco surdo ecoou por toda a composição e os vagões descarrilaram.

O estrondo foi ouvido a quilômetros. A nuvem de poeira levantada pelo deslocamento dos vagões tombados pelo solo avermelhado tampou as estrelas. O som de metal retorcendo-se e quebrando-se foi ouvido por alguns segundos então o silencio noturno envolveu os restos da composição.

Mais alguns segundos se passaram até que passos foram ouvidos. Francisco saía cambaleante de dentro de um vagão semi-destruído, um dos poucos que não haviam tombado, seguido pelos outros. Este detalhe havia evitado que a carga se desprendesse das faixas de segurança e esmagasse os comandos.

O major contou aliviado que todos estavam ali. Escoriados, mas vivos.

Então, como um fantasma, o som de rotores encheu novamente o deserto e os holofotes iluminaram os terráqueos. Novamente o som característico do canhão rotativo percorreu o deserto. Seus projéteis levantavam e revolviam a terra onde a atingiam.

Eles correram procurando proteção. Mas nem todos conseguiram.

Liambos sentiu seu corpo ser impulsionado para frente quando os projéteis passaram por ela. Mas não sentia mais nada quando chocou-se violentamente contra o solo endurecido.

A aeronave sobrevoou o corpo e o vagão onde os comandos haviam se protegido e preparou-se para dar a volta. Aproveitando a manobra da aeronave, eles se esgueiraram para debaixo de um dos vagões tombados. Era uma medida desesperada que sabiam não dar em nada. Era só a aeronave uranita usar um míssil e tudo estaria acabado. De onde estavam podiam observar o corpo inerte da agente e viram a si mesmos naquele estado.

Neste instante Bilatto retirou duas granadas magnéticas da bolsa e se arrastou para fora da proteção.

Fisher segurou-o pelo pé.

– Aonde pensa que vai? Não vai adiantar nada! Eles não vão chegar perto o suficiente para usarmos uma granada!

– Se não fizer algo seremos todos trucidados! Solte-me!

– Não! É loucura!

– Sargento... – Francisco gritou percebendo o que estava acontecendo.

– Tenho que fazer isso pela Liambos, major! – Bilatto encheu a mão de terra e lançou-a nos olhos do companheiro, que o soltou para acudir os olhos. Bilatto desapareceu na escuridão.

A aeronave completou a volta e preparou-se para outro ataque. Desta vez ela vinha mais baixo, num vôo rasante, passando por cima dos vagões descarrilados. Então uma figura surgiu sobre um dos vagões e começou a correr na direção do local onde achava que a aeronave iria passar. Bilatto torcia para que não o vissem na escuridão.

A aeronave passou no exato instante em que ele pulou em sua direção. Seu braço estava elevado, como um jogador de basquete tentando uma enterrada. Por alguns instantes todos acharam que ele tocaria na fuselagem. Mas perdeu altitude e caiu sobre a terra devastada.

Percebendo que quase havia sido atingido, por algo que não sabia o que era, o piloto abortou o ataque e elevou-se, mantendo-se parado no mesmo ponto. Seus holofotes vasculhavam a área. A luz iluminou o sargento, que se esforçava para se levantar. O artilheiro sorriu de satisfação, achando que aquele homem era louco. Seu dedo moveu-se para apertar o gatilho do canhão.

Nunca apertou.

As granadas detonaram ao mesmo tempo e a aeronave, assim como sua companheira, transformou-se numa bola de chamas e metal retorcido, desabando sobre o solo e iluminando a noite.

Bilatto arfava com dificuldade quando se aproximaram dele.

– Que loucura, homem! – Fisher resmungou. – Mas foi incrível!

– Tudo bem? – Ibañes procurou ajudá-lo a se levantar. – Consegue andar?

– Sim! Mas acho que o braço esquerdo já era! – De fato, o braço pendia inerte e as caretas que fazia indicavam que ele estava quebrado.

– Temos que sair daqui! – Fisher ajudou a apoiá-lo.

Na noite marciana já se podia ouvir o som de veículos se aproximando. Assim como o dos rotores de mais aeronaves.

* * * * *

O astro-rei percorria o ultimo quadrante do céu quando avistaram o asfalto da rodovia. E as luas brilhavam opacamente quando encontraram um restaurante de beira de estrada. Ele se encontrava fechado, abandonado, e eles simplesmente desabaram, exaustos, na varanda. Todos estavam esgotados, suas escoriações estavam infeccionando graças à exposição a areia marciana. Ficaram um tempo na escuridão simplesmente respirando e ouvindo a respiração dos outros.

Então, minutos depois, Hulnar levantou-se e procurou um telefone publico. Deu a volta na construção e nada encontrou. Já cogitava a idéia de forçar a entrada no restaurante quando viu a cabine. Caminhou rapidamente para lá torcendo para que não estivesse quebrado. Entrou na cabine e tirou o do gancho. A linha deu sinal.

O céu se avermelhava na direção do nascer do sol quando um furgão entrou no pátio do restaurante abandonado.

* * * * *

Cinco horas depois já se encontravam alojados numa casa suburbana de Xhantes e estavam alimentados, banhados e com as feridas limpas e recobertas por anti-sépticos. Owned havia trocado a tala improvisada do braço por gesso, após receber um tratamento de saturação de osso via laser que lhe deixaria intacto em questão de dias.

– Serge! – Uma mulher, na casa dos trinta, abriu a porta e avançou diretamente para o marciano, abraçando-o.

 – Quase não acreditei quando disseram que você havia chegado em Xhante! – Ela se afastou um pouco observando-o.

– Meu Deus, você está terrível! Estes são os terráqueos? – Complementou olhando para os comandos. Hulnar limitou-se a balançar a cabeça. Estava nitidamente embaraçado pelo excesso de preocupação demonstrado pela mulher.

– Sou o major Francisco Vinhas! – Francisco se adiantou oferecendo a mão para a mulher - E este é meu pessoal: capitão Felisatti, tenente Ibañes e os sargentos Fisher e Bilatto!

– Capitã Seiko Afanassief! Ex-Força de Defesa Marciana e atual líder da célula de resistência de Xhante! Estou realmente feliz por terem escapado daquele incidente com o trem. A noticia divulgada pelos uranitas era de que um ataque terrorista havia destruído completamente o trem e o monotrilho!

Outra vez ela voltou sua atenção para Hulnar.

– Quando disseram que havia sobrado apenas um terrorista vivo, quis acreditar que era você, Serge!

Os comandos trocaram olhares incrédulos.

– A senhora disse que capturaram alguém vivo? – Bilatto perguntou ansioso.

– Sim! Mas agora vejo que era balela, pois vocês estão todos aqui! – Ela sorriu de satisfação como quando alguém descobre uma mentira.

– É a Liambos, major! – Ibañes falou, dando vazão à certeza de todos.

– Liambos? – Afanassief perguntou curiosa.


CONTINUA EM… 7 DIAS!!!



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