CANHÕES DE MARTE


TERCEIRA PARTE:

A esfera misturou-se aos destroços e acompanhou-os através da atmosfera, onde os menores se desintegrariam quando entrassem, enquanto as maiores se tornariam incandescentes estrelas cadentes e se espatifariam no deserto.

Dentro do módulo os cinco terráqueos e a marciana torciam para que este não fosse seu destino. E, se pudessem ver a bola de chamas que seu transporte havia se transformado ao se chocar com a camada de nano-maquinas, que fazia as vezes de camada de ozônio da atmosfera marciana, não duvidariam de que seu destino estava traçado.

Alcançando a altura pré-programada, os freios aerodinâmicos se abriram. Imediatamente começaram as frenagens da bolota incandescente até que a temperatura do casco permitisse a abertura dos quatro gigantescos pára-quedas. Assim ela começou uma descida suave que não fez a mínima diferença para seus ocupantes.

Segundos depois, quando os sensores de proximidade detectaram a aproximação do solo, enormes colchões antichoque de ar foram ativados e envolveram o módulo.

Um clique se ouviu quando ele tocou o solo e os pára-quedas desprenderam-se automaticamente. Então rolou, como esfera que era, quinhentos metros colina abaixo, fazendo tudo em seu interior girar junto: pessoas, equipamentos e estômagos.

Uma pancada mais forte anunciou o fim da montanha russa, mas levou bons cinco minutos até que alguém conseguisse abrir a comporta. Francisco foi o primeiro a sair, seguido por Fisher e Ibañes. Os outros vieram atrás. E todos, sem exceção, faziam um tremendo esforço para não caírem sentados na poeira vermelha. Suas pernas tremiam, suas visões estavam turvas e seus estômagos ainda não haviam terminado de girar.

Um som gutural anunciou quando Liambos começou a vomitar, para o asco de todos que faziam o maior esforço para não seguirem seu exemplo.

– Precisamos estabelecer um perímetro! Fisher! Bilatto! – Francisco disse, ainda meio tonto.

Os dois sargentos agarraram binóculos e procuraram elevações de onde poderiam ter uma visão da região, evitando assim visitas de surpresa. Os outros puseram a descarregar o módulo.

– De acordo com o geolocalizador estamos em Terra Meridian – disse Liambos, já recuperada do acesso de vômito, se aproximando do major e segurando um aparelho.

– Devemos ter nos chocado com a borda da cratera quando descemos. Tivemos sorte ao não rolarmos para dentro dela! Não seria uma subida muito agradável!

– Se estamos em Terra Meridian, quer dizer que caímos longe do ponto de encontro, na cidade de Danton, que fica em Terra Arábia! E pelos meus conhecimentos das distâncias marcianas, teremos que fazer uma boa caminhada até lá! Só espero que nossos amigos da resistência tenham a paciência de esperar!

– Estamos adiantados, major! E, se em todo caso se eles não estiverem lá quando chegarmos, ainda poderei contatá-los!

– Um veículo se aproxima! – Fisher gritou acenando para o grupo fazendo a tensão aumentar entre eles a ponto de cada um procurar uma arma.

Francisco galgou a escarpa e postou-se junto ao sargento, que lhe passou o binóculo de alta precisão. Ele ajustou as lentes e o foco, procurando uma melhor imagem.

– É um hovercraft! Parece que localizaram nossa queda e resolveram investigar!

– Será que desconfiam que estamos aqui?

– Talvez, afinal a Kilimanjaro acabou de invadir o espaço orbital e destruir um satélite. Se possuírem cérebro, perceberam que ela não estava apenas passando e seu capitão decidiu destruir um satélite para matar o tédio!

O veiculo avançou mais alguns quilômetros e parou levantando uma nuvem vermelha quando seus colchões de ar se esvaziaram. Três uranitas desceram, suas armas eram seguradas de forma displicente.

– Eles vão cobrir os últimos duzentos metros a pé! Sorte nossa o terreno aqui ser acidentado até mesmo para um hover. Está vendo, – ele apontou um ponto entre o lugar onde estavam e os uranitas – eles devem vir por ali! Você, Bilatto, Ibañes e Felisatti devem procurar o melhor ponto para emboscá-los! Eu e Liambos daremos a volta e chegaremos ao hover! Ah! Seja silencioso, não queremos que os que ficaram no veiculo suspeitem e chamem reforços!

– Sim, senhor!

Francisco e Fisher escorregaram de volta ao módulo.

– Parece que não precisaremos ir a pé até Dalton, gente! Owned, Ibañes e Felisatti! Vocês vão com Fisher! Liambos! Você vem comigo!

Não houve qualquer protesto por parte do capitão e da tenente no fato do sargento liderar a missão. Os membros das forças especiais sabiam que o bom cumprimento da missão dependia da confiança que tinham nas habilidades de cada um. Um comando sabia que o posto era o que menos importava se aquele que se propunha a liderar tivesse a capacidade para tal.

Enquanto os quatro comandos partiam para armarem sua emboscada, Francisco e Liambos seguiram rumo ao veículo. Caminhavam rápido entre a pedras e evitavam fazer barulho, pois deveriam chegar ao hover antes que os guardas uranitas se aproximassem perigosamente do local onde estava o módulo.

Foram ajudados neste intento pelo total descaso e displicência com que os uranitas encaravam aquela missão. Para eles o objeto que haviam captado nas telas do radar não passava de mais um asteróide que se transformara em estrela cadente. Por mais de uma vez haviam parado para verem um passaro voando ao longe, ou uma nuvem. Conversavam e riam alto sem perceberem que logo à frente encontrariam a morte na forma dos comandos terráqueos.

Francisco e Liambos chegaram às imediações do veiculo escondendo-se atrás de uma rocha escarpada alta.

– Quantos são?

– Vejo dois! – ela respondeu – Um de pé e outro sentado, no banco do motorista! Parece que estão conversando!

Aproveitando a distração dos dois guardas eles correram abaixados até a traseira do hovercraft. Liambos confirmou que os uranitas não haviam percebido sua aproximação e fez um sinal para o major. Francisco pegou uma pedra e arremessou numa depressão que ficava do lado oposto ao assento do motorista. Como imaginado o barulho atraiu a atenção do guardas e o que estava em pé avançou na direção em que ouvira o som.

O motorista acompanhou o avanço do companheiro, por esse motivo não percebeu que Liambos se esgueirava abaixada pela lateral do carro. Quando estava praticamente sob a porta do motorista Limabos levantou-se. Tapou a boca do uranita para que não gritasse, ao mesmo tempo em que sua faca abria um sulco profundo em seu pescoço. O sangue jorrou molhando banco, painel e carpete.

Infelizmente o silencio não foi total e um gemido minguado escapou por entre seus dedos, o suficiente para que o outro voltasse sua atenção para o veículo. Não teve tempo para nem sequer levantar a arma. Francisco se encontrava em sua frente e sua faca descreveu um arco golpeando o uranita sob o braço, atingindo diretamente o coração. Sem um gemido sequer seu corpo caiu na areia vermelha.

Um assobio curto e seco alertou os comandos e minutos depois Ibañes, Felisatti e Fisher apareceram, carregando várias mochilas. Suas expressões diziam que os guardas que haviam seguido na direção do módulo haviam tido o mesmo destino do motorista e seu ajudante.
Então, tudo aconteceu rapidamente.

Numa ação quase mecânica eles ocultaram os corpos, transportaram os equipamentos para o hovercraft e instalaram cargas explosivas no módulo e na área em volta dele. Um aperto no botão do detonador destruiu-o. Seus destroços misturaram-se com a terra e a rocha que se levantaram quando as cargas postas no solo detonaram segundos depois.

Feito isso, puseram-se a caminho.

CONTINUA EM... 7 DIAS

Nenhum comentário:

Postar um comentário