CANHÕES DE MARTE


SEGUNDA PARTE:


A Fragata Espacial Kilimanjaro era considerada a nave mais rápida da Armada Espacial Terráquea. Este detalhe estava aliado as suas linhas pouco proeminentes, pintura negro-dispersiva e um poderoso equipamento de contramedidas eletrônicas que a tornavam virtualmente invisível aos equipamentos de detecção atuais.

Uma nave com essas qualidades não passaria despercebida pelos oficiais do serviço de inteligência ou das forças especiais. Seu comandante já esquecera a quantidade de vezes em que a nave fora requisitada para efetuar uma missão para um destes departamentos. Sempre eram missões que envolviam infiltração em território inimigo; ora para colher informações, como ocorrera em Mercúrio, ou lançar comandos, como fizera em Vênus três semanas atrás.

Desta vez a fragata iria novamente lançar comandos. Mas, ao contrário da missão em Vênus, onde recebera a ajuda de uma esquadra que distraíra a atenção das unidades uranitas, eles estavam sozinhos.

Em linhas gerais sua tarefa consistia em chegar o mais próximo possível do planeta vermelho, lançar um grupo de comandos e sair dali o mais rápido possível. Uma missão simples se não houvesse as naves de patrulha uranitas, seus canhões de defesa orbital e os malditos canhões iônicos em Deimos e Fobos.

O capitão de fragata Hugo P. Shuster estava justamente pensando num modo de atravessar as defesas uranitas quando o radarista olhou para ele. Olhos apreensivos.

– Temos três sinais! Duas corvetas às cinco horas e um cruzador as nove, senhor! Estão rumando diretamente para nós!

Shuster ponderou que contra as corvetas não havia a opção de se tentar uma fuga afiançada na velocidade. Elas corriam tanto, ou até mais, que a Kilimanjaro. Sobrava o enfrentamento direto e uma corveta, em armamento e blindagem, não era párea para uma fragata.

Duas delas, comandadas por bons capitães, talvez tivessem alguma chance. Mas, a presença da outra belonave indicava que eles não quiseram arriscar. O calibre dos canhões do cruzador abriria o casco da Kilimanjaro como faca quente na manteiga.

– Todos a seus postos de combate! – Ordenou.

As sirenes de alarme correram toda a extensão da embarcação trazendo um aparente caos a bordo a medida em que cada tripulante procurava seu posto.

– O que se passa, capitão? – Francisco perguntou, entrando na ponte, cinco minutos depois.

– Temos três naves em nosso encalço! – Shuster respondeu sem se virar para o major - Sala de Máquinas: dê tudo o que pode nos dar! Acelere ao máximo, senhor Marusaki!

Obedecendo a ordem de seu capitão o timoneiro elevou o manete e empurrou o timão para frente. A belonave aumentou sua velocidade. Infelizmente esse aumento de velocidade comprometia a furtividade da Kilimanjaro, pois aumentava o ruído de fundo produzido pelos motores iônicos tornando-os facilmente detectáveis pelos sonares espaciais.

– Vamos tentar uma corrida para despistá-los! – Explicou para Francisco, que permanecia ao seu lado.

Shuster parecia confiante, mas interiormente estava ciente de que aquela manobra pouco adiantava. Apenas esperava conseguir uma boa distancia entre a Kilimanjaro e o cruzador que possibilitasse enfrentar as corvetas sem ter que se preocupar em voltar às costas para a outra belonave.

Suas esperanças foram recompensadas quando o sinal, correspondente ao cruzador, afastou-se o suficiente para que esboçasse um sorriso. Ao mesmo tempo, os sinais das corvetas haviam se aproximado; era obvio que as naves procurariam impedir o avanço da Kilimanjaro até a chegada da belonave mais lenta.

– Reduzir velocidade! – Ordenou.

– Corvetas dispararam! Cerca de vinte mísseis, T menos 30 segundos! – O radarista anunciou ao mesmo tempo.

– Soltar contramedidas!

Partículas de metal magnetizado foram lançadas ao espaço criando uma chuva reluzente e colorida, que logo desapareceu ao ser engolfada pelas explosões dos mísseis. A fragata terráquea desapareceu em meio ao caos atômico.

As corvetas avançaram. Estavam confiantes. Aparentemente haviam causado mais dano a Kilimanjaro do que esperavam. Seus sensores estavam cegos por causa dos sóis atômicos, mas quem se importava? Seus olhos haviam presenciado a fragata desaparecer envolta pelas chamas.

Descobriram seu erro tarde demais.

Orgulhosa e intacta, a Kilimanjaro saiu do meio do inferno criado pelos mísseis e manobrou seus canhões laser. Posicionou-se ameaçadoramente.

Então ela disparou.

Os raios atravessaram o vácuo, deixando um rastro de luz azul, e atingiram uma das corvetas. Arrombando seu casco, sugando sua atmosfera e por fim transformando-a numa bola de chamas e destroços retorcidos.

Ainda surpreendida pela manobra terráquea a corveta uranita restante demorou a reagir dando tempo para que os canhões da fragata atirassem novamente.

Desta vez os disparos não foram tão certeiros.

Mas os dois que acertaram danificaram de tal forma os sistemas da nave que ela simplesmente parou. Dos rombos produzidos pelos projéteis terrestres podia-se ver a atmosfera sendo sugada pelo vácuo cósmico.

– Distância do cruzador?

– 10 minutos, senhor!

Shuster contemplou a corveta avariada. Era tentador dar um fim a ela, mas o cruzador estava próximo demais.

– Toda velocidade para frente, senhor Marusaki! Temos uma entrega para fazer!

* * * * *

O disco azul-avermelhado, pontilhado de nuvens brancas, pendurava-se no abismo infinito.

A Kilimanjaro avançava com velocidade cautelosa. Todos seus tripulantes estavam tensos, de olhos grudados nos sensores. A rota escolhida pelo capitão Shuster colocaria a fragata na sombra do planeta, evitando que a belonave terrestre fosse detectada antes do tempo.

– Cinco minutos para o ponto lançamento! – O timoneiro anunciou, fazendo com que a tensão aumentasse.

– Reduzir velocidade! Que todos estejam atentos!

O que todos mais temiam era que ao reduzirem a velocidade os satélites de defesa orbital obtivessem tempo para rastrear a nave, cuja furtividade seria comprometida quando abrissem as comportas para lançar o módulo que transportava o comando de Francisco. Segundos de rastreamento seria suficiente para que os computadores de defesa fixassem a mira e descarregassem uma chuva mortal de mísseis e lasers.

Mas a nave avançou lentamente, sem que fosse notificada alguma aproximação dos satélites remotos. A tensão começou a se dissipar e os tripulantes começaram a sentir a confiança de que tudo daria certo.

Mas, como dizem por ai, se algo tem uma ínfima chance de dar errado, dará!

A tela do radarista começou a piscar.

– Satélite de Defesa se aproximando numa órbita baixa, parece que tem a intenção de impedir nossa passagem!

– Um minuto para o ponto de lançamento! – Alguém informou antes que Shuster perguntasse.

– O satélite se colocou exatamente sobre o ponto de lançamento, senhor! E está disparando!

O capitão soltou um insulto quando percebeu os raios laser avançarem e rasparem a fuselagem da Kilimanjaro, perdendo-se no espaço. Havia pouco tempo para agir, dentro de segundos mais satélites se juntariam àquele. Quase que imediatamente seriam seguidos por naves de combate que impediriam a fuga da fragata.

– Revidar o disparo!

Sob a ordem do capitão os canhões dianteiros da fragata descarregaram sua carga mortal sobre o satélite que se transformou num emaranhado de metal retorcido que começaram a cair na direção do planeta.

– Lançar módulo!

Uma comporta se abriu no corpo da belonave e o módulo, em forma de bola, foi arremessado na direção dos destroços.

– Capto dois satélites se aproximando e vários sinais fracos vindo de nossa retaguarda!

Shuster não precisava que lhe dissessem o que eram aqueles sinais fracos.

– Timoneiro! Todo o empuxo a frente! Vamos dar o fora enquanto podemos!

Os motores da Kilimanjaro crisparam. Ela fez uma curva e disparou na direção mais distante do planeta vermelho passando, no caminho, por um cruzador que captou seu sinal por efêmeros dois segundos.


CONTINUA EM... 7 DIAS

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