CANHÕES DE MARTE


PRIMEIRA PARTE:

O major Francisco Vinhas levantou-se lentamente, não queria acordar sua amante que ronronava mansamente a seu lado. Caminhou em direção a janela. Afastou as cortinas e divisou os raios dourados do sol que se lançavam sobre as ruas de Salvador.

Havia poucas pessoas na rua àquela hora. Uma senhora que saía para passear com seu cão. Um jovem de vinte e poucos anos vindo em sentido contrário, de walkman no ouvido, fazendo algo que deveria ser tomado por uma corrida matinal. Na casa em frente, um senhor caminhava até o portão e recolhia seu jornal matutino voltando rapidamente para a segurança de seu lar.

Francisco sorriu.

Em nada naquela cena, e nas atitudes daquelas pessoas, levariam a crer que havia uma guerra lá fora. Uma guerra que treze meses atrás havia ameaçado a própria Terra.

Quando noite após noite a Força de Defesa Orbital engalfinhava-se com os invasores uranitas, tornando os céus um espetáculo de luzes e estrelas cadentes, tornando-se assim o único obstáculo de um possível desembarque inimigo em solo terrestre.

– Volta pra cama, querido! – A voz suplicante de sua amante retirou-o de seus pensamentos.

A jovem de cabelos ruivos se sentara na cama, exibindo o dorso nu salpicado de gotículas de suor. Seus olhos verdes olhavam-lhe desejosos através das mechas de cabelo molhado que procurava afastar languidamente com a mão. Francisco bem que gostaria de voltar a se entregar àqueles braços, mas tinha obrigações.

– Sinto muito, querida – caminhou na direção da moça e acariciou seu rosto úmido – mas o dever me aguarda – E beijou-a levemente nos lábios.

Neste instante o videofone sobre o criado-mudo começou a tocar. E, enquanto Francisco se afastava, vestindo suas calças, a jovem se enrolava no lençol e atendia o aparelho. O rosto sorridente do general Diego Morales surgiu na tela.

– Bom dia, querida!

– Oi pai...

– Meu futuro genro está aí com você? – o general perguntou, ignorando a cara de zanga da filha.

– Estou aqui, general! – Francisco apareceu no vídeo, já de calças e abotoando a camisa.

– Ótimo! Preciso que venha até o ministério, imediatamente!

– Outra missão, senhor?

O general limitou-se a fazer um movimento de cabeça.

– Não acredito! Não acredito! – A ruiva esbravejou, transtornada, fazendo com que os dois homens olhassem para ela. "Não acredito que o senhor vai mandá-lo numa missão estando nosso casamento tão próximo..."

– Entenda, Melissa! Eu...

– Não quero entender nada, pai! – Ela balançou a cabeça e voltou-se para seu noivo – Quem tem que se explicar é este sujeito aqui! Você não havia me prometido que daria baixa do serviço ativo quando terminou a ultima missão?

– Querida, eu... eu... general? – Francisco procurou a ajuda de seu sogro, mas o esperto general aproveitara a distração da filha e desconectara. "Velho sacana", pensou.

– Então? Estou esperando! – Melissa Morales fuzilava-o – E não me venha com "querida"...

* * * * *

– Como foi com Melissa? – Morales perguntou, assim que seu genro fechou a porta do gabinete, sorrindo.

– Nem te falo... – Francisco respondeu, retirando o quepe e alisando o cabelo antes de pendurá-lo na chapeleira.

O major precisara de três horas para apaziguar os ânimos de sua noiva. Coisa que conseguiu somente após prometer-lhe, pela terceira vez, que abandonaria o serviço ativo após a missão.

– Ela tem medo, mesmo vindo de uma família militar, general!

– Não a censuro, meu rapaz! Não gostaria de perder meu genro numa destas missões suicidas, mas temos poucos homens com as qualificações e a experiência que possui – Morales deu a volta na mesa. Pousou a mão no ombro de seu futuro genro. "Façamos assim: após esta missão lhe darei seis meses de férias. Quando voltar haverá um cargo te esperando aqui no ministério! Que acha?"

– Nem sei o que dizer, general...

– Considere essa oferta meu presente de casamento!

Francisco procurou disfarçar o sorriso de satisfação por ter ouvido aquilo. Desde que conhecera a bela filha do general sentira cada vez mais necessidade de abandonar aquela profissão de risco. Somente seu senso de dever o impedira de dar baixa.

– Mas, voltando ao motivo de tê-lo chamado aqui – Morales subitamente ficou sério e voltou para seu lugar. "Já ouviu falar nos canhões de Marte?"

O major não pode esconder a expressão de surpresa que fez.

* * * * *

A mesa de Francisco estava abarrotada com as fichas dos membros disponíveis das unidades especiais. Levara meia hora para escolher os integrantes do comando que lideraria.

O primeiro, por ordem de posto, era o capitão Gary Felisatti. Formado em engenharia de superestruturas. Amante da boa vida e de mulheres bonitas. E fora uma destas mulheres bonitas, membro de uma importante família aristocrática, cuja gravidez desconfiou-se não ser produzida pelo marido, que o obrigara a se alistar.

O próximo da lista era a tenente Alanis Ibañes, natural das colônias mineiras do Cinturão de Asteróides. Herdara do pai a habilidade e a experiência no uso de explosivos, que usava nas grandes minas dos asteróides. Mas, hoje, ela usava esta habilidade para causar a maior quantidade de destruição e mortes nas fileiras uranitas. Sua família fora morta por um ataque que simplesmente evaporou seu asteróide-colônia.

Esses dois seriam essenciais quando conseguissem se aproximar dos imensos canhões. Mas antes alguém devia abrir caminho para eles. Este seria a função dos sargentos Allan Fisher e Deusdete Bilatto. Especialistas em infiltração e desarmes de sistemas de segurança, exímios assassinos silenciosos.

A última da lista, mas não menos importante, era a agente Ilana Liambos. Como operativo do serviço de inteligência era quem iria fazer a ligação entre eles e a Resistência Marciana.

Todos eles, com a lógica exceção da agente Liambos, já haviam atuado juntos em diferentes ocasiões e por isso mesmo possuíam um entrosamento que seria crucial na hora de cumprir a missão.

O major separou as fichas e arquivou as restantes.

Elegê-los como membros de seu comando foi fácil, afinal seus nomes lhe vieram à cabeça assim que o general Morales revelara a missão, agora só precisava localizá-los.

Chamou o ajudante de ordens e passou a ele os nomes, instruindo-o que eles deviam se apresentar o mais breve possível.

* * * * *

Allan Fischer abriu a porta da sala de reuniões e percebeu que todos estavam presentes: Vinhas, Felisatti, Ibanês, Bilatto e uma mulher que não conhecia, mas que podia jurar que era marciana. E não havia nenhuma marciana entre os grupos de ações espaciais.

– Senhor! – Anunciou-se, batendo continência para o major. Puxou uma cadeira e sentou-se próximo a Bilatto.

– Parece que a coisa vai ser grande – Sussurrou para o sargento a seu lado. "Quando foi a ultima vez que fomos convocados para agir na mesma missão?"

– Senhores! – Francisco principiou. "Não preciso lhes dizer que tudo o que for dito nesta sala, aqui deve ficar!"

Neste momento o major ativou a grande tela atrás de si que exibiu o planeta vermelho em todo seu esplendor.

– Dentro de seis semanas o Estado-Maior lançará a Operação Liberdade Vermelha, que nada mais é do que uma operação em larga escala que tentara impor uma cabeça de ponte em Marte, iniciando assim a liberação do planeta vermelho do jugo das forças uranitas...

– Então o boato sobre uma invasão é verdadeiro? Mas os reportes das naves de vigilância não dizem que eles intensificaram a presença de suas unidades na área marciana? Isso quer dizer que uma invasão a Marte é tão óbvia que até os uranitas já perceberam!

– Digamos que estamos pagando uma dívida, Fischer! Ou você acha que eles nos ajudaram na batalha da Terra somente por causa da solidariedade entre irmãos? Conseguimos sua colaboração prometendo libertar seu planeta!

Todos os olhares se voltaram para Liambos. Que permaneceu inalterada.

– Mas é praticamente loucura agir agora! O Comando devia esperar mais um pouco, até pelo menos fortalecermos nossa posição em Vênus e em Mercúrio...

– Só que os marcianos estão cansados de esperar! A promessa dizia que devíamos libertar Marte logo que a Terra estivesse fora de perigo. Mas fomos primeiro a Mercúrio e depois a Vênus! Acho que você sabe mais do que eu sobre o que aconteceria se os marcianos retirassem seu apoio à Terra!

– Perderíamos um terço de nossa força de combate, seja da infantaria, força aérea ou da armada!

– E quanto aos canhões em Deimos e Fobos? Se aquelas coisas dispararem, nossas naves pararão de funcionar e os uranitas praticarão caça ao pato!

– É ai que entramos! – O major fez uma pausa calculada, estudando o impacto que suas palavras tiveram sobre aqueles homens e mulheres. Suas faces permaneceram inalteradas. "Dentro de vinte quatro horas estaremos embarcando em direção a Marte. Onde, após uma ação de infiltração, destruiremos os canhões localizados em Fobos e Deimos."

– Posso perguntar como faremos isso? – Bilatto perguntou. "Quero dizer: mesmo que consigamos chegar ao planeta ainda sobra a questão de como chegaremos às luas."

Francisco fez um sinal para a estranha.

– Esta é a tarefa da agente Ilana Liambos do serviço de inteligência. Ela será nosso elemento de ligação com a resistência local. Entendam, esta não é uma missão exclusivamente terráquea. O pessoal do ServInt vêm trabalhando há meses com os operativos do Marte Livre e com a resistência marciana. Serão eles que nos proporcionarão os meios alcançarmos nosso objetivo.

– Como faremos para voltar? – Desta vez foi o capitão Felisatti, que se mantivera calado. "Acredito até que seja fácil nos infiltrarmos em Marte. Tenho até uma idéia de como isso será feito, mas como seremos resgatados?"

– Não haverá resgate! - desta vez as palavras de Francisco surtiram o efeito que não haviam surtido anteriormente. Exclamações surgiram em todas as faces ali presentes. Somente Liambos manteve-se impassível, certamente seus superiores já lhe haviam informado deste detalhe.

– Após o cumprimento da missão devemos nos esconder, ou nos misturar se preciso, e esperar o desembarque de nossas tropas. Para este fim a Resistência nos fornecerá a documentação e o dinheiro suficiente para que possamos nos manter até o desembarque.

– E se ele nunca ocorrer? Teremos que nos esconder para sempre?

– Pense nisso como férias, Felisatti! – Alanis sorriu. "Férias merecidas..."

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