BATALHA NO ESPAÇO


SÉTIMA PARTE

Os encouraçados, cruzadores e destróieres vhannyres formavam uma circulo invencível em torno das naves terrestres. Mas, sem ter alternativa, as belonaves aliadas acenderam seus propulsores e partiram em direção à muralha, numa tentativa desesperada de forçar a passagem. Então, os comandantes vhannyres resolveram demonstrar do porquê de serem uma força a ser temida e respeitada.

Um eco seco e abafado, como o trovão de uma tempestade distante, ecoou pelo vácuo quando duas dezenas de canhões lasers descarregaram seus raios mortais.

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O Anhanguera estremeceu ao ser chicoteado pelos lasers inimigos. Benedita segurou-se como pode, mas o solavanco foi tamanho que seu rosto foi lançado de encontro aos consoles. Chispas voaram de vários painéis e alguns oficiais foram arrancados de seus lugares e arremessados sobre estes mesmos painéis.

Um brilho intenso invadiu a ponte do encouraçado e todos puderam ver a Iroquois desaparecer em meio a uma bola de chamas e plastiaço retorcido. A seu lado o destróier Hiei adernava sendo engolfado por um turbilhão de fumaça negra.

A terráquea levantou a cabeça, ao mesmo tempo em que fazia uma careta de dor; sua cabeça latejava e o líquido quente e pegajoso que lhe escorria pela face indicava que havia talhado a fronte. As luzes ainda piscavam débeis e seus olhos passearam pela ponte. Sentiu um estremecimento interior ao se deparar com o corpo inerte de Ivan.

Seus olhos se tornaram turvos e por um instante sentiu como se ainda estivesse a bordo do Cuzco. Podia ver os rostos de cada um de seus comandados. Eles sorriam para ela, chamando-a.

– Capitã!! Capitã, a senhora está bem?? Médico!!

A voz aflita de Hassan tirou-a do transe.

– Não se preocupe comigo. – Balançou a cabeça para espantar os fantasmas do passado, e limpou o sangue da face com a manga do uniforme. – Estou bem! Cuide dos outros!!

Mas, mesmo a contragosto, um enfermeiro já se aproximava com uma caixa de curativos.

Hassan permaneceu alguns segundos observando a mancha vermelha que maculava o uniforme, sempre branco, de sua capitã. Mil pensamentos passavam pela cabeça do jovem artilheiro e todos eles diziam respeito a ela e de como odiava os vhannyres por terem ousado machucá-la.

Voltou-se para contemplar o espaço. Não queria que vissem as lágrimas que forçavam passagem em seus olhos. Não queria que pensassem que era um covarde, um medroso, que chorara quando percebeu que tudo tinha se acabado. Por que não era por isso que chorava. Chorava por se sentir incapaz de salvar sua capitã. Chorava por não poder salvar a mulher que...

Hassan perdeu a linha de raciocínio, pois, assim como todos, percebera a chuva de plasma atingindo a muralha vhannyr: destróieres e cruzadores brilharam por um instante e desapareceram, como se nunca tivessem existido.

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O total de belonaves que a Terra havia arregimentado para aquele confronto, incluindo várias naves retiradas às pressas dos estaleiros, não chegavam à metade das unidades da frota vhannyr. Tal fato simplesmente arremessava as chances de uma vitória terrestre para a imprevisibilidade de um milagre.

Mas, graças à ação desesperada da Força Tarefa da capitã Benedita, eles haviam conseguido protagonizar um, inesperado e devastador, ataque surpresa. E o almirante Rui de Castro iria usar esta vantagem inicial para decidir a batalha.

Ao seu comando, as belonaves terrestres começaram a abandonar a formação de linha e, apoiadas pelos caças, se precipitaram sobre as astronaves vhannyres impedindo qualquer possibilidade destas voltarem a realizar alguma manobra em conjunto.

No instante seguinte, seus olhos pousaram sobre as imagens do castigado encouraçado capitaneado pela capitã Benedita Bueno.

– Conseguimos contato com o Anhanguera?

– Neste instante, almirante!! – O radialista respondeu, fazendo surgir a ponte, destroçada, do encouraçado na tela principal do João Pessoa; em seu centro estava a capitã Benedita com um curativo ocultando-lhe a testa. Ela procurou esboçar um sorriso amarelo.

– A cavalaria sempre chega em cima da hora...

O almirante retribuiu o sorriso – Você fez um bom trabalho aqui, capitã.

– Eu e meus homens, almirante, não se esqueça!

– Nunca me esqueceria, Benedita. – Ele sorriu. – Indicarei pessoalmente todos vocês para receberem as medalhas de honra! Mantenha posição e prepare-se para saltar quando estiver pronta. Estamos enviando os caças para darem cobertura...

Ela balançou a cabeça afirmativamente, e fez uma continência antes de desaparecer da tela.

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Os olhos de Vorgh luziam de ódio. Nunca a gloriosa frota vhannyr estivera tão próxima de uma derrota humilhante como desta vez. Pela segunda vez em seis meses eles haviam subestimado as forças terrestres.

Somente um povo bárbaro para executar uma manobra diabólica como aquela.

Somente eles seriam capazes de violar todas as convenções da guerra espacial e efetuar um ataque covarde como aquele.

Os olhos do general alcançaram a tela onde era exibida a imagem do Anhanguera.

A batalha poderia estar perdida, mas o capitão daquela nave maldita não sobreviveria para vangloriar-se.

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O estado da Sol de Phrianmo não era muito diferente das naves terrestres; tufos de fumaça radioativa desprendiam-se de vários pontos do casco, duas torres principais estavam completamente destruídas, e seus pedaços flutuavam em frente a combalida superestrutura.

Os relatórios sobre avarias e baixas chegavam a todo instante, mas neste momento Neyffe não prestava atenção neles, pois seus olhos estavam voltados para uma das telas de vídeo onde a imagem da frota terrestre era exibida.

– Comunicação chegando do Anhanguera, sir; as forças da Terra nos darão cobertura para que possamos saltar. Estão nos enviando as coordenadas.

– Certo. Preparar para saltar!

– Ah! Sir, nova comunicação chegando. – O técnico voltou-se para seu aparelho e seus olhos se arregalaram enquanto ouvia a mensagem pelos fones, a expectativa encheu a ponte, mas ao final da mesma sorriu. – A capitã Benedita manda dizer que se o senhor não saltar para o local correto desta vez, ela mesma irá explodir esta nave...

Todos os oficiais se entreolharam e somente o rígido protocolo militar phrianmoense não permitiu que eles gargalhassem. Ainda assim, um ou dois risos abafados foram ouvidos.

– Se eu fosse você, abriria o olho com esta mulher, Neyffe... – Dugall se aproximou com um sorriso malicioso na face.

– Não sei o que quer dizer com isso... – Calou-se para atender o chamado do oficial de radar. – Fale!!

– Canhoneira, sir!!

– Canhoneira?!! Temos visual?!.

Imediatamente a imagem da canhoneira vhannyr surgiu na tela. A saída da arma de partículas ocupava toda a proa numa exibição de força e intimidação. Ela estava manobrando, desvencilhando-se dos destroços espaciais e se posicionando.

– Pelo alcance e trajetória, seu alvo é o Anhanguera!! – Dugall informou, próximo ao painel do radar.

– Armas??!

– 90% inoperantes, e, mesmo se estivessem, não conseguiríamos acertar a esta distância.

Os olhos do major passearam da imagem da canhoneira para o couraçado terrestre; este último parecia não haver percebido a manobra vhannyr. Talvez seus sensores de longo alcance estivessem danificados, Neyffe concluiu.

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– Perdemos dois capacitores, então nosso tempo de recarga aumentou. – O engenheiro comunicou, respondendo a pergunta de sua capitã. – Estamos apenas com 60%, senhora!

Benedita suspirou e voltou-se para o oficial de rádio – E o Ville de Paris e o Hiei?

– Estão prontos e...

– Ordene que saltem.

– Mas, senhora, as normas de guerra espacial declaram que naves sob comando não devem se retirar antes da nau capitânea.

– Conheço as normas, Storino!! Apenas obedeça!! – O tom de voz de Benedita não deixava dúvidas de que deveria ser obedecida. – E diga ao capitão LeMel e a capitã Gravetchenko que se não saltarem eu, pessoalmente, os levarei a corte marcial!!

Storino transmitiu as ordens e ela pode ouvir claramente os protestos, mas a ameaça surtiu efeito, eles estavam sob seu comando a tempo suficiente para saberem que ela nunca ameaçava em vão. Cinco segundos depois, as duas naves tremeluziram e desapareceram, abandonando a zona de guerra.

Ela sentiu um peso desaparecer do peito. Já perdera uma nave sob seu comando e não fazia sentido perder mais duas.

– Alta concentração de íons a dez mil quilômetros! Uma canhoneira, capitã!

Benedita sentiu como se um raio transpassasse-lhe o crânio, ela já presenciara aquele tipo de nave uma vez durante a batalha de Saturno.

Canhoneiras eram belonaves construídas exclusivamente para servirem de suporte para canhões de partículas. Aquelas naves do tamanho de porta-aviões eram, no geral, fracas em armamentos defensivos e ofensivos, mas o canhão de partículas que tomava a quase totalidade de seu corpo compensava estas falhas.

A imagem de uma delas disparando e dizimando dez naves terrestres durante a batalha de Saturno ainda era vívida na memória de Benedita. Felizmente, este tipo de nave era raro e as poucas vistas por olhos terráqueos eram empregadas como naus capitâneas.

– Parece que atraímos a ira do comandante vhannyr! – Murmurou, antes de gritar a plenos pulmões. - Manobra evasiva!! 20º a estiborbo!!

Não! Não havia tempo. No meio de sua ordem, a canhoneira despejou sua carga mortal. A torrente de partículas iônicas avançou, volatizando tudo em seu caminho.

Benedita já podia sentir a torrente iônica derramando-se sobre ela, sua tripulação e sua nave. Chegou a fechar os olhos.

E abriu-os imediatamente.

Uma sombra surgiu entre a torrente de partículas e o Anhanguera. Tudo tremeu e o encouraçado sofreu um abalo digno dos maiores terremotos. Imediatamente, os sistemas de estabilização automáticos entraram em ação, ao mesmo tempo em que línguas de ions lambiam o casco, causando-lhe ulcerações.

A capitã não precisava de instrumentos para saber que a nave estava sendo puxada por um vórtice de hiperespaço. Algo que também acontecia com os íons que desciam por este halo cósmico, desaparecendo no hiperespaço.

Quem seria louco para fazer uma manobra daquelas? Perguntou, mas em seu íntimo conhecia a resposta.

– Estabilizem a nave! – Não podia se dar ao luxo de se preocupar com isso agora, havia algo urgente a ser feito.

Mas, involuntariamente, voltou seus olhos para a direção onde a surrada nave phrianmoense estava a deriva. Seu casco estava carcomido pelos ions, chamas elevavam-se altas, próximo à ponte. Manchas negras e compartimentos expostos indicavam onde as partículas atingiram em cheio destruindo tudo; metal e seres vivos.

Benedita Bueno da Silva sentiu um aperto no peito que beirava a angustia.

O disparo havia dissipado os destroços que eram usados como camuflagem pela nau capitanea vhannyr e agora ela era nitidamente visível nos sensores terráqueos.

"Preparar Armas!!! Alvo; belonave inimiga!!".

Hassan voltou-se para ela, aflito. Ela entendeu; não havia tempo. Ele sabia pelos relatórios o que ela descobrira na prática, ou seja, a arma suprema vhannyr tinha um tempo de recarga mais lento que as armas convencionais. Mas assim que a canhoneira disparou, ela imediatamente iniciara a recarga para o próximo disparo. E eles estavam atrasados. Na melhor das hipóteses, o posicionamento e remuniciamento dos canhões terminaria no mesmo instante em que a canhoneira disparasse.

– Desabilite os lacres de segurança dos manobradores de estibordo e passe-os para o manual. – Ordenou e voltou-se para o navegador. – Esteja atento para o meu sinal, sr Massaud, pois dele dependerá sua vida e a nossa!!

O navegador sentiu suas têmporas suarem e o peso da responsabilidade outorgada por sua capitã. Seria como nos filmes antigos de cowboy; um duelo onde quem acertasse o primeiro tiro ganharia.

– Baterias pront...

Hassan não terminou. Os sensores indicaram a cascata de partículas iônicas cair mortalmente sobre a belonave terráquea.

– AGORA!!! – Benedita gritou a plenos pulmões.

Quase em pânico, o jovem piloto movimentou o timão com tamanha força que parecia querer arrancá-lo. O casco gemeu, os estabilizadores reclamaram e os manobradores estouraram, mas ele se moveu perpendicularmente ao ponto onde estava.

As partículas caíram com toda sua fúria sobre o local onde o Anhangüera havia estado, mas apenas lambeu o casco externo deste, calcinando-o e impossibilitando a permanência de seres vivos nos compartimentos adjacentes, e seguiu seu caminho até dissolver-se.

Todos a bordo do encouraçado haviam prendido a respiração, soltando-a apenas quando viram a enchente incandescente desaparecer. Neste momento, esqueceram do ranger do casco, dos manobradores inutilizados e do perigo. Perigo que Benedita relembrou-os.

– Preparar para disparar!! Corrigir curso do alvo. – Ela gritou.

Os trilhos das casamatas rangeram, mas obedeceram aos comandos e os canhões corrigiram seu curso. O artilheiro limitou-se a levantar o polegar.

Podia ver-se nitidamente a nave inimiga através da tela principal. Era óbvio que ela estava recarregando o canhão de partículas. Mas ela nunca conseguiria atirar novamente. Benedita tinha certeza.

– FOGO!!!

As cinco torres triplas frontais dispararam. Quinze colunas de plasma incandescente, que se assemelhavam a uma horda de dragões, abriram caminho até seu alvo. Transpassada por dezenas de lanças de destruição plasmática, a canhoneira desapareceu em meio ao turbilhão infernal.

Durante alguns segundos, uma segunda estrela, cujo brilho chegou aos céus do nono planeta, ocupou seu espaço no Sistema Solar.

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Ao se verem privados do comando, as astronaves vhannyres começaram a recuar, sempre castigadas pelos caças e belonaves terrestres. Ao perceberem a manobra inimiga, as forças terrestres deram espaço. E assim, uma a uma, as belonaves vhannyres saltaram.

Vinte minutos depois, tudo o que restava da batalha eram os destroços e o vôo intermitente das navetas de resgate em busca de sobreviventes.

De seu aposento no João Pessoa, o almirante Castro observava a movimentação no espaço adjacente.

– A capitã Bueno e o Major Neyffe estão aqui senhor. – O ordenança anunciou abrindo a porta e liberando a passagem para os dois convidados.

Benedita perfilou-se e bateu continência. Neyffe manteve uma atitude respeitosa. O almirante retribuiu a saudação.

– Meus parabéns, capitã! – o almirante ofereceu a mão para ser apertada por Benedita. – Fez um excelente trabalho. Como disse antes, irei pessoalmente recomendar todos aqueles sob seu comando para medalhas de bravura, inclusive ao capitão Shatner e a tripulação do Iroquois.

– Obrigada, Almirante. Por mim e pelos meus homens.

Ele sorriu e se aproximou de Neyffe, estendendo a mão.

– É um prazer conhecê-lo, major! Tenho a honra em dizer-lhe que nosso governo aceitou seu pedido de refúgio. Neste exato momento, estamos preparando campos de refugiados em dois de nossos planetas para receber seus conterrâneos...

– Obrigado, almirante. Juro que será por pouco tempo. Durará somente o tempo de minha nave alcançar nosso mundo e retornar com uma esquadra de escolta...

– Sem pressa, major! Estamos com um estaleiro pronto para receber sua nau capitânea e iniciar os reparos! Que devem demorar algumas semanas se ela estiver tão feia por dentro como está por fora. Então aproveite para conhecer nosso mundo. Creio que ele lhe parecerá, no mínimo, exótico.

– É uma excelente sugestão, almirante! – Neyffe olhou para Benedita, cujos olhos lhe sorriem. – Só preciso do guia certo.


FIM


Finalmente!! Este é o fim da saga da capitã Bueno e sua tripulação a bordo da astronave Anhanguera. Espero que tenham gostado e, principalmente, se divertido.

E não se esqueçam dentro de sete dias começa uma nova história...

See ya..

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