O MESMO MOTIVO QUE O TEU

Olhei para a xícara de café. O vapor que subia do líquido fumegante aguçava-me os sentidos, dando uma leve sensação de bem estar. Algo que estava faltando, a bordo da Argo.

Eu, assim como todos a bordo da belonave, apostei minha carreira na lealdade que tinha para com a Patrulha Estelar, quando Wildstar me convocou para, o que parecia uma loucura na época, roubar a Argo. E sair pelo espaço em busca da origem de uma mensagem que ninguém havia entendido direito.

Pensando bem... fora uma loucura mesmo. Mas os membros da Patrulha Estelar se consideravam parte de uma familia então ninguém pensou muito quando ouviu o chamado.

O líquido continuava exalando seu cheiro adocicado. No fim tudo dera certo e agora estávamos em missão oficial para o Governo da Terra. Mas, se todos se sentiam aliviados de não serem mais considerados renegados, por outro, a tensão aumentava a cada dia; o inimigo desconhecido que encontramos em Brumus realizava ataques cada vez mais freqüentes, e nossos nervos estavam começando a aflorar. Eu próprio podia servir como exemplo: vinha de um alerta de doze horas...

- Vai deixar este café esfriar? - a voz, conhecida, veio de minha frente.

Levantei o olhar; a pessoa que estava que estava na minha frente usava o mesmo uniforme que o meu mas, o corte era diferente; lembrava o de Lola, só que com as cores dos pilotos de astrocaça.

- Yousseff...

- O senhor permite, comandante? - a piloto de cabelos rosas ondulados, sorriu olhando para o assento em frente. Apenas fiz um sinal de assentimento e ela se sentou.

- Ahh!! Estou um prego... - resmungou ao depositar a bandeja que trazia -Estou louca para me enrolar nas cobertas...

Limitei-me a olhar para a bandeja que ela depositara sobre a mesa: havia um pouco de tudo da cantina.

- Se comer tudo isso...vai ter uma indigestão.

- Se não comer isso morro de fome - ela sorriu e concentrou-se na refeição.

Samira Yousseff. Terceira-tenente recém formada na Academia Aeroespacial de Sidney. Transferida para os Tigres Negros duas semanas antes de desertarmos da Estação Energética Lunar. Portanto a garota não era, técnicamente, um membro da Patrulha Estelar e eu me indagava do por que dela ter desertado conosco.

- Que foi?! - os olhos da jovem encararam-me de maneira divertida - Estou com o rosto sujo?! - perguntou passando o quardanapo pelos lábios.

O constrangimento devia ser visível em meu rosto: sem perceber eu a encarara desde o momento que ela começara a comer. Yousseff parecia ter percebido meu acanhamento e se divertia com a situação.

- O senhor tem familia, comandante? - a pergunta foi tão inesperada que parecia ter pego a própria Yousseff de surpresa pois, sua reação imediata foi voltar os olhos para a bandeja; encabulada - Desculpe meu excesso de liberdade, senhor...

- Não foi nada tenente e, respondendo a sua pergunta, eu não tenho familia. Meus pais e minha esposa morreram quando um ataque gamilon varreu Los Angeles.

- Sinto muito... eu não queria...

- Não foi nada, Yousseff. Isso já foi a muito tempo.

- Mas... - ela titubeou, como se fosse pisar em terreno escorregadio - Foi por isso que o senhor se voluntariou para a Patrulha Estelar na viagem para Iscandar?

Olhei para os cachos cor de rosa de Samira, aquele tipo de cabelo era raro, pelo menos eu me lembrava de ter visto apenas uns dois iguais àquele, e eles emolduravam o rosto da jovem de uma forma quase angelical. Apesar da aparência aquela garota possuia um sorriso ousado.

- Você está certa!! - respondi sem desviar os olhos dela - Pelos menos no começo: sentia que deveriamos ir a forra pelo que fizeram com a Terra. E, que forma melhor de dar o troco, do que explodir umas cidades gamilons? -Yousseff permanecia com os olhos baixos - Mas, depois de ver tanta morte e sofrimento me peguei perguntando se realmente valia a pena?

Youssef levantou a face e encarou-me; havia um brilho diferente em seu olhar. Não emitia mais aquele brilho divertido de antes, mas uma chama rubra queimava dentro dele. A chama rubra do ódio.

- Mas como o senhor pode dizer uma coisa dessas: claro que vale a pena - disse encolarizada - Aqueles desgraçados devem pagar por tudo...".

- Tente se acalmar Yousseff... - eu jamais imaginei que aquele rosto angelical pudesse esconder tamanho ressentimento.

- Não consigo entender porque o capitão Avatar não deu cabo de toda a maldita raça gamilon quando teve chance - os olhos da jovem piloto faiscavam -Durante os bombardeios, tudo o que queria era poder por minhas mãos na garganta de um daqueles smoorfs e esganá-lo até a morte...

- Talvez, por que ele tenha tido compaixão...

- Compaixão!? Não pensei que Avatar fosse tão fraco!! - a piloto escarneceu -Me responda uma coisa, comandante? Eles tiveram compaixão quando bombardearam nossas cidades, sem aviso?

- Yousseff! Controle-se!! - percebi que a furia de minha subordinada começava a sair do controle, então decidi dar um basta naquela conversa; mais tarde teria uma conversa com ela. Num local mais apropriado que o refeitório.

O tom de comando de minha voz fez com que Youssef se calasse imediatamente, assumindo uma rígida posição militar.

- Desculpe-me senhor. Não acontecerá de novo - disse após uns segundos, sua respiração começava a se normalizar, se levantando - Se o senhor me der licença?!

Nada respondi e ela se levantou.

- Só me responda uma pergunta Yousseff - falei, quando ela passou por mim - Por que se juntou a Patrulha Estelar?

- Pelo mesmo motivo que o senhor teve, ao se voluntariar pela primeira vez.

Vingança.Este fora o motivo que me levara a bordo do Yamato àquele dia.

- Mas não estamos enfrentando os gamilons desta vez...

- O senhor tem certeza disso?

Olhei a xícara de café; não havia mais vapor d`água. Não!! eu não tinha certeza. Talvez ela tivesse razão e aquilo tudo não passasse de um plano dos gamilons para conquistar a Terra.

- Mas, mesmo se não forem eles - ela continuou após alguns segundos - Não deixarei ninguém fazer o que fizeram com meu planeta de novo. Isso eu juro!

E, ignorando, o protocolo militar, retirou-se do refeitório.

O líquido negro da xícara brilhava sob a luminosidade do refeitório. Eu já havia sido como ela. Jovem, mas com o coração conspurgado pelo rancor e pelo ódio. Tendo como único objetivo a desforra contra aqueles que tiraram a minha felicidade. E, não me importaria em dar a própria vida se pudesse satisfazer aquele desejo ignóbil.

Felizmente, naquela viagem, havia alguém que pensava diferente. Alguém que mostrou a sua jovem tripulação que havia algo mais que a vingança cega.

Mas, agora, não havia mais um capitão Avatar para mostrar, aos novos patrulheiros, que proteger a vida e aqueles que amamos era mais importante, que satisfazer uma emoção vazia e desesperada.

Eu e todos a bordo daquele encouraçado deviam muito ao velho capitão, veterano de inúmeras batalhas, patrono da Marinha de Guerra Espacial da Terra. Infelizmente não tinhamos como agradece-lo a não ser preservando seus ideais e ensinando-os as novas gerações de patrulheiros.

Levantei os olhos e olhei a porta. Um pensamento cortou-me o cérebro; a oportunidade de honrar a memória de meu capitão tinha acabado de sair por aquela porta.

Levantei-me num átimo. Talvez ainda conseguisse alcançar, Yousseff, antes dela chegar aos alojamentos.

Dei três passos e parei, voltei-me para a xícara que havia esquecido sobre a mesa. Eu viera até o refeitório para tomar uma xicara de café e não sairia dali sem toma-la.

Peguei-a e tomei todo seu conteúdo de um só gole. Meu rosto se contorceu numa careta...

- Tá gelado! - resmunguei.

ENDE

Hadrian Marius: Trago-lhes um antigo fanfiction de Patrulha Estelar convertido para o ponto de vista do Narrador-Personagem. Já faz algum tempo que tenho me interessado por esse foco narrativo. Haveram mais textos a caminho.

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