Alice e o Escritor

Por Cristovão Tezza

– Escritores não são pessoas boas. O que me intriga é que os milhares de leitores que ainda restam no mundo, como vocês, essas almas bem-intencionadas aí na platéia me ouvindo, não se apercebam dessa verdade simples e universal. Não satisfeitos em apenas ler os livros que escrevemos, querem também nos ouvir falar, fazem filas atrás de autógrafos e alguns nos escutam com a adoração que se tem aos santos e aos sábios. Felizes, sorridentes, suportam palestras e mesas-redondas onde os escritores costumam desfiar aquele rosário de besteiras e mentiras, sempre as mesmas, teorias estapafúrdias que inventaram de ressaca quinze minutos antes de sentar à mesa ou então que arrastam pela vida afora como uma tábua de mandamentos que não tem nenhum relação com o que escrevem (ou, muito pior ainda, teorias que desgraçadamente têm relação com o que escrevem) piadas sem graça (escritores são quase sempre -é um paradoxo- seres desprovidos de humor), patéticos ataques de narcisos ou simplesmente babaquices sobre o “método de escrever”, o valor da “inspiração”, a importância da leitura no mundo moderno -daqui a pouco ainda sai alguma coisa do tipo “como fazer amigos escrevendo livros”. O poeta iniciante e o vetusto prêmio Nobel, todos se expõem patetas ao ridículo de falar em público e suas bobagens se equivalem. Deve haver exceções, é claro – mas eu não as conheço. O leitor é crédulo – acredita no que está escrito e acredita nos que escrevem. Os que escrevem têm “o dom”. É aí que fazemos a festa. Ninguém percebe que a matéria-prima da literatura é o desprezo. O que me irrita, ao olhar para mim mesmo, é essa dependência gosmenta das outras pessoas, não para sobreviver, o que até seria justo, mas para me alimentar delas, porque sem a estupidez em torno eu restaria sem assunto e morreria por completamente inútil. Se os escritores ainda ficassem sozinhos, em paz – mas não, a maior parte vive em grupos e bandos aguerridos, disputam a tapa cada centímetro da imprensa, puxam o saco do cronista social, lutam desesperados por uma entrevista de cinco minutos no rádio e matam a mãe por dois segundos na televisão, refugiam-se em panelas, igrejas e dissidências, protegem-se em uma gama infinita de lobbies, o lobby gay, o heterossexual, o feminista, o judeu, o árabe, o comunista, a bancada lésbica, o liberal-comunista, os regionais, os neo-machos, o hippie-naturalista, o poeta de bar, o gênio, o assinador de abaixo-assinados que se justifica pela defesa da “causa”, qualquer uma, e mais o – maldito seja! – enviador de e-mails contra o qual não há anti-vírus que funcione, e todos odeiam-se com uma intensidade que não tem paralelo em nenhum outro exemplo da espécie humana, porque a palavra, o tal dom que eles têm, multiplica tudo até a paranóia, dando uma impressão assustadora de realidade. Ao mesmo tempo, para tornar tudo pior, são seres irrelevantes, produzem encalhes invencíveis, praticamente nada do que escrevem tem importância e cada vez menos há pessoas interessadas neles, em geral apenas os também candidatos a escritor, seres intrinsecamente chatos, o que faz desta minúscula arena letrada um sufocamento infernal de pesadelos, frustrações e vinganças. Esse é o miolo em comum – na aparência, são seres bem diferentes, é claro, enganam bem, são até convidados para eventos como esse, e um Lineu teria dificuldade para classificá-los exaustivamente, tamanha a riqueza da fauna. Eles têm uma incrível capacidade de disfarce. Um pai entregaria a filha a um escritor, feliz da vida, sem saber o que a espera. Há os escritores gentis, os grotescos, as grandes promessas, os mal-educados, os sindicalistas, os ganhadores de concurso, os presidentes de associações, os pornógrafos, os perdedores de concurso, os francamente ruins, os autistas, os imitadores, os que mandam carta para a redação, os não-escritores (que são diferentes dos maus escritores) e por aí vai. É uma coisa óbvia: se escritores fossem boas pessoas exerceriam alguma atividade decente da sociedade humana, algo que de fato fosse solicitado pela vizinhança da espécie; seriam seres normais, capazes da convivência e de todos esses valores humanistas que eles às vezes cantam de dedo em riste, incapazes de aplicar na própria vida. Escrever é sempre a expressão de um fracasso, com o qual não se aprende nada – ao contrário da vida real, em que o erro nos melhora. Na literatura acontece o contrário: a presunção doentia que nos leva a escrever e que eventualmente encontra aquela mínima ressonância – o prato de resto de comida do cão faminto, ao qual nos lançamos com a língua de fora – acaba por nos corromper a alma por inteiro de maneira que em poucos anos não servimos para mais nada senão medir a própria incompetência, linha a linha.

Fiz um silêncio retórico e dei um gole de água daquele copo horroroso de plástico com uma certa pose episcopal, para sentir a temperatura da platéia de Curitiba, que eu desgraçadamente desconhecia; a cidade parece que tem uma inexplicável fama de culta. Ao lado, meu parceiro de mesa (o nome me escapa), um simpático romancista municipal e professor universitário que tentava segurar o riso, talvez por imaginar (ele não me conhece), vítima daquele tipo de respeito semiformal ao outro que é a marca da província, talvez por imaginar que eu falasse a sério, e que uma gargalhada poderia ser ofensiva ao visitante. E então, súbito, eu senti o silêncio gélido da platéia – num segundo percebi que a minha catilinária cínica, absurda, porém bastante inspirada (eu estava falando com a leveza de quem escreve, cada vírgula no seu lugar, o ritmo ponderado, os gestos discretos mas eficientes), estava sendo recebida, ou lida, como uma sucessão de pedras na cabeça deles, e eles estavam tentando ainda descobrir em que freqüência deviam sintonizar o meu alto-falante, se pela ironia, pela agressão, pelo humor, pela estupidez, e eu podia descobrir nos olhos intrigados da primeira fila aquele desespero de encontrar o modo exato de enfim compreender o que eu dizia. Ponderavam cada palavra minha – no silêncio mortal que se seguiu ao meu gole de água – como quem sopesa uma bola de chumbo que lhes cai à mão. Ninguém sorria. Dei outro gole, lento, para ganhar tempo – eu havia claramente errado o tom. Nas outras duas vezes em que fiz praticamente o mesmo discurso inicial – numa bienal na Bahia e na feira de Porto Alegre – fui recebido com gargalhadas, risos, um movimentar nas cadeiras, um olhando para o outro e cochichando algo, isso está engraçado, ou esse cara é bom mesmo, aqui e ali um rosto ativamente sério, já engatilhando uma contestação, adiante o esboço de um protesto tímido com o punho levantado, enfim, um sucesso instantâneo que logo ensejou perguntas – digamos, “instigantes” –, algumas francamente provocadoras sobre literatura, cinismo, política e ética que nos deixaram a todos à vontade e eu praticamente não precisei mais pensar até o fim do evento, devolvendo apenas as respostas automáticas de efeito comprovado, para depois pegar meu cheque e cuidar da vida.

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