Crônicas da Tomenta

As fronteiras da fantasia medieval são exploradas em quatorze contos, quatorze visões do mesmo mundo, quatorze histórias de aventura, guerra, tragédia, magia, amor e traição. Ao lado de cavaleiros e ladrões, soldados e menestréis, vigaristas e bárbaros, somos levados em uma jornada por Arton, um dos mais populares universos fantásticos do Brasil.

Crônicas da Tormenta apresenta Arton em todo o seu esplendor e horror, por alguns dos maiores nomes da literatura fantástica nacional. Nestas páginas há pequenas tragédias e vitórias, ao lado de grandes caçadas a monstros e guerras que mudam o destino do mundo. Seus protagonistas são crianças e deuses, guerreiros e artistas. Seus cenários são os salões da nobreza, as tavernas imundas, os campos de batalha sanguinolentos, as estradas empoeiradas, os mares bravios.

Os veteranos encontrarão os locais e personagens que já conhecem, além de descobrir outras facetas deste mundo. Os recém-chegados encontrarão uma terra repleta de magia e maravilhas, num volume que é a introdução perfeita ao cenário — e descobrirão por que não há lugar como Arton.

Organizado por J.M. Trevisan, Crônicas da Tormenta conta com os talentos de Leonel Caldela, Remo Disconzi, Claudio Villa, Marlon Teske, Ana Cristina Rodrigues, Douglas MCT, Rogerio Saladino, Leandro Radrak, Raphael Draccon, Antonio Augusto Shaftiel, Marcelo Cassaro e J.M. Trevisan, com apresentação de Gustavo Brauner e prefácio de Eduardo Spohr.

Ficha técnica

Título: Crônicas da Tormenta
Autor: J.M. Trevisan (org.)
Formato: 15,5 x 23 cm, 288 páginas, brochura
Preço: R$ 39,90
ISBN: 978858913463-7



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Alice e o Escritor

Por Cristovão Tezza

– Escritores não são pessoas boas. O que me intriga é que os milhares de leitores que ainda restam no mundo, como vocês, essas almas bem-intencionadas aí na platéia me ouvindo, não se apercebam dessa verdade simples e universal. Não satisfeitos em apenas ler os livros que escrevemos, querem também nos ouvir falar, fazem filas atrás de autógrafos e alguns nos escutam com a adoração que se tem aos santos e aos sábios. Felizes, sorridentes, suportam palestras e mesas-redondas onde os escritores costumam desfiar aquele rosário de besteiras e mentiras, sempre as mesmas, teorias estapafúrdias que inventaram de ressaca quinze minutos antes de sentar à mesa ou então que arrastam pela vida afora como uma tábua de mandamentos que não tem nenhum relação com o que escrevem (ou, muito pior ainda, teorias que desgraçadamente têm relação com o que escrevem) piadas sem graça (escritores são quase sempre -é um paradoxo- seres desprovidos de humor), patéticos ataques de narcisos ou simplesmente babaquices sobre o “método de escrever”, o valor da “inspiração”, a importância da leitura no mundo moderno -daqui a pouco ainda sai alguma coisa do tipo “como fazer amigos escrevendo livros”. O poeta iniciante e o vetusto prêmio Nobel, todos se expõem patetas ao ridículo de falar em público e suas bobagens se equivalem. Deve haver exceções, é claro – mas eu não as conheço. O leitor é crédulo – acredita no que está escrito e acredita nos que escrevem. Os que escrevem têm “o dom”. É aí que fazemos a festa. Ninguém percebe que a matéria-prima da literatura é o desprezo. O que me irrita, ao olhar para mim mesmo, é essa dependência gosmenta das outras pessoas, não para sobreviver, o que até seria justo, mas para me alimentar delas, porque sem a estupidez em torno eu restaria sem assunto e morreria por completamente inútil. Se os escritores ainda ficassem sozinhos, em paz – mas não, a maior parte vive em grupos e bandos aguerridos, disputam a tapa cada centímetro da imprensa, puxam o saco do cronista social, lutam desesperados por uma entrevista de cinco minutos no rádio e matam a mãe por dois segundos na televisão, refugiam-se em panelas, igrejas e dissidências, protegem-se em uma gama infinita de lobbies, o lobby gay, o heterossexual, o feminista, o judeu, o árabe, o comunista, a bancada lésbica, o liberal-comunista, os regionais, os neo-machos, o hippie-naturalista, o poeta de bar, o gênio, o assinador de abaixo-assinados que se justifica pela defesa da “causa”, qualquer uma, e mais o – maldito seja! – enviador de e-mails contra o qual não há anti-vírus que funcione, e todos odeiam-se com uma intensidade que não tem paralelo em nenhum outro exemplo da espécie humana, porque a palavra, o tal dom que eles têm, multiplica tudo até a paranóia, dando uma impressão assustadora de realidade. Ao mesmo tempo, para tornar tudo pior, são seres irrelevantes, produzem encalhes invencíveis, praticamente nada do que escrevem tem importância e cada vez menos há pessoas interessadas neles, em geral apenas os também candidatos a escritor, seres intrinsecamente chatos, o que faz desta minúscula arena letrada um sufocamento infernal de pesadelos, frustrações e vinganças. Esse é o miolo em comum – na aparência, são seres bem diferentes, é claro, enganam bem, são até convidados para eventos como esse, e um Lineu teria dificuldade para classificá-los exaustivamente, tamanha a riqueza da fauna. Eles têm uma incrível capacidade de disfarce. Um pai entregaria a filha a um escritor, feliz da vida, sem saber o que a espera. Há os escritores gentis, os grotescos, as grandes promessas, os mal-educados, os sindicalistas, os ganhadores de concurso, os presidentes de associações, os pornógrafos, os perdedores de concurso, os francamente ruins, os autistas, os imitadores, os que mandam carta para a redação, os não-escritores (que são diferentes dos maus escritores) e por aí vai. É uma coisa óbvia: se escritores fossem boas pessoas exerceriam alguma atividade decente da sociedade humana, algo que de fato fosse solicitado pela vizinhança da espécie; seriam seres normais, capazes da convivência e de todos esses valores humanistas que eles às vezes cantam de dedo em riste, incapazes de aplicar na própria vida. Escrever é sempre a expressão de um fracasso, com o qual não se aprende nada – ao contrário da vida real, em que o erro nos melhora. Na literatura acontece o contrário: a presunção doentia que nos leva a escrever e que eventualmente encontra aquela mínima ressonância – o prato de resto de comida do cão faminto, ao qual nos lançamos com a língua de fora – acaba por nos corromper a alma por inteiro de maneira que em poucos anos não servimos para mais nada senão medir a própria incompetência, linha a linha.

Fiz um silêncio retórico e dei um gole de água daquele copo horroroso de plástico com uma certa pose episcopal, para sentir a temperatura da platéia de Curitiba, que eu desgraçadamente desconhecia; a cidade parece que tem uma inexplicável fama de culta. Ao lado, meu parceiro de mesa (o nome me escapa), um simpático romancista municipal e professor universitário que tentava segurar o riso, talvez por imaginar (ele não me conhece), vítima daquele tipo de respeito semiformal ao outro que é a marca da província, talvez por imaginar que eu falasse a sério, e que uma gargalhada poderia ser ofensiva ao visitante. E então, súbito, eu senti o silêncio gélido da platéia – num segundo percebi que a minha catilinária cínica, absurda, porém bastante inspirada (eu estava falando com a leveza de quem escreve, cada vírgula no seu lugar, o ritmo ponderado, os gestos discretos mas eficientes), estava sendo recebida, ou lida, como uma sucessão de pedras na cabeça deles, e eles estavam tentando ainda descobrir em que freqüência deviam sintonizar o meu alto-falante, se pela ironia, pela agressão, pelo humor, pela estupidez, e eu podia descobrir nos olhos intrigados da primeira fila aquele desespero de encontrar o modo exato de enfim compreender o que eu dizia. Ponderavam cada palavra minha – no silêncio mortal que se seguiu ao meu gole de água – como quem sopesa uma bola de chumbo que lhes cai à mão. Ninguém sorria. Dei outro gole, lento, para ganhar tempo – eu havia claramente errado o tom. Nas outras duas vezes em que fiz praticamente o mesmo discurso inicial – numa bienal na Bahia e na feira de Porto Alegre – fui recebido com gargalhadas, risos, um movimentar nas cadeiras, um olhando para o outro e cochichando algo, isso está engraçado, ou esse cara é bom mesmo, aqui e ali um rosto ativamente sério, já engatilhando uma contestação, adiante o esboço de um protesto tímido com o punho levantado, enfim, um sucesso instantâneo que logo ensejou perguntas – digamos, “instigantes” –, algumas francamente provocadoras sobre literatura, cinismo, política e ética que nos deixaram a todos à vontade e eu praticamente não precisei mais pensar até o fim do evento, devolvendo apenas as respostas automáticas de efeito comprovado, para depois pegar meu cheque e cuidar da vida.

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