Primeiro Encontro com Baldios

Não consigo imaginar outra forma de relatar tudo que me aconteceu que não seja começando por aquela tarde fatídica em que faleceu meu velho e recluso pai.

Doutor Julius Assis era o clichê vivo do intelectual recluso que passava dias ou semanas trancado em seu escritório-biblioteca absorto em pesquisas que ninguém achava utilidade.

Imagino que esta atitude de pai distante e ausente foi o que levou sua esposa a abandoná-lo. Eu tinha dez anos na ocasião e só voltei a reencontrá-lo no funeral de minha mãe. Desde então, impus a mim mesma uma reaproximação.

Então, ali estava eu abandonando o asfalto e entrando numa estrada de terra ladeada por plantações e eucaliptos. No centro da propriedade ficava o casarão que fora à casa de minha infância.

Estacionei o carro próximo a entrada da frente. Ninguém veio me recepcionar. Não estranhei. Meu pai vivia sozinho, sem empregados, sem vizinhança, sem amigos conhecidos. Subi as escadas, atravessei a varanda e abri a porta da sala.

- Papai?! Sou eu, Ellen!

Chamei e não obtive resposta. Novamente não estranhei. Doutor Assis devia estar enfurnado em seu escritório-biblioteca. Avancei casa adentro. Sabia exatamente onde procurar.

Meu pai morava numa “casa funcional”, em suas próprias palavras, apenas o necessário para um homem viver e a decoração mínima para agradar visitantes ocasionais. Ele mantinha os cômodos que ocupava impecavelmente limpos e organizados. Os demais estavam trancados há anos.

Passei pelo quadro que exibia uma antiga fotografia batida dias antes de minha mãe partir. Parecíamos uma família feliz posando na frente de seu lar. Era o único ornamento que quebrava a monotonia branca da parede caiada. A praticidade de meu pai limitou a decoração para visitas a sala de visitas.

Alcancei a porta do escritório e preparei o sermão que ia lhe passar por deixar a casa novamente ao “deus-dará”, mas ao abri-la qualquer frase que esperava dizer morreu em minha garganta ante a cena que presenciei.

Meu pai estava em pé na frente da escrivaninha cercado por três homens vestindo roupas e máscaras de mergulhadores. O chão estava forrado pelos preciosos mapas, rolos e livros do doutor Assis. Ele me olhou horrorizado.

- Ellen – balbuciou – Fuja!

Seu aviso chegou tarde. Os invasores já haviam percebido minha presença e antes que reagisse um deles pegou meu braço e me imprensou na parede. Sua outra mão agarrou meu pescoço e seus dedos de aço começaram a fechar mais e mais. Quanto mais eu lutava para me soltar mais ele apertava. Já sentia a inconsciência e o fim chegando quando entrou em cena outro personagem.

Baldios Balkan. Ele não devia ser muito mais velho do que eu. De porte atlético, músculos definidos, hábil artista marcial. Claro que naquela hora eu não havia reparado em nada disso. Depois que Baldios entrou em cena arremessando meu estrangulador para o outro lado da sala tudo o que fiz foi me sentar, tossir e esfregar o pescoço dolorido.

- Tire-a daqui doutor!

Ele gritou para meu pai que não pensou duas vezes. Me agarrou e, praticamente, me arrastou para fora do escritório. A porta se fechou atrás de nós. Fomos para uma sala contigua. E lá continuei esfregando o pescoço dolorido e cheio de hematomas até

Baldios entrar, minutos depois.

- Como ela está? – ele foi logo perguntando.

- Vai ficar bem – meu pai respondeu – E os zumdiers?

- Dois fugiram, o outro está estirado no chão do escritório, empesteando o ar!

- Naturalmente, afinal eles não passam de cadáveres reanimados!

Admito que quando estava sendo esganada pelo “mergulhador” eu não senti cheiro nenhum. Talvez tivesse coisas mais importantes para me preocupar do que o perfume de meu algoz.

- Espero que agora entenda doutor, é perigoso que continue aqui. Por isso que o professor quer que vá para junto dele.

- Entendo a preocupação de meu amigo, mas a resposta ainda é não!

- Doutor-doutor, aqui não temos como protegê-lo do Cartel!

Até aquele momento eu escutava tudo calada, e apesar de ter ouvido umas palavras esquisitas, foi somente quando ouvi a palavra “Cartel” que senti um gosto ruim na boca. Será que meu pai havia se envolvido com narcotraficantes? Era por isso que tinha contratado um guarda-costas? Isso mesmo, naquele momento eu achava que

Baldios era um guarda-costas contratado por meu recluso genitor.

E foi então que resolvi observá-lo mais atentamente. Baldios usava um uniforme predominantemente laranja com peitoral azul marinho, joelheiras, cinturão e botas azuis-marinhos. Também havia um símbolo sobre o peito parecido com três “x”. O visor sobre os olhos e curiosos cabelos cinza completa o conjunto.

Durhan diz que o traje-armadura, como ele chama o uniforme, é fornecido pelo “cinturão-atômico”. Só não me pergunte o que é um cinturão-atômico. Trocando em miúdos, Baldios parecia um daqueles heróis dos gibis que lia na infância e adolescência,

- Não acho que estarei seguro com Durhan meu jovem.

- Para um pouco! – resolvi dar um basta naquela conversa esquisita – O que está acontecendo aqui?

- Quieta! Algo está vindo!

Nem preciso dizer que fiquei doida. Aquele rapaz que havia acabado de conhecer, e cujo nome nem imaginava, ousava mandar-me calar a boca? Com que autoridade?

Ora, ele era o guarda-costas de meu pai o que me fazia à filha de seu patrão, portanto iria exigir o respeito devido.

Claro que não exigi nada por que, no instante seguinte, o “algo” atingiu a casa com a força de uma locomotiva. O velho casarão da época dos barões do café ruiu sobre seus ocupantes, ou seja, nós.

Milagrosamente sai de debaixo dos destroços somente com alguns arranhões.

Esfreguei os olhos para espantar a poeira e percebi a criatura, que devia estar há uns seis metros de distancia, de costas para mim.

Ela devia ter quatro metros de altura e quase o mesmo de largura. Seu corpo robusto coberto de couro endurecido era encimado por uma cabeça que lembrava a de um rinoceronte. Homem-rinoceronte seria um adjetivo adequado para ela. Seus braços pareciam toras que reviravam os escombros procurando algo.

Decidi me afastar devagar e cautelosamente, mas um passo em falso e um vaso se quebrando sobre o meu peso chamou sua atenção. O homem-rinoceronte me olhou por um instante e veio em minha direção com uma rapidez que eu jamais esperaria de alguém daquele tamanho.

Já estava sobre mim quando um golpe violento lançou o monstro para longe levantando destroços e poeira. Baldios pousou na minha frente e sem dizer palavra mostrou o bosque de eucaliptos onde meu pai me acenava.

- Pegue-o e fuja! Vou distrair o aberran! Vá!

Era a segunda vez em menos de uma hora que era salva por Baldios. Já estava começando a me sentir como aquelas donzelas sempre em perigo das histórias. Logo eu, que sempre me considerei uma mulher independente e segura de si. A lorota de mulher forte recebeu seu ultimo golpe quando corri como uma garota assustada para o bosque.

- Rápido filha!

Pelo canto do olho vi que a criatura se levantava e Baldios se preparava para enfrentá-la. Loucura. Loucura total.

- Precisa falar para ele fugir pai! Não tem como ele lutar contra aquele monstro.

- Pessoas como nós não podem fazer nada Ellen! Está é uma luta entre para-humanos!

Para-Humanos. De todas as palavras estranhas e acontecimentos estranhos que ouvi e vi aquela tarde essa foi à única que disparou meu faro de jornalista.

Enquanto meu pai me arrastava para dentro do bosque vi o homem-rinoceronte desferiu um golpe contra Baldios, que desviou com extrema agilidade. Não tive tempo de me impressionar com aquilo pois meu pai me arrastava cada vez mais para o emaranhado de eucaliptos.

- Que loucura é essa pai? - gritei tentando recobrar o controle da situação. Meu pai parou

- Oh, querida, nunca quis envolver você e sua mãe nisso...

- Mas já me envolveu, então é melhor contar o que diabos esta acontecendo?

- Depois filha – Ele olhava em volta assustado – Agora vamos sair daqui.

- Não pai, agora! – eu estava começando a me enfurecer.

“Porque não sana a duvida da menina Assis”

A voz fantasmagórica ressoou de entre as arvores me assustando e fazendo meu pai tremer como se estivesse com febre. O pavor era visível em seu rosto. E esse pavor não dizia respeito a dezenas de zumdiers que haviam surgido impedindo qualquer tentativa de fuga.

- Durwin?! – me pai balbuciou.

Durwin, que depois descobri ser um excepcional geneticista, flutuava na nossa frente. Seu traje militar, capa esvoaçante, barba e cabelos grisalhos denunciavam-no como o típico vilão de gibis. Eu sei que essa história esta ficando cada vez mais estranha e que muito provavelmente eu estava sonhando que estava dentro de um gibi. Antes fosse.

- Conte-lhe tudo – Durwin provocou.

- Não a envolva Durwin!

- Ora, ela mesma disse que já se envolveu.

Durwin terminou a sentença levantando meu queixo com a ponta do dedo. Sua aproximação foi tão instantânea que não consegui esboçar qualquer reação. Seus olhos brilhavam numa mistura de genialidade e loucura. Sua voz saiu debochada.

- Conte-lhe que somos náufragos do tempo. Que ficamos presos nessa era decrépta por sua causa!

- Afaste-se dela!

Meu pai pulou sobre Durwin que voltou para sua posição original gargalhando. Não deixei de admirar meu pai por ter superado seu pavor e buscado coragem suficiente para defender a filha.

- Meus cálculos não estavam errados Durwin! Eles foram sabotados por alguém! Você esta louco! A viagem fez algo com sua cabeça. Olhe o que se tornou: o mais respeitado geneticista de nossa era um violador de cadáveres, corpos e mentes.

- Não estou louco Assis! Apenas percebi que quem controla os para-humanos controlara o futuro!

- Foi você!

Meu pai deu-se conta de que havia descoberto uma verdade que não imaginava nem em seus sonhos. E o sabor amargo da traição espantou todo o medo e pavor que sentia no corpo.

- Foi você não foi? Você planejava isso desde o inicio Durwin. Por isso sabotou meus cálculos, para que ficássemos nessa era e você pudesse por seus planos insanos em ação!

Durwin gargalhou com mais ferocidade.

- Não vamos permitir isso Durwin! Os náufragos sabem tudo sobre você! Para dete-lo não titubearemos a nos revelar para os heróis desta era!

- É por isso que os náufragos devem desaparecer Julius! Osborn e Caliman já encontraram seu destino e agora é a sua vez!

Percebi o que ia acontecer. Tentei reagir, mas uma mulher com asas de inseto surgiu do nada e me golpeou. A dor me fez dobrar os joelhos. Uma dor que aumentou quando vi meu pai ser transpassado por descargas de energia expelidas pelas luvas de Durwin.

- Nãããoooo!

Gritei desesperada. Tentei levantar e correr em seu socorro. Seu corpo caiu inerte contra o solo duro e o vento soprou para longe a gargalhada insana de Durwin. No instante seguinte tudo mergulhou no silencio. Durwin, zumdiers, mulher com asas de inseto, todos haviam desaparecidos.

Com a cabeça de meu pai sobre o colo chorei. Quando as lagrimas caíram sobre sua face ele abriu os olhos. Estava vivo. Por pouco tempo.

- P-pai...

- Por favor, filha, me perdoe!

Ele fazia um esforço hercúleo para pronunciar cada silaba. Eu apenas conseguia chorar. Nunca me senti tão impotente e fraca em minha vida.

- Fui um pai e-egoísta. M-mas nunca de-deixei de a-amar v-vocês duas, Ellen.

Sua cabeça pendeu. O ultimo suspiro foi dado. Sua redenção foi completada e a jornada de Julius Assis, meu pai, nesse mundo recebeu um término.

E tudo o que eu, sua filha, pode fazer foi chorar. Chorava alto e dolorido. Baldios apareceu e ficou calado apenas observando e zelando pela minha dor.

- Sinto Muito – foi tudo o que ele disse.

Eu também sentia. Havia muitas questões em minha mente e assim que eu conseguisse me controlar Baldios iria me responder todas. Nem imaginava que a partir daquele momento eu estava mergulhando num admirável mundo novo.

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