BATALHA NO ESPAÇO

QUINTA PARTE

A porta se abriu com um baque seco, revelando o espaço cósmico. Milhões de estrelas brilhavam como jóias na caixinha de uma princesa. Infelizmente os três que saiam da câmara não tinham tempo para contemplar à vista.

Assim que a porta se fechou, isolando-os do lado de fora da nave, Benedita percorreu, com os olhos, o casco do cargueiro até onde estava o destróier vhannyr atracado. Não estavam muito longe do mesmo, cerca de vinte metros, e de onde estavam dava pra ver o duto de atracação. Só teriam que ir até lá implantar os explosivos e...

– Vamos! – Chamou seus companheiros e começaram a caminhar na direção do duto. Era um avanço lento, cada passo era dado com cuidado. Não que fosse difícil fazer uma caminhada externa, pois suas botas eletromagnéticas permitiam que andassem sobre o casco como se estivessem na Terra, desde que os dois pés não perdessem o contato com o metal ao mesmo tempo.

Chegaram ofegantes às bordas do duto. A capitã se aproximou do ponto onde o duto se conectava ao cargueiro e Wells e Verne passaram-lhe as cargas que carregavam. Habilmente ela prendeu as cargas, com fita aderente, e posicionou os detonadores.

– Só espero que dê certo. – Disse, fazendo um sinal para os soldados. Começaram a recuar.

Então veio o primeiro disparo. Logo seguido de outros.

Numa das bordas do destróier surgiram vários soldados que disparavam contra os terráqueos.

Benedita e os soldados revidaram e os lasers iluminaram a escuridão.

– Vamos recuar até a escotilha! – Ela gritou após atingir um vhannyr.

Mas não recuaram dez passos e o grito agudo de Wells ressoou pelos fones. O soldado acudiu o peito e arcou. Arfava descompassadamente. Verne se aproximou ajudando-o a se levantar enquanto Benedita procurava dar-lhe cobertura.

A escotilha ainda se encontrava distante e mais e mais soldados vhannyres surgiam sobre o casco do destróier. Vários até mesmo já começavam a subir na carcaça do cargueiro. A chuva de disparos era intermitente. Benedita olhou para o detonador em seu pulso e conjeturou detoná-lo. As chances de saírem ilesos daquele tiroteio eram nulas.

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Assim que o Anhanguera recebeu o informe de Julian, ele despachou todos os caças do esquadrão Vingador para o local, ordenando-lhes que criassem uma zona de exclusão aérea em torno das astronaves. A ordem foi prontamente atendida e agora todos mantinham uma posição satélite, numa distância fora do alcance das baterias antiaéreas do destróier, enquanto esperavam a chegada da nave que efetuaria o resgate da capitã.

Pilotos espaciais eram homens de ação e nada os frustrava mais que a espera. E eles começavam a ficar ansiosos, apesar do silêncio do rádio, reclamações eram perfeitamente ouvidas. Julian entendia seus companheiros e, como eles, gostaria de fazer aquele destróier ir pelos ares. Mas, assim como eles, sabia que se fizessem isso destruiriam o cargueiro no processo, matando centenas de inocentes.

Julian deu de ombros; não que se importasse com uns alienígenas maltrapilhos, mas a capitã e os homens do sargento Ferrantti estavam a bordo. E eles importavam para ele.

– Tenente, o que está acontecendo lá...

As palavras de um dos pilotos da primeira esquadrilha tiraram-no da letargia, fazendo-o olhar para as naves; dezenas de raios de luz surgiam e desapareciam perto da área onde o destróier mantinha sua ligação com o cargueiro.

Intrigado, ativou sua câmera externa em resolução máxima e focalizou-a na área. Então, viu os três seres se movimentando numa seção do casco retribuindo os disparos que vinham do destróier vhannyr. Dois eram quase indistinguíveis, porque seus trajes possuíam a mesma cor do que o cargueiro, mas um terceiro era branco, e se destacava como uma mancha de chocolate sobre um vestido de noiva.

– Capitã! – Murmurou.

Um sentimento de urgência tomou conta do piloto e, mesmo sem saber exatamente por que, mergulhou seu caça na direção dos vhannyres e disparou as metralhadoras anti-pessoal das asas. Diversos soldados tiveram seus corpos perfurados antes mesmo de saberem de onde vinham os disparos. Os sobreviventes revidaram disparando seus lasers contra o caça terrestre.

Assim que seu caça abandonou o rasante sobre o cargueiro, as baterias antiaéreas vhannyres entraram em ação. O caça de Julian executou uma dança de morte até que alcançou a altitude que o deixava fora do alcance das armas.

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– Um caça! – Verne gritou assim que o caça passou sobre eles vomitando suas metralhadoras lasers sobre os atacantes.

– Está criando uma distração! Vamos aproveitar!

Afastaram-se até uma distância que achavam segura. Verne retirou um gancho preso em uma fina corda de aço de seu cinto e prendeu-o o melhor que pode numa saliência. Prenderam o inconsciente Wells nele e deitaram-se rentes ao casco. Suas mãos seguravam fortemente a corda, ao mesmo tempo em que ativavam os imãs eletromagnéticos ao máximo.

Benedita apertou o botão do detonador.

Primeiramente, o casco vibrou com a detonação silenciosa. Depois, um turbilhão de ar e chamas lançou-se sobre os fuzileiros e sua capitã, ameaçando jogá-los no espaço cósmico. A pressão da descompressão era tamanha que, por mais de uma vez, Benedita pensou que não conseguiria manter-se firme, presa à corda de aço.

Tão rápido como a fúria da descompressão começou, ela acabou. Ao fim de tudo, eles haviam conseguido separar o cargueiro de seu parasita. Ela não pode deixar de notar que vários soldados vhannyres flutuavam, pegos desprevenidos pela explosão, sem vida. De seus corpos um filete de ar esbranquiçado se despregava, fruto dos disparos certeiros de Verne. Benedita observou a pistola laser em sua mão e admirou-o por ter tido a habilidade para abater os inimigos durante aquele caos.

– Nosso trabalho acabou. – Benedita disse ao mesmo tempo em que ajudava Verne a carregar o corpo de Wells.

Neste instante, o casco voltou a vibrar, fazendo-os trocarem olhares de surpresa. Olharam em volta. E Verne apontou para um dos bocais dos foguetes de manobras do cargueiro; a nave phrianmoense estava se afastando do destróier vhannyr.

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Na ponte do cargueiro não havia ficado quase ninguém, todos estavam participando do esforço de deter a abordagem vhannyr. Apenas um operador de rádio, o oficial de radar e um timoneiro permaneciam no local. Em prontidão para qualquer eventualidade.

No momento, estavam observando a investida do caça terrestre contra o destróier e se perguntavam se o piloto estava louco. Se destruísse o destróier com certeza destruiria o cargueiro, matando a todos.

Apesar de seus receios, os oficiais apenas puderam observar e presenciar vários clarões de explosões, inclusive um bem próximo à nave. Uma luz acendeu-se num painel e o timoneiro olhou-o perplexo:

– O duto de atracação foi destruído! Estamos livres da nave vhannyr!!

– O que está esperando, então, homem? - Gritou o radialista. – Afaste-nos deles!

Esquecendo-se que eles não tinham autoridade para mover a nave, o timoneiro ativou os retropropulsores de manobra e o cargueiro começou a recuar, aumentando a distância entre eles.

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Após várias manobras que o livraram de ser abatido pelas baterias do destróier, Julian retornou para sua posição de espera quando observou a explosão; um clarão que envolveu todo o duto de atracagem, rompendo-o e separando as naves de sua união forçada.

Ele obrigou o caça a fazer uma volta para melhor visualizar a destruição, e percebeu que o cargueiro se movia, aumentando a distância entre ele e a belonave. Era a deixa que precisava.

– Klaus! Jhansen! – Chamou seus alas e puxou o manche. – Vamos cortar as asas deste ganso!

Os três Vingadores mergulharam num vôo picado e dispararam vários mísseis no intuito de danificarem a embarcação inimiga. Dois mísseis foram destruídos pelas baterias de defesa, mas os outros atingiram os motores, aparentemente incapacitando-os: rolos de fumaça saiam dos mesmos.

O tenente-aviador olhou satisfeito para o resultado de seu ataque e, após confirmar que o cargueiro se afastava mais e mais, distribuiu ordens para o resto do esquadrão. Era hora de terminarem o que haviam começado.

Cinco caças abandonaram suas órbitas e iniciaram outro mergulho, eram como aves de rapina, sedentas pelo sangue de sua presa. No momento ideal, descarregaram seus mísseis, acertando os pontos mais vulneráveis da belonave fazendo-a ribombar com várias explosões antes de desaparecer numa esfera de gás e destroços.

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Neyffe sentiu o cargueiro tremer e ouviu o som da explosão logo em seguida. Uma lufada de ar tomou conta do depósito; primeiro sinal de que a nave estava sofrendo uma descompressão. Tudo o que não estava firmemente preso ao solo começava a ser arrastado em direção aos soldados vhannyres que entraram em pânico.

– Não parem! – Ferrantti gritou, ao perceber que o pânico ameaçava contaminar os defensores. – Temos que aproveitar que estão distraídos!

Obedecendo a convocação do sargento terrestre, todos voltaram a seus postos e uma saraivada de lasers derrubou vários vhannyres, relembrando-os de que não podiam dar as costas ao inimigo.

Neste instante, o major já não sentia o ar se movimentando. Primeiro sinal que o sistema automático da nave fora ativado, evitando assim a descompressão e possível ruptura de casco. Voltou-se para o sargento.

– Ela conseguiu!

– Nunca duvidei, major.

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A comporta se abriu e Benedita entrou, ajudando Verne com o desfalecido Wells. O soldado foi rapidamente deixado aos cuidados do médico de bordo. Assim que o soldado ferido desapareceu no corredor, eles foram cercados por seus companheiros.

– Meus parabéns, capitã. – Ferrantti estendeu-lhe a mão.

Ela apertou-a, sorrindo de satisfação. – Não conseguiria sem a ajuda de Wells e Verne, sargento. O senhor tem excelentes homens sob seu comando.

E voltando-se para Neyffe, estreitou os olhos matreiros – Bom... acho que agora já posso saber o que tem de tão valioso nesta nave, para os vhannyres se darem a este trabalho.

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– Perdemos contato com a Gürtedring! – Alguém informou.

– Em sua última mensagem, eles informaram que estavam sofrendo ataque de caças terrestres. – Ipörn aproximou-se do general. – É justo supor que os terráqueos tenham encontrado uma maneira de destruí-lo sem danificar o cargueiro. O capitão Gortzern foi vítima de seu próprio descuido!

– Que toda a frota prepare-se para partir! – Vorgrn ordenou após um momento de reflexão.

– O senhor entende, general, que se entrarmos em confronto direto contra as unidades terráqueas estaremos violando o tratado firmado entre Vhannyr e a Terra!

– Nossa missão é muito mais importante que qualquer tratado firmado com os bárbaros, coronel! Do sucesso dela depende a sobrevivência do próprio império! Além do que, se não fosse a morte de nosso imperador e a desordem subjacente, teríamos agregados estes bárbaros a nosso glorioso império...

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– Tem certeza, senhor? – O capitão do cargueiro exprimiu seu receio.

O major apenas acenou positivamente com a cabeça. Dugall também não concordaria com sua decisão, mas ele devia a aquelas pessoas. E elas queriam uma explicação que ele poderia dar, mesmo arriscando sua segurança.

– Eles estão em busca de um membro da família real vhannyr. – Ele respondeu a pergunta que lhe fora feita minutos antes.

Benedita e Ferrantti entreolharam-se, incrédulos.

– O império vhannyr tentou durante dez anos conquistar o Sistema Solar, mas, após uma batalha violenta onde a maioria das naves terráqueas foi destruída, eles resolvem negociar. E mais, abdicam de qualquer pretensão sobre os planetas solares e sistemas adjacentes. Vocês já se perguntaram do porquê desta mudança de atitude?

– Ora, nós os escorraçamos em Saturno! – Ferrantti respondeu sem pensar.

– Não, sargento! Ele está certo! Depois de dez anos de conflito, nossas indústrias estão próximas do colapso. Muitas das metrópoles estão em ruínas irrecuperáveis por causa dos bombardeios nucleares. Nosso povo está passando fome e as pestes se alastram, dizimando os velhos e os jovens.

– Saturno pode ter sido uma batalha violenta, onde as duas forças perderam mais da metade de suas astronaves. Mas quem perdeu foi a Terra, pois, se a Marinha perdeu sessenta por cento de suas forças, a Frota Vhannyr não deve ter perdido mais do que a vigésima parte de sua força de ataque. O Império é gigantesco; alguns de nossos especialistas dizem que ele controla dez por cento da galáxia.

Benedita fitou o phrianmoense – Depois daquela batalha, eles poderiam avançar sobre nós, mas não o fizeram! E por que não fizeram, major?

– Há aproximadamente sete meses, o imperador morreu sem herdeiro. Imediatamente, a disputa pelo trono começou. Pretendentes surgiram de todos os lados e o caos ameaçava tomar conta do Império. Negociações entre os pretendentes foram iniciadas, mas surtiram pouco resultado. Temendo a guerra civil, o conselho de nobres decidiu convocar todas as frotas para manterem a segurança interna.

– Quer dizer que a guerra acabou somente porque os vhannyres tinham coisas mais urgentes a fazer?

– Exato, sargento! Todas as campanhas militares foram suspensas até que o trono esteja novamente ocupado.

– Mas onde você e este comboio entram nesta história?

– Acontece que o Conselho estava enganado ao proclamar que o imperador não tinha deixado herdeiros. Quando a notícia da morte do monarca chegou aos ouvidos do duque de Phrianmo, este despachou um comunicado ao planeta capital. O conteúdo do comunicado era claro em afirmar que existia um descendente do imperador, fruto de uma das várias estadas deste em Phrianmo, e que ele vivia em sua corte.

– Obviamente, muitos não gostaram de saber da notícia.

Neyffe apenas concordou com um aceno de cabeça.

– E onde os colonos entram nesta história?

– São uns pobres coitados que foram pegos no fogo cruzado. Como um dos comandantes das Forças de Defesa de Phrianmo, eu e minha esquadra escoltávamos um comboio de colonização quando recebi a notícia exigindo meu retorno ao planeta capital. Infelizmente, quase no mesmo instante, fomos emboscados por uma esquadra vhannyr rebelde.

– Impossibilitado de seguir na direção da colônia, decidi retornar a Phrianmo. Infelizmente, nosso retorno tem sido dificultado pelos constantes ataques...

– A Sol de Phrianmo e três naves solares saíram de um salto. – Os auto-falantes interromperam o major.

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