BATALHA NO ESPAÇO

QUARTA PARTE

O capitão LeMel foi o primeiro a agir após o salto do cargueiro. Sem esperar a ordem do Anhanguera, o Hiei acionou seus canhões e um destróier vhannyr vaporizou-se ao ser atingido pelos disparos certeiros.

A salva do destróier serviu como gatilho; os cruzadores terrestres e suas contrapartes phrianmoenses, apoiados pelas baterias do Anhanguera e da Sol de Phrianmo, descarregaram seus canhões sobre as desprevenidas belonaves vhannyres.

Pegas de surpresa, pois ainda corrigiam suas órbitas, as naves foram destroçadas e desapareceram como efêmeros sóis que iluminaram a noite de Plutão por um instante.

– Ponha-me em contato com a Sol de Phrianmo. – Ivan ordenou assim que a última nave vhannyr desaparecera numa nuvem de gás e poeira.

– Creio que estamos num dilema, sr. Moraes. – Dugall indagou, logo após as apresentações de praxe. – Temos que procurar aquele cargueiro, e resgatar nossos comandantes, mas não podemos deixar o comboio desprotegido...

– Nossos caças iniciarão uma busca, coronel. – enquanto Ivan falava os caças espaciais do Anhanguera passavam diante da torre de comando.

– E, quanto ao comboio... – O oficial-científico fitou seu interlocutor, após uma pausa.

– O senhor poderia nos responder sobre o fato de estarem sendo perseguidos pelos vhannyres?

Se a imagem permitisse, os oficiais do couraçado terrestre veriam as gotas de suor que se formaram na testa do phrianmoense.

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Benedita foi uma das primeiras a se recuperar dos efeitos do salto e seu primeiro ato foi olhar pelas escotilhas; aquele fora um salto precipitado e temia ter ido parar em algum lugar desconhecido, mas a presença de constelações conhecidas e o brilho incessante de uma distante estrela amarela tranqüilizaram-na.

– Envie uma mensagem para a Sol de... – A voz de comando de Neyffe, já restabelecido do salto, chamou-lhe a atenção.

– Não!!! – Ela gritou, interrompendo a ordem do major e atraindo todos os olhares da ponte para si. – Se fizer isso, major, atrairá os inimigos para cá! – Mas como saberão onde estamos...

– Eles terão que descobrir sozinhos... – Ela fitou-o com o mesmo olhar que usara antes de saltarem. – A nós cabe apenas resistirmos até sermos encontrados.

A capitã lançou um olhar sobre o destróier acoplado ao cargueiro e abandonou a ponte com a intenção de se juntar a seus homens que tentavam barrar a abordagem vhannyr.

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– Sete naves destruídas! Sete naves destruídas! – O general Vorgrn esbravejou revoltado ao receber os dados da nave de vigilância que monitorava as naves terrestres e phrianmoenses.

– Parece que subestimamos as unidades terráqueas. – O coronel Ipörn tentou apaziguar o ânimo de seu superior.

– Sim, coronel! As subestimamos agora como as subestimamos seis meses atrás na batalha do sexto planeta! Mas não acontecerá novamente; envie os caças, precisamos encontrar aquele cargueiro antes dos terráqueos!

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Após correr por alguns corredores, abrir caminho entre civis desesperados, e passar por várias barricadas, Benedita chegou a uma bifurcação onde podia contemplar o local da batalha. O som, dos disparos laser, era ensurdecedor. O ar estava pesado cheirando a carne queimada, o que lhe causava náuseas.

Num dos corredores de acesso aos compartimentos de carga, os defensores haviam levantado uma barricada com colchões e alguns móveis velhos e seguravam o avanço dos soldados inimigos.

Ela sacou a arma e avançou alguns passos, efetuando vários disparos, antes de se jogar ao solo e se arrastar até onde estavam os fuzileiros terrestres.

– Seja bem-vinda ao inferno, capitã. – Ferrantti cumprimentou-a, irônico.

– Qual é a situação, sargento?

– Já tivemos que recuar cinco metros e não sei por quanto tempo poderemos manter esta posição, senhora! – O soldado expôs. – Temos sorte de não terem, ainda, aparecido com nenhuma arma anti-pessoal...

– Temos que agüentar até nosso pessoal chegar, Lino. – Ela disse-lhe num tom casual.

– Faremos o possível, capitã. Desde que não demorem muito!

Ele levantou-se, disparou duas vezes com o rifle e voltou a se proteger atrás da barricada.

– Se ao menos pudéssemos impedir que eles recebessem reforços da nave...

Benedita ouviu o resmungo do sargento e permaneceu quieta. Os disparos vhannyres zuniam, aquecendo o ar sobre sua cabeça. Seus olhos passearam pelo corredor a sua frente e pousaram sobre uma saliência, que indicava uma porta hermeticamente fechada a dez metros dali.

– Quero dois homens aptos para caminhada extra-veicular, mais alguns explosivos e detonadores! – Disse após alguns minutos.

Ferrantti olhou espantado para ela.

– Que foi, homem? Não quer que os impeçamos de receber reforços? Pois farei isso. Rápido!

Um brilho de compreensão passou pelos olhos do líder dos fuzileiros.

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O caça do tenente-aviador Julian Sollo deslizava pelo éter espacial como uma pluma sobre um lago. Seus olhos mantinham-se fixos nos instrumentos de detecção. Pessoalmente, ele achava que procurar o cargueiro desaparecido daquele jeito era como procurar uma agulha num palheiro; a nave phrianmoense poderia estar em qualquer lugar do Sistema Solar.

Por um instante, seus olhos passearam pela paisagem; as estrelas brilhavam ao longe e o disco de Plutão havia desaparecido no breu cósmico. Ele vasculhava o limite do sistema solar, abrindo círculos cada vez mais amplos em direção ao espaço externo; não havia nada naquele lugar a não ser um ou outro asteróide fugitivo da nuvem de Oerth, rastreara muitos deles durante aquela busca.

E, esperando que fosse mais um meteoro, se voltou para seu radar que bipava indicando a detecção de um objeto que acabava de entrar em seu raio de alcance. Puxou o manche e a aeronave mudou seu curso, indo na direção do sinal. Mesmo esperando encontrar mais uma daquelas rochas errantes, sua obrigação era checar todo e qualquer sinal.

Então, qual não foi sua surpresa ao ver crescer em sua tela a imagem das duas naves desaparecidas; como a rêmora fazia com o tubarão, o destróier estava ligado ao cargueiro. Só que neste caso a rêmora era a predadora.

A euforia do jovem piloto terráqueo foi tanta que um novo bip, que durou segundos em seu radar, foi completamente ignorado.

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Neyffe estava encoberto por um amontoado de sacas de 'farinha', a alguns metros atrás de onde Juliana e seus homens estavam. Em condições normais, ele poderia ouvir perfeitamente a conversa que ela estava tendo com seu sargento, mas o zumbido dos disparos e o resvalar dos lasers em sua proteção exigia que se preocupasse mais com sua sobrevivência que com o que se passava na trincheira à frente.

Mesmo assim, vez por outra, ele lançava olhares para a terráquea, enfiada entre os soldados terrestres. Seu corpo curvilíneo destoava dos corpos musculosos dos homens. Era quase uma imagem irreal em meio aquele caos.

Enquanto olhava, Benedita foi acercada por dois soldados que, junto com o sargento, fecharam-na num circulo. Percebeu suas mãos se tocando e algo foi distribuído. Ela sorriu. Um sorriso confiante e temerário que fez Neyffe sentir um calafrio, e começou a se afastar da barricada vindo em sua direção, seguida pelos soldados.

– Aonde vai, capitã? – Ele perguntou assim que ela chegou onde estava e se aprumou, protegendo-se junto a ele.

– Ver se marco um gol pro time da casa... – Disse, abafando sua voz com disparos de pistola e assim cobrindo a chegada de seus homens.

– Wells? Verne? Se apressem! Sargento, precisamos daquele apoio agora! – Gritou pelo comunicador instalado no capacete. Imediatamente, todos os homens, soldados terráqueos, guardas phrianmoenses e civis, que se encontravam na trincheira começaram a disparar furiosamente; impedindo que os vhannyres revidassem, os dois fuzileiros se levantaram e passaram por eles indo em direção a porta, localizada cinco metros atrás de suas posições. Abriram-na e sinalizaram para Benedita.

– É isso! Até breve, major. – Disse e desabalou a correr na direção da porta desaparecendo atrás da mesma. Um baque seco foi ouvido quando ela se fechou.

Só então Neyffe descobrira o plano de Benedita. Ele sabia o que havia atrás daquela porta; uma câmara de descompressão que dava direto para o espaço exterior.

O phrianmoense sentiu as têmporas umedecerem.

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– Que você acha, Ivan? – Hassan inquiriu seu colega.

Eles tinham acabado de ouvir, por parte do coronel Dugall, as razões de estarem sendo perseguidos pelas unidades vhannyres. E após o fim do contato com o phrianmoense, agora se entregavam às deliberações. Os oficiais do Anhanguera estavam surpresos, apesar da aparente calma.

– Se tudo o que o coronel nos disse for verdade... – Ivan raciocinou. – Explica muita coisa. Principalmente o fato de Vhannyr ter encerrado as hostilidades contra a Terra.

– Pra mim, isso é uma oportunidade sem precedentes de nos vingarmos dos vhannyres pelos dez anos de dor e sofrimento que infringiram as famílias da Terra. - Hassan interveio, recostado em seu assento.

– Esta é sua opinião. – O olhar de Ivan era de censura. – Mas quem decide é a capitã! E por isso devemos encontrá-la o mais urgente possível.

Neste momento, a voz de Julian Sollo ecoou pela ponte – Aqui é Vingador quatro-um-dois; localizei o cargueiro. Aqui é Vingador quatro-um-dois; localizei o cargueiro...

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