BATALHA NO ESPAÇO

SEXTA PARTE

– É bom tê-la de novo a bordo, capitã. – Ivan deu eco aos sentimentos de todos os oficiais ao apertar a mão de Benedita, quando esta entrou na ponte do Anhanguera.

– Também estou feliz por estar de volta, Ivan! – Ela respondeu, sorrindo. - Um capitão nunca deveria se ausentar tanto de sua nave...

Seus olhos correram a ponte, visitando cada oficial, recebendo suas boas-vindas silenciosas e agradecendo com um sorriso, até se encontrarem novamente com os olhos de seu oficial-científico. Neste instante, o sorriso desapareceu de seus lábios.

– Alguma resposta do Comando quanto à solicitação phrianmoense?

– Sim, senhora. O próprio Comandante Mascarenhas entrou em contato, dizendo que o governo está deliberando sobre o pedido e que os cargueiros deveriam permanecer onde estavam até a decisão ser tomada...

– Argumentamos que estamos sobre a ameaça constante de naves vhannyres. E que não tínhamos condições de prover uma defesa eficiente do comboio. Requisitamos o apoio de mais naves. Então, o general fechou os olhos e permaneceu em silêncio por uns segundos...

Benedita conhecia aquela postura do Comandante. Era a postura que usava quando refletia.

– Ao abrir os olhos, ordenou que os cargueiros saltassem para Júpiter, onde estariam sob a proteção da base Europa. Então tomei a liberdade de ordenar ao comboio que saltasse. – Ivan concluiu.

– Fez bem! Agora é a nossa vez! Quanto menos permanecermos aqui, será melhor! Storino; execute um aviso geral de salto. Todas as naves devem saltar em direção à órbita de Júpiter...

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– Comunicação da nau-capitânea solar; é um alerta geral de salto, sir. Devemos nos preparar para um salto imediato para o quinto planeta do sistema! - O operador de rádio informou.

Dugall voltou-se na direção do major. – A terráquea está com pressa...

– A capitã Benedita não quer se arriscar permanecendo num local onde suas naves estariam vulneráveis...

– Parece-me que passaste a admirar esta mulher!

Sim. Ele a admirava.

Neyffe entrara para a caserna apenas por obrigação, era o que se esperava dos membros da família real phrianmoense. Sendo quem era, foi simples chegar ao posto de major, sem necessitar abandonar os salões e a companhia das damas.

Infelizmente, a vida de militar obrigava-o a se ausentar daquela vida que tanto gostava como quando foi indicado para escoltar o comboio de colonização. Missões que ele detestava e cumpria com enfado. Tudo o que queria era passar o comando o mais rápido possível e voltar aos salões.

Mas o destino não quis assim e de repente ele se viu como o único herdeiro de um dos maiores impérios da galáxia. E quase imediatamente tornou-se alvo de uma caçada galáctica e o tutor de milhares de pessoas que dependiam de sua liderança para continuarem a viver.

Mas Neyffe não queria nada disto. Ele amava demais a vida boemia e irresponsável que levara até então. Desejava voltar para ela o mais rápido possível.

Pelo menos, era assim que pensava até se encontrar com a capitã terráquea. Provavelmente, ela seria somente dois anos mais velha que ele e, quando a viu pela primeira, vez somente imaginou como Benedita ficaria linda caminhando nos salões de Phrianmo, mas era totalmente diferente. Ao contrário dele, a terrestre parecia estar em seu meio e a cada decisão que tomava e cada vitória alcançada seus olhos brilhavam de orgulho e satisfação.

– Estamos prontos para...não!!! Espere!! – O espanto tomou lugar no tom monótono da voz do oficial. – Duas formações de caças estão se aproximando...

Neyffe e Dugall olharam para a tela de vídeo principal e as imagens de dois esquadrões de caças vhannyres se tornaram visíveis. O major se maldisse por ter sido estúpido ao achar que os perseguidores iriam deixá-los escapar tão facilmente. – A quantas estamos para o salto?

– Estamos prontos, sir, assim como as naves solares, mas o cargueiro informa que detectou problemas nos capacitores! Levará de dez a vinte minutos para o reparo...

Cinco a dez minutos. Era muito tempo, dentro deste tempo os caças os alcançariam e seriam alvos fáceis...

– As naves solares estão abortando o salto! O Anhanguera está lançando seus caças.

Pela imagem do painel principal, que havia mudado, os oficiais phrianmoenses podiam ver os caças terrestres sobrevoarem as belonaves e irem de encontro com suas contrapartes.

E, a cada minuto, ele admirava-a mais e mais.

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Dentro de segundos, eles estariam sob a segurança que a Base Europa poderia oferecer, Benedita pensava. Todas as belonaves já se encontravam aptas para a reversão. Faltando apenas o cargueiro, possuidor de um motor menos avançado e lento, alcançar os níveis de energia necessária.

Infelizmente não havia mais tempo.

Mal formulara seu pensamento e o radar detectou as formações de caças inimigos. Neste instante, ela sentiu todos os olhares da ponte sobre si.

– Nossa prioridade é proteger as naves phrianmoenses até que saltem! – Disse, ordenando. – Cancelar ordem geral de salto. Que todas as naves preparem-se para a batalha...

Imediatamente, o som das sereias de alarma ecoou pelos corredores do encouraçado e sua tripulação apressou-se em apresentar-se aos seus postos. As mesmas cenas ocorriam em todas as astronaves terráqueas.

– Lançar caças! Storino: diga a Sol de Phrianmo que salte assim que o cargueiro estiver preparado...

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– Comunicado do Anhanguera: assim que estivermos prontos devemos saltar...

Dugall voltou sua atenção para o major.

Neyffe mantinha-se impassível, seus olhos fixos na janela.

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Não demorou para que os caças espaciais terrestres se encontrassem com suas contrapartes alienígenas. E como dois exércitos medievais eles se chocaram, e o negro estelar encheu-se de disparos e esferas de fogo bruxuleante.

Após este encontro, as formações se abriram e o combate mano-a-mano começou. Seria num dogfigthing, tão antigo quanto a própria guerra aérea, onde as habilidades de cada piloto seriam testadas, que o combate seria decidido.

Um Vingador precipitou-se sobre dois inimigos, trazendo-lhes a destruição através de seus mísseis. A caça atravessou as esferas de chamas, típicas da gravidade zero, e seus canhões dispararam na tentativa de alcançar uma nova vítima.

Ao mesmo tempo, um piloto vhannyr movia os controles de sua nave, numa tentativa de sair de um encaudamento terráqueo e quando tudo parecia perdido seu perseguidor esfacelou-se após ser atingido, repetidas vezes, por disparos vindo de um caça amigo. O aviador suspirou aliviado e cumprimentou seu salvador assim que seu caça emparelhou-se com o seu, antes de voltar-se à caça de mais um caça terráqueo.

Se a batalha parecia estar equilibrada, era porque os pilotos terráqueos eram mais experientes, sendo que muitos eram veteranos da Batalha de Saturno. Infelizmente, tal equilíbrio não duraria, pois a superioridade numérica vhannyr aumentava a cada Vingador abatido.

Mas, se nos primeiros minutos esta superioridade numérica fazia alguma diferença, nos seguintes já não existia. Pois os caças espaciais haviam entrado no alcance das baterias antiaéreas das belonaves terrestres e da Sol de Phrianmo.

O sistema de identificação amigo-inimigo das naves da Terra possibilitava que as baterias disparassem incessantemente sem o perigo de atingirem seus próprios caças. E elas vomitavam suas torrentes de laser mortais, transformando todo aquele que se esquecesse de sua presença numa esfera de gás e destroços.

Encurralados entre os Vingadores e as belonaves, os vhannyres perderam a iniciativa passando para a defensiva até a retirada inevitável.

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A capitã ordenou que os Vingadores não perseguissem as naves que se retiravam e permaneceu observando a tela enquanto as silhuetas dos caças inimigos mesclavam-se com o fundo estelar.

– Recolha os Vingadores! – Ordenou.

Se as naves vhannyres haviam sofrido muitas baixas, os Vingadores também tiveram sua cota; mais de sessenta por cento do esquadrão tinha sido posto fora de combate. O que restara não seria suficiente para oferecer uma cobertura aérea adequada, então não havia sentido sacrificá-los.

– Frota inimiga localizada a 80.000 km e avançando! – O oficial de radar anunciou.

Todos se voltaram para a tela principal onde a imagem da frota vhannyr se mostrava.

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Vorgn havia observado toda a batalha entre os astro-caças e, apesar da derrota sofrida por suas forças, mantinha um leve sorriso no canto da boca. Há muito tempo ele não presenciava uma luta tão ferrenha entre forças aeroespaciais. O bloqueio inimigo foi tão eficaz que poucos caças chegaram a ameaçar as naves inimigas.

Os caças terráqueos sofreram severas baixas e provavelmente não voariam mais, mas seus pilotos fizeram valer a fama que tinham.

Agora, ele se perguntava o que eles poderiam fazer contra uma esquadra inteira.

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– São cerca de sessenta espaçonaves, capitã! – O radarista olhava fixamente a tela enquanto as classificações das naves inimigas iam passando.

Benedita, que até então estava atenta a seus visores instalados em torno do assento do capitão, levantou o olhar e franziu a testa.

A situação começava a se complicar. A frota vhannyr ainda se encontrava longe o suficiente para permitir-lhes um salto. Todas a naves estavam com seus capacitores carregados e prontos para o salto.

Infelizmente, havia uma exceção; o cargueiro que tinha detectado problemas em seus capacitores e por isso mesmo estava impedido de saltar até os reparos estarem completos.

Ia contra todos seus princípios deixar dois mil inocentes para trás, somente para salvar sua pele. Infelizmente, não conseguia pensar em muitas opções e não tinha tempo.

– Contate os outros capitães.

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A Sol de Phrianmo mantinha-se impassível, servindo de escudo ao cargueiro, e observava atentamente o avanço da armada vhannyr. Quando a formação inimiga imergiu do hiperespaço, Neyffe teve a certeza de que estava se encaminhando para a batalha final.

– Recebendo comunicação do Anhanguera. – O oficial de rádio informou.

Imediatamente, a imagem da capitã surgiu na tela principal – Escute, major, esteja preparado para saltar assim que o cargueiro estiver pronto! Enquanto isso, lhes forneceremos a proteção necessária!

– Não posso permitir isso, capitã! A Sol de Phrianmo está capacitada para o combate e...

– Esqueça isso! Agora vocês estão sob proteção da Terra! Apenas faça o que lhe ordeno! Benedita desligando!

A tela voltou a seu estado inerte.

Neyffe voltou sua atenção para a esquadra inimiga.

Benedita dissera que eles dariam cobertura à Sol de Phrianmo e ao cargueiro até que estes saltassem, mas ele tinha certeza que apenas três naves não conseguiriam conter o avanço das unidades vhannyres.

Os vhannyres se valeriam de sua superioridade numérica para obter a vitória e o único meio disto não acontecer era executando uma manobra totalmente inesperada.

– As naves da Terra acabam de saltar! - O operador de radar gritou espantado.

– Uma vez, um grande estrategista militar disse que a melhor defesa é o ataque! – disse, mais para si do que para seus oficiais.

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A frota vhannyr avançava decidida.

Seus capitães estavam eufóricos por estarem novamente em movimento, indo de encontro a um objetivo definido.

Então, algo aconteceu.

Os alarmes de salto estremeceram as pontes de todas as belonaves. No centro da frota, os níveis de táquions cresciam vertiginosamente e diversas imagens fantasmagóricas começaram a se formar; a assinatura inequívoca de que diversas naves estavam saindo de um salto, numa manobra suicida, bem no centro da armada.

Num ato de autopreservação, as naves se afastaram, dando passagem para os intrusos. Infelizmente, tal ato fez com que várias embarcações se chocassem, instaurando o caos.

Um caos que aumentou quando as silhuetas dos fantasmas tomaram forma e solidez, revelando-se assim os reluzentes cascos azul-perolados das belonaves terráqueas.

A surpresa tomou conta de todas as pontes.

Surpresa que se converteu em pavor no minuto seguinte, quando as temerárias naves terrestres descarregaram todos seus torpedos e mísseis sobre suas contrapartes vhannyres.

A morte e a destruição vieram se juntar ao caos.

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Apesar da distância, as luzes das explosões iluminaram a ponte do Sol de Phrianmo. E suas câmeras de longo alcance exibiam as cenas da destruição perpetrada pelas naves terráqueas na tela principal.

Neyffe permanecia impassível, observando-as.

Apesar do sucesso inicial daquela manobra suicida, Benedita devia estar ciente que a surpresa se esgotara no momento em que a executara. Oculta pelo brilho ofuscante das explosões e pelos destroços das inúmeras vitimas dos mísseis terráqueos, que deixava todos os sensores de longo alcance fora do ar, estava o restante da esquadra vhannyr.

E, como que para validar os pressentimentos do phrianmoense, as câmeras mostraram o céu encher-se de pontos luminosos. Como uma chuva de lasers, eles se precipitaram sobre as belonaves terráqueas; calcinando seus cascos e anunciando o início da retaliação vhannyr.

– Cargueiro numero um informa que os capacitores estão reparados e recarregados!

Os olhos de Neyffe cruzaram com os de Dogall e ambos exibiam a mesma expressão. Até aquele momento, tinham apenas observado os terráqueos arriscarem-se por eles. Mas agora eles poderiam retribuir o favor.

– Ordene que salte! Que todos estejam preparados para o aviso de salto!

Os olhos de seus oficiais convergiram para ele. Todos se sentiam como ele. Ao tornarem-se meros expectadores, todos se sentiam ofendidos em sua honra guerreira.

– Cargueiro numero um saltou!

Neyffe voltou a olhar para seus oficiais e sorriu.

– Preparar para saltar!

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Apoiando-se nos consoles, Benedita instintivamente olhou para cima; aproveitando a cegueira dos sensores, os couraçados vhannyres procuraram uma órbita superior e de lá descarregaram suas armas.

– Situação?

– Perdemos um terço de nossas baterias de defesa. Sistema automático de reparos ativado! Dois tripulantes foram sugados para o vácuo...

– Hassan! Nossos canhões?

– Remuniciamento completado, senhora!

– Então, o que está esperando?

As torres principais se moveram e os canhões do encouraçado exibiram seu recuo característico quando descarregaram sua carga mortal. Imediatamente, as outras astronaves da frota se juntaram à ação.

As colunas de morte terráqueas avançaram inexoravelmente em direção a seus alvos e cruzaram com a segunda onda de ataque inimiga.

Como dragões enfurecidos, penetraram na fraca blindagem vhannyr, levando a morte e a inexistência a seus tripulantes: três sóis brilharam e desaparecem numa fração de tempo em meio a destroços e radioatividade.

Não houve tempo para comemorações entre as tripulações terrestres, pois a chuva da morte vhannyr caiu novamente sobre elas.

Seus cascos reverberaram ante o impacto dos lasers pesados e mais uma vez suas blindagens resistiram.

Ou não.

O Iroquois estremeceu ao ser transpassado por vários disparos inimigos. Uma de suas baterias principais transformou-se em um monte de plastiaço retorcido. Vários de seus compartimentos externos se romperam, elevando torrentes de fumo negro aos céus, e lançando seus tripulantes para a morte no vácuo.

Benedita observou, com o suor frio escorrendo-lhe pelas têmporas, o caos se instaurar em sua nau subordinada. Um leve tremor percorreu-lhe o corpo. Todo um sentimento de impotência parecia querer apoderar-se de seu coração; mesmo sabendo que eles seguiram-na de livre vontade, isto não diminuía seu senso de responsabilidade por cada homem ou mulher de sua frota.

– Comunicação chegando do Iroquois...

Lançou um olhar pesaroso para o operador de rádio.

– O capitão Shatner informa que sofreu vinte por cento de baixas. Suas armas foram reduzidas a metade, mas... - Storino calou-se.

Em meio ao caos de chamas, aço retorcido e torres de fumaça radioativa, duas colunas de plasma surgiram e avançaram em direção ao inimigo.

– ... ainda continuam no páreo!! - Benedita completou, sorrindo. - Shatner nunca foi de se entregar.

Sim, todos aqueles homens não eram de se entregar, nem ela era de se entregar. Se o fizesse, estaria desonrando a confiança deles.

– Que o Hiei e o Ville de Paris ofereçam cobertura ao Iroquois!

– Níveis taquiônicos se elevando! – O radarista gritou em meio ao estremecimento que sacudiu a ponte após uma nova saraivada do inimigo. – Fim de salto a um quilômetro!

Benedita levantou os olhos a tempo de ver a Sol de Phrianmo se materializando. Soltou um impropério.

– O que você pensa que está fazendo!! – Ela gritou assim que o rosto do major surgiu na tela do Anhanguera.

– Vim apenas avisar que o cargueiro já está em segurança! – Ele procurou sorrir.

– Então não temos mais nada para fazer aqui! – Ela retribuiu o sorriso. – Todas as unidades! Avançar!

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