BATALHA NO ESPAÇO

SEXTA PARTE

– É bom tê-la de novo a bordo, capitã. – Ivan deu eco aos sentimentos de todos os oficiais ao apertar a mão de Benedita, quando esta entrou na ponte do Anhanguera.

– Também estou feliz por estar de volta, Ivan! – Ela respondeu, sorrindo. - Um capitão nunca deveria se ausentar tanto de sua nave...

Seus olhos correram a ponte, visitando cada oficial, recebendo suas boas-vindas silenciosas e agradecendo com um sorriso, até se encontrarem novamente com os olhos de seu oficial-científico. Neste instante, o sorriso desapareceu de seus lábios.

– Alguma resposta do Comando quanto à solicitação phrianmoense?

– Sim, senhora. O próprio Comandante Mascarenhas entrou em contato, dizendo que o governo está deliberando sobre o pedido e que os cargueiros deveriam permanecer onde estavam até a decisão ser tomada...

– Argumentamos que estamos sobre a ameaça constante de naves vhannyres. E que não tínhamos condições de prover uma defesa eficiente do comboio. Requisitamos o apoio de mais naves. Então, o general fechou os olhos e permaneceu em silêncio por uns segundos...

Benedita conhecia aquela postura do Comandante. Era a postura que usava quando refletia.

– Ao abrir os olhos, ordenou que os cargueiros saltassem para Júpiter, onde estariam sob a proteção da base Europa. Então tomei a liberdade de ordenar ao comboio que saltasse. – Ivan concluiu.

– Fez bem! Agora é a nossa vez! Quanto menos permanecermos aqui, será melhor! Storino; execute um aviso geral de salto. Todas as naves devem saltar em direção à órbita de Júpiter...

****************

– Comunicação da nau-capitânea solar; é um alerta geral de salto, sir. Devemos nos preparar para um salto imediato para o quinto planeta do sistema! - O operador de rádio informou.

Dugall voltou-se na direção do major. – A terráquea está com pressa...

– A capitã Benedita não quer se arriscar permanecendo num local onde suas naves estariam vulneráveis...

– Parece-me que passaste a admirar esta mulher!

Sim. Ele a admirava.

Neyffe entrara para a caserna apenas por obrigação, era o que se esperava dos membros da família real phrianmoense. Sendo quem era, foi simples chegar ao posto de major, sem necessitar abandonar os salões e a companhia das damas.

Infelizmente, a vida de militar obrigava-o a se ausentar daquela vida que tanto gostava como quando foi indicado para escoltar o comboio de colonização. Missões que ele detestava e cumpria com enfado. Tudo o que queria era passar o comando o mais rápido possível e voltar aos salões.

Mas o destino não quis assim e de repente ele se viu como o único herdeiro de um dos maiores impérios da galáxia. E quase imediatamente tornou-se alvo de uma caçada galáctica e o tutor de milhares de pessoas que dependiam de sua liderança para continuarem a viver.

Mas Neyffe não queria nada disto. Ele amava demais a vida boemia e irresponsável que levara até então. Desejava voltar para ela o mais rápido possível.

Pelo menos, era assim que pensava até se encontrar com a capitã terráquea. Provavelmente, ela seria somente dois anos mais velha que ele e, quando a viu pela primeira, vez somente imaginou como Benedita ficaria linda caminhando nos salões de Phrianmo, mas era totalmente diferente. Ao contrário dele, a terrestre parecia estar em seu meio e a cada decisão que tomava e cada vitória alcançada seus olhos brilhavam de orgulho e satisfação.

– Estamos prontos para...não!!! Espere!! – O espanto tomou lugar no tom monótono da voz do oficial. – Duas formações de caças estão se aproximando...

Neyffe e Dugall olharam para a tela de vídeo principal e as imagens de dois esquadrões de caças vhannyres se tornaram visíveis. O major se maldisse por ter sido estúpido ao achar que os perseguidores iriam deixá-los escapar tão facilmente. – A quantas estamos para o salto?

– Estamos prontos, sir, assim como as naves solares, mas o cargueiro informa que detectou problemas nos capacitores! Levará de dez a vinte minutos para o reparo...

Cinco a dez minutos. Era muito tempo, dentro deste tempo os caças os alcançariam e seriam alvos fáceis...

– As naves solares estão abortando o salto! O Anhanguera está lançando seus caças.

Pela imagem do painel principal, que havia mudado, os oficiais phrianmoenses podiam ver os caças terrestres sobrevoarem as belonaves e irem de encontro com suas contrapartes.

E, a cada minuto, ele admirava-a mais e mais.

********************

Dentro de segundos, eles estariam sob a segurança que a Base Europa poderia oferecer, Benedita pensava. Todas as belonaves já se encontravam aptas para a reversão. Faltando apenas o cargueiro, possuidor de um motor menos avançado e lento, alcançar os níveis de energia necessária.

Infelizmente não havia mais tempo.

Mal formulara seu pensamento e o radar detectou as formações de caças inimigos. Neste instante, ela sentiu todos os olhares da ponte sobre si.

– Nossa prioridade é proteger as naves phrianmoenses até que saltem! – Disse, ordenando. – Cancelar ordem geral de salto. Que todas as naves preparem-se para a batalha...

Imediatamente, o som das sereias de alarma ecoou pelos corredores do encouraçado e sua tripulação apressou-se em apresentar-se aos seus postos. As mesmas cenas ocorriam em todas as astronaves terráqueas.

– Lançar caças! Storino: diga a Sol de Phrianmo que salte assim que o cargueiro estiver preparado...

********************

– Comunicado do Anhanguera: assim que estivermos prontos devemos saltar...

Dugall voltou sua atenção para o major.

Neyffe mantinha-se impassível, seus olhos fixos na janela.

*********************

Não demorou para que os caças espaciais terrestres se encontrassem com suas contrapartes alienígenas. E como dois exércitos medievais eles se chocaram, e o negro estelar encheu-se de disparos e esferas de fogo bruxuleante.

Após este encontro, as formações se abriram e o combate mano-a-mano começou. Seria num dogfigthing, tão antigo quanto a própria guerra aérea, onde as habilidades de cada piloto seriam testadas, que o combate seria decidido.

Um Vingador precipitou-se sobre dois inimigos, trazendo-lhes a destruição através de seus mísseis. A caça atravessou as esferas de chamas, típicas da gravidade zero, e seus canhões dispararam na tentativa de alcançar uma nova vítima.

Ao mesmo tempo, um piloto vhannyr movia os controles de sua nave, numa tentativa de sair de um encaudamento terráqueo e quando tudo parecia perdido seu perseguidor esfacelou-se após ser atingido, repetidas vezes, por disparos vindo de um caça amigo. O aviador suspirou aliviado e cumprimentou seu salvador assim que seu caça emparelhou-se com o seu, antes de voltar-se à caça de mais um caça terráqueo.

Se a batalha parecia estar equilibrada, era porque os pilotos terráqueos eram mais experientes, sendo que muitos eram veteranos da Batalha de Saturno. Infelizmente, tal equilíbrio não duraria, pois a superioridade numérica vhannyr aumentava a cada Vingador abatido.

Mas, se nos primeiros minutos esta superioridade numérica fazia alguma diferença, nos seguintes já não existia. Pois os caças espaciais haviam entrado no alcance das baterias antiaéreas das belonaves terrestres e da Sol de Phrianmo.

O sistema de identificação amigo-inimigo das naves da Terra possibilitava que as baterias disparassem incessantemente sem o perigo de atingirem seus próprios caças. E elas vomitavam suas torrentes de laser mortais, transformando todo aquele que se esquecesse de sua presença numa esfera de gás e destroços.

Encurralados entre os Vingadores e as belonaves, os vhannyres perderam a iniciativa passando para a defensiva até a retirada inevitável.

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A capitã ordenou que os Vingadores não perseguissem as naves que se retiravam e permaneceu observando a tela enquanto as silhuetas dos caças inimigos mesclavam-se com o fundo estelar.

– Recolha os Vingadores! – Ordenou.

Se as naves vhannyres haviam sofrido muitas baixas, os Vingadores também tiveram sua cota; mais de sessenta por cento do esquadrão tinha sido posto fora de combate. O que restara não seria suficiente para oferecer uma cobertura aérea adequada, então não havia sentido sacrificá-los.

– Frota inimiga localizada a 80.000 km e avançando! – O oficial de radar anunciou.

Todos se voltaram para a tela principal onde a imagem da frota vhannyr se mostrava.

******************

Vorgn havia observado toda a batalha entre os astro-caças e, apesar da derrota sofrida por suas forças, mantinha um leve sorriso no canto da boca. Há muito tempo ele não presenciava uma luta tão ferrenha entre forças aeroespaciais. O bloqueio inimigo foi tão eficaz que poucos caças chegaram a ameaçar as naves inimigas.

Os caças terráqueos sofreram severas baixas e provavelmente não voariam mais, mas seus pilotos fizeram valer a fama que tinham.

Agora, ele se perguntava o que eles poderiam fazer contra uma esquadra inteira.

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– São cerca de sessenta espaçonaves, capitã! – O radarista olhava fixamente a tela enquanto as classificações das naves inimigas iam passando.

Benedita, que até então estava atenta a seus visores instalados em torno do assento do capitão, levantou o olhar e franziu a testa.

A situação começava a se complicar. A frota vhannyr ainda se encontrava longe o suficiente para permitir-lhes um salto. Todas a naves estavam com seus capacitores carregados e prontos para o salto.

Infelizmente, havia uma exceção; o cargueiro que tinha detectado problemas em seus capacitores e por isso mesmo estava impedido de saltar até os reparos estarem completos.

Ia contra todos seus princípios deixar dois mil inocentes para trás, somente para salvar sua pele. Infelizmente, não conseguia pensar em muitas opções e não tinha tempo.

– Contate os outros capitães.

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A Sol de Phrianmo mantinha-se impassível, servindo de escudo ao cargueiro, e observava atentamente o avanço da armada vhannyr. Quando a formação inimiga imergiu do hiperespaço, Neyffe teve a certeza de que estava se encaminhando para a batalha final.

– Recebendo comunicação do Anhanguera. – O oficial de rádio informou.

Imediatamente, a imagem da capitã surgiu na tela principal – Escute, major, esteja preparado para saltar assim que o cargueiro estiver pronto! Enquanto isso, lhes forneceremos a proteção necessária!

– Não posso permitir isso, capitã! A Sol de Phrianmo está capacitada para o combate e...

– Esqueça isso! Agora vocês estão sob proteção da Terra! Apenas faça o que lhe ordeno! Benedita desligando!

A tela voltou a seu estado inerte.

Neyffe voltou sua atenção para a esquadra inimiga.

Benedita dissera que eles dariam cobertura à Sol de Phrianmo e ao cargueiro até que estes saltassem, mas ele tinha certeza que apenas três naves não conseguiriam conter o avanço das unidades vhannyres.

Os vhannyres se valeriam de sua superioridade numérica para obter a vitória e o único meio disto não acontecer era executando uma manobra totalmente inesperada.

– As naves da Terra acabam de saltar! - O operador de radar gritou espantado.

– Uma vez, um grande estrategista militar disse que a melhor defesa é o ataque! – disse, mais para si do que para seus oficiais.

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A frota vhannyr avançava decidida.

Seus capitães estavam eufóricos por estarem novamente em movimento, indo de encontro a um objetivo definido.

Então, algo aconteceu.

Os alarmes de salto estremeceram as pontes de todas as belonaves. No centro da frota, os níveis de táquions cresciam vertiginosamente e diversas imagens fantasmagóricas começaram a se formar; a assinatura inequívoca de que diversas naves estavam saindo de um salto, numa manobra suicida, bem no centro da armada.

Num ato de autopreservação, as naves se afastaram, dando passagem para os intrusos. Infelizmente, tal ato fez com que várias embarcações se chocassem, instaurando o caos.

Um caos que aumentou quando as silhuetas dos fantasmas tomaram forma e solidez, revelando-se assim os reluzentes cascos azul-perolados das belonaves terráqueas.

A surpresa tomou conta de todas as pontes.

Surpresa que se converteu em pavor no minuto seguinte, quando as temerárias naves terrestres descarregaram todos seus torpedos e mísseis sobre suas contrapartes vhannyres.

A morte e a destruição vieram se juntar ao caos.

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Apesar da distância, as luzes das explosões iluminaram a ponte do Sol de Phrianmo. E suas câmeras de longo alcance exibiam as cenas da destruição perpetrada pelas naves terráqueas na tela principal.

Neyffe permanecia impassível, observando-as.

Apesar do sucesso inicial daquela manobra suicida, Benedita devia estar ciente que a surpresa se esgotara no momento em que a executara. Oculta pelo brilho ofuscante das explosões e pelos destroços das inúmeras vitimas dos mísseis terráqueos, que deixava todos os sensores de longo alcance fora do ar, estava o restante da esquadra vhannyr.

E, como que para validar os pressentimentos do phrianmoense, as câmeras mostraram o céu encher-se de pontos luminosos. Como uma chuva de lasers, eles se precipitaram sobre as belonaves terráqueas; calcinando seus cascos e anunciando o início da retaliação vhannyr.

– Cargueiro numero um informa que os capacitores estão reparados e recarregados!

Os olhos de Neyffe cruzaram com os de Dogall e ambos exibiam a mesma expressão. Até aquele momento, tinham apenas observado os terráqueos arriscarem-se por eles. Mas agora eles poderiam retribuir o favor.

– Ordene que salte! Que todos estejam preparados para o aviso de salto!

Os olhos de seus oficiais convergiram para ele. Todos se sentiam como ele. Ao tornarem-se meros expectadores, todos se sentiam ofendidos em sua honra guerreira.

– Cargueiro numero um saltou!

Neyffe voltou a olhar para seus oficiais e sorriu.

– Preparar para saltar!

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Apoiando-se nos consoles, Benedita instintivamente olhou para cima; aproveitando a cegueira dos sensores, os couraçados vhannyres procuraram uma órbita superior e de lá descarregaram suas armas.

– Situação?

– Perdemos um terço de nossas baterias de defesa. Sistema automático de reparos ativado! Dois tripulantes foram sugados para o vácuo...

– Hassan! Nossos canhões?

– Remuniciamento completado, senhora!

– Então, o que está esperando?

As torres principais se moveram e os canhões do encouraçado exibiram seu recuo característico quando descarregaram sua carga mortal. Imediatamente, as outras astronaves da frota se juntaram à ação.

As colunas de morte terráqueas avançaram inexoravelmente em direção a seus alvos e cruzaram com a segunda onda de ataque inimiga.

Como dragões enfurecidos, penetraram na fraca blindagem vhannyr, levando a morte e a inexistência a seus tripulantes: três sóis brilharam e desaparecem numa fração de tempo em meio a destroços e radioatividade.

Não houve tempo para comemorações entre as tripulações terrestres, pois a chuva da morte vhannyr caiu novamente sobre elas.

Seus cascos reverberaram ante o impacto dos lasers pesados e mais uma vez suas blindagens resistiram.

Ou não.

O Iroquois estremeceu ao ser transpassado por vários disparos inimigos. Uma de suas baterias principais transformou-se em um monte de plastiaço retorcido. Vários de seus compartimentos externos se romperam, elevando torrentes de fumo negro aos céus, e lançando seus tripulantes para a morte no vácuo.

Benedita observou, com o suor frio escorrendo-lhe pelas têmporas, o caos se instaurar em sua nau subordinada. Um leve tremor percorreu-lhe o corpo. Todo um sentimento de impotência parecia querer apoderar-se de seu coração; mesmo sabendo que eles seguiram-na de livre vontade, isto não diminuía seu senso de responsabilidade por cada homem ou mulher de sua frota.

– Comunicação chegando do Iroquois...

Lançou um olhar pesaroso para o operador de rádio.

– O capitão Shatner informa que sofreu vinte por cento de baixas. Suas armas foram reduzidas a metade, mas... - Storino calou-se.

Em meio ao caos de chamas, aço retorcido e torres de fumaça radioativa, duas colunas de plasma surgiram e avançaram em direção ao inimigo.

– ... ainda continuam no páreo!! - Benedita completou, sorrindo. - Shatner nunca foi de se entregar.

Sim, todos aqueles homens não eram de se entregar, nem ela era de se entregar. Se o fizesse, estaria desonrando a confiança deles.

– Que o Hiei e o Ville de Paris ofereçam cobertura ao Iroquois!

– Níveis taquiônicos se elevando! – O radarista gritou em meio ao estremecimento que sacudiu a ponte após uma nova saraivada do inimigo. – Fim de salto a um quilômetro!

Benedita levantou os olhos a tempo de ver a Sol de Phrianmo se materializando. Soltou um impropério.

– O que você pensa que está fazendo!! – Ela gritou assim que o rosto do major surgiu na tela do Anhanguera.

– Vim apenas avisar que o cargueiro já está em segurança! – Ele procurou sorrir.

– Então não temos mais nada para fazer aqui! – Ela retribuiu o sorriso. – Todas as unidades! Avançar!

O Processo Criativo!

Os Canhões de Marte


As chamas da guerra incendeiam o Sistema Solar. Após sempre estar na defensiva a Terra sentiu-se forte o suficiente para ousar um plano que mudaria a sorte da guerra: libertar Marte. Mas o sucesso do plano dependia da transposição de dois obstáculos: Deimos e Fobos e seus canhões de disrupção iônica. 
Outrora, haviam sido o orgulho do Exercito Marciano, mas agora estavam nas mãos das forças de ocupação. Para a infelicidade dos estrategistas militares terráqueos. Qualquer plano de invasão marciana teria que levar em conta a presença dos canhões e sua eventual neutralização.

E a busca de um meio de neutralizá-los foi o motivo que levou o major Francisco Vinhas a se aventurar nas areias escarlates do planeta vermelho.



Ficha Técnica
Os Canhões de Marte
Autor: Hadrian Marius
Editora: Independente/Clube dos Autores
Formato: 21x14 cm
Encadernação: Brochura c/ orelha
Quantidade de páginas: 70

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BATALHA NO ESPAÇO

QUINTA PARTE

A porta se abriu com um baque seco, revelando o espaço cósmico. Milhões de estrelas brilhavam como jóias na caixinha de uma princesa. Infelizmente os três que saiam da câmara não tinham tempo para contemplar à vista.

Assim que a porta se fechou, isolando-os do lado de fora da nave, Benedita percorreu, com os olhos, o casco do cargueiro até onde estava o destróier vhannyr atracado. Não estavam muito longe do mesmo, cerca de vinte metros, e de onde estavam dava pra ver o duto de atracação. Só teriam que ir até lá implantar os explosivos e...

– Vamos! – Chamou seus companheiros e começaram a caminhar na direção do duto. Era um avanço lento, cada passo era dado com cuidado. Não que fosse difícil fazer uma caminhada externa, pois suas botas eletromagnéticas permitiam que andassem sobre o casco como se estivessem na Terra, desde que os dois pés não perdessem o contato com o metal ao mesmo tempo.

Chegaram ofegantes às bordas do duto. A capitã se aproximou do ponto onde o duto se conectava ao cargueiro e Wells e Verne passaram-lhe as cargas que carregavam. Habilmente ela prendeu as cargas, com fita aderente, e posicionou os detonadores.

– Só espero que dê certo. – Disse, fazendo um sinal para os soldados. Começaram a recuar.

Então veio o primeiro disparo. Logo seguido de outros.

Numa das bordas do destróier surgiram vários soldados que disparavam contra os terráqueos.

Benedita e os soldados revidaram e os lasers iluminaram a escuridão.

– Vamos recuar até a escotilha! – Ela gritou após atingir um vhannyr.

Mas não recuaram dez passos e o grito agudo de Wells ressoou pelos fones. O soldado acudiu o peito e arcou. Arfava descompassadamente. Verne se aproximou ajudando-o a se levantar enquanto Benedita procurava dar-lhe cobertura.

A escotilha ainda se encontrava distante e mais e mais soldados vhannyres surgiam sobre o casco do destróier. Vários até mesmo já começavam a subir na carcaça do cargueiro. A chuva de disparos era intermitente. Benedita olhou para o detonador em seu pulso e conjeturou detoná-lo. As chances de saírem ilesos daquele tiroteio eram nulas.

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Assim que o Anhanguera recebeu o informe de Julian, ele despachou todos os caças do esquadrão Vingador para o local, ordenando-lhes que criassem uma zona de exclusão aérea em torno das astronaves. A ordem foi prontamente atendida e agora todos mantinham uma posição satélite, numa distância fora do alcance das baterias antiaéreas do destróier, enquanto esperavam a chegada da nave que efetuaria o resgate da capitã.

Pilotos espaciais eram homens de ação e nada os frustrava mais que a espera. E eles começavam a ficar ansiosos, apesar do silêncio do rádio, reclamações eram perfeitamente ouvidas. Julian entendia seus companheiros e, como eles, gostaria de fazer aquele destróier ir pelos ares. Mas, assim como eles, sabia que se fizessem isso destruiriam o cargueiro no processo, matando centenas de inocentes.

Julian deu de ombros; não que se importasse com uns alienígenas maltrapilhos, mas a capitã e os homens do sargento Ferrantti estavam a bordo. E eles importavam para ele.

– Tenente, o que está acontecendo lá...

As palavras de um dos pilotos da primeira esquadrilha tiraram-no da letargia, fazendo-o olhar para as naves; dezenas de raios de luz surgiam e desapareciam perto da área onde o destróier mantinha sua ligação com o cargueiro.

Intrigado, ativou sua câmera externa em resolução máxima e focalizou-a na área. Então, viu os três seres se movimentando numa seção do casco retribuindo os disparos que vinham do destróier vhannyr. Dois eram quase indistinguíveis, porque seus trajes possuíam a mesma cor do que o cargueiro, mas um terceiro era branco, e se destacava como uma mancha de chocolate sobre um vestido de noiva.

– Capitã! – Murmurou.

Um sentimento de urgência tomou conta do piloto e, mesmo sem saber exatamente por que, mergulhou seu caça na direção dos vhannyres e disparou as metralhadoras anti-pessoal das asas. Diversos soldados tiveram seus corpos perfurados antes mesmo de saberem de onde vinham os disparos. Os sobreviventes revidaram disparando seus lasers contra o caça terrestre.

Assim que seu caça abandonou o rasante sobre o cargueiro, as baterias antiaéreas vhannyres entraram em ação. O caça de Julian executou uma dança de morte até que alcançou a altitude que o deixava fora do alcance das armas.

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– Um caça! – Verne gritou assim que o caça passou sobre eles vomitando suas metralhadoras lasers sobre os atacantes.

– Está criando uma distração! Vamos aproveitar!

Afastaram-se até uma distância que achavam segura. Verne retirou um gancho preso em uma fina corda de aço de seu cinto e prendeu-o o melhor que pode numa saliência. Prenderam o inconsciente Wells nele e deitaram-se rentes ao casco. Suas mãos seguravam fortemente a corda, ao mesmo tempo em que ativavam os imãs eletromagnéticos ao máximo.

Benedita apertou o botão do detonador.

Primeiramente, o casco vibrou com a detonação silenciosa. Depois, um turbilhão de ar e chamas lançou-se sobre os fuzileiros e sua capitã, ameaçando jogá-los no espaço cósmico. A pressão da descompressão era tamanha que, por mais de uma vez, Benedita pensou que não conseguiria manter-se firme, presa à corda de aço.

Tão rápido como a fúria da descompressão começou, ela acabou. Ao fim de tudo, eles haviam conseguido separar o cargueiro de seu parasita. Ela não pode deixar de notar que vários soldados vhannyres flutuavam, pegos desprevenidos pela explosão, sem vida. De seus corpos um filete de ar esbranquiçado se despregava, fruto dos disparos certeiros de Verne. Benedita observou a pistola laser em sua mão e admirou-o por ter tido a habilidade para abater os inimigos durante aquele caos.

– Nosso trabalho acabou. – Benedita disse ao mesmo tempo em que ajudava Verne a carregar o corpo de Wells.

Neste instante, o casco voltou a vibrar, fazendo-os trocarem olhares de surpresa. Olharam em volta. E Verne apontou para um dos bocais dos foguetes de manobras do cargueiro; a nave phrianmoense estava se afastando do destróier vhannyr.

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Na ponte do cargueiro não havia ficado quase ninguém, todos estavam participando do esforço de deter a abordagem vhannyr. Apenas um operador de rádio, o oficial de radar e um timoneiro permaneciam no local. Em prontidão para qualquer eventualidade.

No momento, estavam observando a investida do caça terrestre contra o destróier e se perguntavam se o piloto estava louco. Se destruísse o destróier com certeza destruiria o cargueiro, matando a todos.

Apesar de seus receios, os oficiais apenas puderam observar e presenciar vários clarões de explosões, inclusive um bem próximo à nave. Uma luz acendeu-se num painel e o timoneiro olhou-o perplexo:

– O duto de atracação foi destruído! Estamos livres da nave vhannyr!!

– O que está esperando, então, homem? - Gritou o radialista. – Afaste-nos deles!

Esquecendo-se que eles não tinham autoridade para mover a nave, o timoneiro ativou os retropropulsores de manobra e o cargueiro começou a recuar, aumentando a distância entre eles.

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Após várias manobras que o livraram de ser abatido pelas baterias do destróier, Julian retornou para sua posição de espera quando observou a explosão; um clarão que envolveu todo o duto de atracagem, rompendo-o e separando as naves de sua união forçada.

Ele obrigou o caça a fazer uma volta para melhor visualizar a destruição, e percebeu que o cargueiro se movia, aumentando a distância entre ele e a belonave. Era a deixa que precisava.

– Klaus! Jhansen! – Chamou seus alas e puxou o manche. – Vamos cortar as asas deste ganso!

Os três Vingadores mergulharam num vôo picado e dispararam vários mísseis no intuito de danificarem a embarcação inimiga. Dois mísseis foram destruídos pelas baterias de defesa, mas os outros atingiram os motores, aparentemente incapacitando-os: rolos de fumaça saiam dos mesmos.

O tenente-aviador olhou satisfeito para o resultado de seu ataque e, após confirmar que o cargueiro se afastava mais e mais, distribuiu ordens para o resto do esquadrão. Era hora de terminarem o que haviam começado.

Cinco caças abandonaram suas órbitas e iniciaram outro mergulho, eram como aves de rapina, sedentas pelo sangue de sua presa. No momento ideal, descarregaram seus mísseis, acertando os pontos mais vulneráveis da belonave fazendo-a ribombar com várias explosões antes de desaparecer numa esfera de gás e destroços.

********************

Neyffe sentiu o cargueiro tremer e ouviu o som da explosão logo em seguida. Uma lufada de ar tomou conta do depósito; primeiro sinal de que a nave estava sofrendo uma descompressão. Tudo o que não estava firmemente preso ao solo começava a ser arrastado em direção aos soldados vhannyres que entraram em pânico.

– Não parem! – Ferrantti gritou, ao perceber que o pânico ameaçava contaminar os defensores. – Temos que aproveitar que estão distraídos!

Obedecendo a convocação do sargento terrestre, todos voltaram a seus postos e uma saraivada de lasers derrubou vários vhannyres, relembrando-os de que não podiam dar as costas ao inimigo.

Neste instante, o major já não sentia o ar se movimentando. Primeiro sinal que o sistema automático da nave fora ativado, evitando assim a descompressão e possível ruptura de casco. Voltou-se para o sargento.

– Ela conseguiu!

– Nunca duvidei, major.

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A comporta se abriu e Benedita entrou, ajudando Verne com o desfalecido Wells. O soldado foi rapidamente deixado aos cuidados do médico de bordo. Assim que o soldado ferido desapareceu no corredor, eles foram cercados por seus companheiros.

– Meus parabéns, capitã. – Ferrantti estendeu-lhe a mão.

Ela apertou-a, sorrindo de satisfação. – Não conseguiria sem a ajuda de Wells e Verne, sargento. O senhor tem excelentes homens sob seu comando.

E voltando-se para Neyffe, estreitou os olhos matreiros – Bom... acho que agora já posso saber o que tem de tão valioso nesta nave, para os vhannyres se darem a este trabalho.

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– Perdemos contato com a Gürtedring! – Alguém informou.

– Em sua última mensagem, eles informaram que estavam sofrendo ataque de caças terrestres. – Ipörn aproximou-se do general. – É justo supor que os terráqueos tenham encontrado uma maneira de destruí-lo sem danificar o cargueiro. O capitão Gortzern foi vítima de seu próprio descuido!

– Que toda a frota prepare-se para partir! – Vorgrn ordenou após um momento de reflexão.

– O senhor entende, general, que se entrarmos em confronto direto contra as unidades terráqueas estaremos violando o tratado firmado entre Vhannyr e a Terra!

– Nossa missão é muito mais importante que qualquer tratado firmado com os bárbaros, coronel! Do sucesso dela depende a sobrevivência do próprio império! Além do que, se não fosse a morte de nosso imperador e a desordem subjacente, teríamos agregados estes bárbaros a nosso glorioso império...

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– Tem certeza, senhor? – O capitão do cargueiro exprimiu seu receio.

O major apenas acenou positivamente com a cabeça. Dugall também não concordaria com sua decisão, mas ele devia a aquelas pessoas. E elas queriam uma explicação que ele poderia dar, mesmo arriscando sua segurança.

– Eles estão em busca de um membro da família real vhannyr. – Ele respondeu a pergunta que lhe fora feita minutos antes.

Benedita e Ferrantti entreolharam-se, incrédulos.

– O império vhannyr tentou durante dez anos conquistar o Sistema Solar, mas, após uma batalha violenta onde a maioria das naves terráqueas foi destruída, eles resolvem negociar. E mais, abdicam de qualquer pretensão sobre os planetas solares e sistemas adjacentes. Vocês já se perguntaram do porquê desta mudança de atitude?

– Ora, nós os escorraçamos em Saturno! – Ferrantti respondeu sem pensar.

– Não, sargento! Ele está certo! Depois de dez anos de conflito, nossas indústrias estão próximas do colapso. Muitas das metrópoles estão em ruínas irrecuperáveis por causa dos bombardeios nucleares. Nosso povo está passando fome e as pestes se alastram, dizimando os velhos e os jovens.

– Saturno pode ter sido uma batalha violenta, onde as duas forças perderam mais da metade de suas astronaves. Mas quem perdeu foi a Terra, pois, se a Marinha perdeu sessenta por cento de suas forças, a Frota Vhannyr não deve ter perdido mais do que a vigésima parte de sua força de ataque. O Império é gigantesco; alguns de nossos especialistas dizem que ele controla dez por cento da galáxia.

Benedita fitou o phrianmoense – Depois daquela batalha, eles poderiam avançar sobre nós, mas não o fizeram! E por que não fizeram, major?

– Há aproximadamente sete meses, o imperador morreu sem herdeiro. Imediatamente, a disputa pelo trono começou. Pretendentes surgiram de todos os lados e o caos ameaçava tomar conta do Império. Negociações entre os pretendentes foram iniciadas, mas surtiram pouco resultado. Temendo a guerra civil, o conselho de nobres decidiu convocar todas as frotas para manterem a segurança interna.

– Quer dizer que a guerra acabou somente porque os vhannyres tinham coisas mais urgentes a fazer?

– Exato, sargento! Todas as campanhas militares foram suspensas até que o trono esteja novamente ocupado.

– Mas onde você e este comboio entram nesta história?

– Acontece que o Conselho estava enganado ao proclamar que o imperador não tinha deixado herdeiros. Quando a notícia da morte do monarca chegou aos ouvidos do duque de Phrianmo, este despachou um comunicado ao planeta capital. O conteúdo do comunicado era claro em afirmar que existia um descendente do imperador, fruto de uma das várias estadas deste em Phrianmo, e que ele vivia em sua corte.

– Obviamente, muitos não gostaram de saber da notícia.

Neyffe apenas concordou com um aceno de cabeça.

– E onde os colonos entram nesta história?

– São uns pobres coitados que foram pegos no fogo cruzado. Como um dos comandantes das Forças de Defesa de Phrianmo, eu e minha esquadra escoltávamos um comboio de colonização quando recebi a notícia exigindo meu retorno ao planeta capital. Infelizmente, quase no mesmo instante, fomos emboscados por uma esquadra vhannyr rebelde.

– Impossibilitado de seguir na direção da colônia, decidi retornar a Phrianmo. Infelizmente, nosso retorno tem sido dificultado pelos constantes ataques...

– A Sol de Phrianmo e três naves solares saíram de um salto. – Os auto-falantes interromperam o major.