BATALHA NO ESPAÇO

TERCEIRA PARTE

O transporte abandonou a proteção do hangar do encouraçado terrestre e imediatamente recebeu a escolta de dois caças.

Em seu interior, além de um grupo de marines sob o comando do sargento Ferrantti e de dois técnicos, estava a capitã-de-mar-e-guerra Benedita Bueno. Contra as recomendações de seus oficiais, a comandante do Anhanguera resolvera acompanhar o grupo de inspeção.

Benedita era do tipo que tinha que ver pra crer, então queria confirmar com os próprios olhos se aquele cargueiro estava cheio de colonos, e gostaria de conhecer o comandante phrionmoense, pois calculara que ele nunca deixaria uma de suas naves serem inspecionadas sem sua presença. Havia um outro motivo, também; nunca estivera a bordo de uma nave alienígena antes e não podia deixar passar a oportunidade.

– Estamos nos aproximando do cargueiro. – O piloto anunciou. – Iniciando procedimentos de acoplagem...

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A porta da sala de descompressão se abriu e os primeiros a saírem foram dois soldados, a julgar pelas vestes esverdeadas. Imediatamente, apontaram as armas para Neyffe e seus guardas; que, em resposta, apontaram as suas para as contrapartes terráqueas.

– Mas...o que pensam que estão fazendo?! – Uma voz feminina, porém forte e decidida, veio detrás dos soldados. – Abaixem a armas, imediatamente! Estamos aqui para uma inspeção e não para iniciarmos um tiroteio!

Os fuzileiros espaciais abaixaram suas armas e deram passagem a uma mulher, com o rosto visivelmente irritado.

A oficial terráquea teria, no máximo, a idade de Neyffe e sua pele bronzeada e os olhos verdes vividos contrastavam com os longos cabelos castanhos, que lhe caíam sobre os ombros. A princípio, parecia ter a mesma altura que ele, mas este engano logo foi desfeito ao notar os saltos altos das botas que usava.

Ao levantar os olhos, Neyffe espantou-se; o traje espacial dela, branco com detalhes em preto e azul, era extremamente justo, acompanhando as curvas do corpo. Seu único ornamento era o cinturão da arma que pendia de sua cintura.

Ele estava constrangido. Seus homens estavam constrangidos. Afinal, nunca viram uma mulher em trajes tão justos.

– Não seria melhor seus homens também abaixarem as armas, major? - ela se aproximou olhando por sobre os ombros de Neyffe.

Neyffe, tentando mostrar naturalidade, apenas fez um sinal e seus guardas abaixaram as armas. – Bem-vinda a bordo do cargueiro número um, capitã Benedita.

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Ao perceber os olhares, constrangidos, dos phrionmoenses sobre si, Benedita sorriu por dentro.

– Obrigada, major! – Agradeceu o cumprimento de Neyffe e apertou-lhe a mão. – Mas, não estou aqui para uma visita social, o senhor compreende...

A capitã calculou que a idade do major não devia passar a casa dos vinte e cinco anos terrestres e as marcas de uma vida sem despreocupação ainda eram percebidas em sua face. Era alguém que estava no comando de uma nave estelar, não por vocação ou por vontade própria, mas por forças das circunstâncias.

Sinceramente, ela não se impressionou com o jovem oficial phrionmoense. Somente admirava o esforço que ele fazia para não olhar seu corpo.

– Compreendo. – Neyffe respondeu, com enfado, e mostrou a saída. – Por aqui...

Todos abandonaram a sala e entraram em um corredor, mal iluminado, pintura desbotada e detritos pelos cantos, onde avançaram até outra porta. Neyffe abriu-a e deu passagem à comandante terráquea.

Benedita esforçou-se para que seu espanto não transparecesse.

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– Sabe... – Hassan pensou alto, contemplando os cargueiros. – A capitã se arrisca demais indo pessoalmente. Qualquer um de nós dois poderia comandar esta inspeção...

– Realmente, meu amigo. – Ivan se aproximou. – Mas ela é do tipo de pessoa que não se contenta apenas com um relatório, precisa conferir in loco...

– Pra mim, ela é apenas curiosa...

Os dois esforçaram-se para conter a gargalhada.

– Picos de táquions identificados à 12 000 km, 12º, bombordo. – A voz do oficial de radar retirou-os de seu momento de descontração. – Pelo menos sete objetos estão retornando ao espaço normal. Os sensores estão rastreando suas ident...

– Devem ser os reforços enviados pelo Comando Central. – Hassan interrompeu-o, relaxando-se ainda mais no assento.

– Improvável. – O radarista, irritado por ter sido interrompido, ironizou. - A não ser que nossa situação esteja tão desesperadora que estejamos reciclando destróieres e couraçados vhannyres...

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O choro cansado das crianças. Os lamentos dos idosos. A respiração arfada dos doentes. Famílias aglomeradas sobre trapos, envoltas pelo lixo, na semi-escuridão, com a desesperança em seus olhos.

Benedita sentiu a comoção percorrer-lhe o coração e sabia que o mesmo acontecia com seus homens; estava estampado nos olhos de cada soldado terrestre ali presente.

Era como se vissem as próprias lembranças. De uma época em que viviam como ratos, morando nos túneis de metrô, desesperados e assustados demais para chorarem, enquanto o inferno atômico devorava suas cidades e colônias.

– Este é Vroht, condestável dos civis desta nave. – Neyffe disse, apresentando um senhor na faixa dos 70 anos terrestres; seus olhos estavam fundos, e sua face cansada, e via-se claramente que não se alimentava direito havia vários dias.

– Vocês têm que nos ajudar!! – Vroht segurou os braços da terráquea. De seus olhos, escorriam lágrimas de desespero – Nossas crianças estão ficando doentes. Nossas mulheres não têm o que comer. Pelo Supremo, sejam piedosos...

– Senhor... eu... – Pega de surpresa, Benedita ficou sem reação observando o olhar desesperado do ancião.

– Chega, Vroht! – Neyffe afastou o alterado ancião – Este é um problema nosso. Eles não têm a obrigação de se envolver...

A capitã terráquea podia ver, em seus olhos, a resignação do major phrianmoense.

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– As naves vhannyres estão avançando em direção ao comboio. – O oficial de radar mantinha-se atento ao painel do radar, apesar da sereia de alarma ecoar por toda a ponte. – Indo, mais precisamente, na direção do cargueiro número um!

Naquele momento todos, na ponte, só tiveram um pensamento: a capitã!

Obviamente que aquele movimento não passaria desapercebido pelos phrianmoenses e logo o encouraçado e dois cruzadores se moveram numa tentativa de interceptar e impedir o avanço vhannyr.

Os cruzadores dispararam seus canhões, assim que se posicionaram entre os vhannyres e o cargueiro. Seus raios de morte cruzaram o espaço, atravessando a blindagem de um dos destróieres inimigos, que desapareceu numa nuvem de gás.

Em resposta, os encouraçados inimigos abriram fogo transformando em destroços o cruzador mais próximo e avariando seriamente outro; seus propulsores foram envolvidos pelas chamas.

Vendo a incapacidade de reação do inimigo às armas vhannyres, os couraçados iniciaram seu reposicionamento para dispararem o tiro de misericórdia. Um dos encouraçados atacantes nunca chegaria a disparar.

Vários disparos de plasma róseo atravessaram seu casco, fazendo-o se partir, transformando-se numa bola de luz e destroços que envolveram suas companheiras, cegando-lhes os sensores.

O encouraçado espacial conhecido como Sol de Phrianmo disparara...

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– Mas que...!? - Benedita exclamou ao sentir o casco do cargueiro, primeiramente vibrar e, depois balançar, como uma barcaça num mar revolto; a terráquea perdeu o equilíbrio é só não foi ao chão porque o sargento Ferrantti amparou-a com os braços.

– Sargento, obrigada! – Agradeceu ao se endireitar, voltando-se imediatamente para Neyffe. Ele, por sua vez, estava próximo a uma parede.

– ...estamos sob ataque de uma frotilha vhannyr, senhor... – Foi tudo o que ouviu antes da comunicação ser cortada.

Neyffe voltou-se para ela – Devemos ir à ponte!

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Os sensores das belonaves, ainda permaneciam cegos, quando quatro descargas energéticas romperam a bolha de claridade e cruzaram o espaço na direção do encouraçado phrianmoense. Felizmente a Sol de Phrianmo começara a se mover, procurando um melhor ângulo de disparo, e apenas um dos disparos atingiu-a, de raspão, volatizando duas baterias AA.

Toda esta ação foi presenciada pelas belonaves terrestres, que permaneciam impávidas em suas posições. Obedeciam às ordens de sua comandante, apesar do estado de nervos de suas tripulações. O desejo de auxiliar as naves phrianmoenses era vívido nas mentes dos capitães das astronaves terrestres e somente a disciplina e o respeito a ordens hierarquicamente superiores impediam que disparassem as armas.

– Comunicação chegando. – Storino anunciou, fazendo com que a tensão na ponte do Anhanguera aumentasse. – É a capitã!

O rosto, sério, de Benedita apareceu na tela principal. - Qual é a situação?

– Sete naves vhannyres saíram do hiperespaço, dois encouraçados e cinco destróieres, e avançaram diretamente para o cargueiro numero um, ignorando todos os outros. Destruíram um dos cruzadores phrianmoenses, no avanço, mas perderam um destróier e um couraçado, que foi atingido pela Sol de Phrianmo. – Ivan iniciou um resumo, preciso e conciso, dos fatos. – No momento estamos incapacitados de tomar uma ação ofensiva pois elas estão muito próximas do cargueiro e...

Ele calou-se; a imagem da ponte do cargueiro estremeceu e Benedita precisou firmar-se para não cair – Alguma coisa errada, capitã?

– Estão nos abordando... – Ela respondeu, olhando para o lado. - Fiquem preparados. Vocês saberão quando agir... – a imagem desapareceu.

Instintivamente todos se voltaram para a janela; a esfera de energia cegante, causada pela destruição do couraçado já se dissipara e a frotilha inimiga se mostrava. Um dos destróieres tinha avançado e estava acoplado ao cargueiro, próximo à proa.

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Na maioria das naves estelares as proas eram o local utilizado para os depósitos de armazenagem. Por ser um local hermeticamente fechado, era o local preferido por equipes de abordagem. A descompressão provocada pelo rompimento de casco, necessária para se penetrar à nave, não afetava a estabilidade estrutural da embarcação.

A única desvantagem era a demora em abrir as portas herméticas. Isto possibilitava a preparação da defesa pela tripulação, e a distância que a proa ficava da ponte de comando.

Neyffe estava consciente deste fato e iria aproveitá-lo.

– Mandem as mulheres e as crianças se refugiarem na popa. – Distribuía as ordens. – Ergam as barricadas e aqueles que puderem segurar uma arma devem ser armados...

– Meus homens irão ajudar, major. – Benedita se aproximou. O sargento Ferrantti bateu continência e desapareceu pela porta.

– Obrigado, capitã. Mas receio que tudo será uma questão de tempo. - Ele olhou pela vidraça, resignado - Estamos cercados pelos inimigos, nossas naves não podem agir sem nos destruir no processo. Podemos resistir a uma abordagem, mas eles simplesmente podem substituir uma nave por outra até cairmos...

– Salte! – Benedita interveio. – Ordene que o cargueiro salte, ele pode não? Assim sairemos desta ratoeira...

O phrianmoense sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo. O que ela pedia era loucura. Havia uma nave de 10.000 toneladas acoplada ao cargueiro e as máquinas de transposição não conseguiriam arrastá-la no processo. O saldo final daquela loucura seria a destruição de ambas as astronaves. Neyffe balançou a cabeça negativamente.

– O que temos a perder?! – ela fitou-o.

Em toda sua vida, o jovem phrianmoense nunca vira tamanha determinação e confiança como aquela que emanava dos olhos esverdeados da terráquea, que pareciam querer ler sua alma.

“Serão estes os olhos de um verdadeiro capitão de nave estelar?”, se indagou antes de decidir apostar na confiança de sua visitante.

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– Há uma alta concentração de taquions na posição do cargueiro número um! - O oficial de radar anunciou, fazendo com que todos se voltassem para o local onde a frotilha vhannyr se posicionava, ao redor do cargueiro phrianmoense.

As naves vhannyres se distanciavam do cargueiro; se mantivessem suas atuais posições, a distorção espaço-tempo, necessária para o salto hiperespacial poderia destruí-las ao tentar arrastá-las para o halo dimensional deixado pela nave no momento do salto.

– É loucura! – Hassan esbravejou. – Serão destruídos assim que entrarem no hiperespaço...

– Talvez não! Os niveis táquionicos do destróier, começaram a se elevar... Eles também irão saltar... - Apesar da notícia, a voz do radarista era tensa.

Durante uma fração de segundo, o tempo, naquele setor do espaço, pareceu congelar.

A tensão e a expectativa tomavam conta de todas as naves.

Durante esta fração de segundo, as duas naves tremeluziram e desapareceram num brilho fantasmagórico. Deixando atrás de si somente a dúvida quanto a seu destino.

CONTINUA EM 15 DIAS...

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