Dylan Dog: o detetive do pesadelo

Por Caio Luiz

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Um grito emana do interior da ostentosa mansão. É noite. A bela mulher de cabelos negros se apóia na porta do corredor principal, ofegante. Traja somente a camisola transparente e calcinha. Olha por cima do ombro esquerdo, põe a mão no pescoço e pensa “meu Deus!”. Sua expressão denuncia o pavor que acelera o coração e a faz entrar em desespero, ao forçar a maçaneta, enquanto o vulto a persegui-la se aproxima a passos vagarosos, que só aumentam a tensão.

Ela torce e implora para que a porta abra, mas parece emperrada. Se tremesse menos seria mais fácil destrancá-la. Mesmo sem olhar para trás, pode sentir as mãos pálidas se aproximando. Finalmente a pesada porta de madeira cede e é possível ir para o outro lado. Infelizmente, o horror não teria fim. Uma das mãos se mete pela fresta e a arranha com vigor. É correr ou morrer.

Se alcançar o telefone ainda haverá chances de sobreviver. O vento gelado vindo de fora deixa a mostra os seios da vítima, que avança descuidadamente e tropeça no carpete. Ao cair, bate a cabeça em um dos móveis e desmaia por alguns segundos. Quando acorda, se depara com o marido tentando arrancar um pedaço de sua canela com os dentes... Assim começa a primeira edição de Dylan Dog, personagem criado em 1986 por Tiziano Sclavi. O escritor foi responsável por uma das mais célebres publicações da editora italiana Bonelli Comics, conhecida pelos títulos Tex, Mágico Vento, Nick Raider, Martin Mystère, Zagor, Dampyr e Mister No.

A história de 24 anos atrás já apresentava os elementos que tornariam a série popular o suficiente para vender um milhão de cópias por mês, o que é espantoso para qualquer gibi. O clima noir proporcionado pelo preto e branco, com moças sempre a visitar o escritório do detetive particular conquistador, sempre foi uma fórmula certeira de sucesso, mas a inovação estava no tipo de caso em que o investigador trabalharia.

Por exemplo, continuando com a história da mulher perseguida, ela se desvencilha do marido, se tranca no banheiro e, em seguida, o mata com um golpe de tesoura nos olhos. O problema é que ele já estava morto. Quem no mundo você procuraria para resolver algo do tipo? Pois é, Dylan Dog, o detetive do pesadelo. Por cinquenta libras esterlinas ao dia, mais despesas, ele topa averiguar o acontecimento mais distante da realidade possível. A própria Morte (a entidade mesmo!) em um bizarro encontro em que jogava xadrez com um indivíduo prestes a falecer, o definiu como um surpreendente e involuntário catalisador de fenômenos paranormais.

Voltando a historia, Sybil, a mulher ameaçada pelo cônjuge zumbi, se dirige a Craven Road, nº 7, na cidade de Londres, Inglaterra, e aperta a campainha para ouvir o toque mais esquisito de todos os tempos, “Uaaarrgh!”, um baita grito de horror. Quem deveria abrir a porta para atender a possível cliente? O mais lógico seria o próprio detetive. Mas essa é grande qualidade da revista. A obviedade fica para segundo plano. Quem recebe a linda viúva é ninguém menos que Groucho Marx em pessoa, na verdade um sósia do expoente da comédia estadunidense, bastante famoso na primeira metade do século XX com seus óculos de aros arredondados, bigode e sobrancelhas grossas, sempre com um charuto no canto da boca. Groucho é uma espécie de mordomo-assistente de Dylan que o acompanha sempre disposto a fazer anedotas, por vezes cretinas ou geniais, e que carrega o revólver antiguíssimo, peça de museu pra valer, que os salvou de diversos encontros perigosos com mortos-vivos, assassinos em série, lobisomens, vampiros e etc.

Após se livrar do inconveniente mordomo, Sybil se depara com o homem que procurava. Ele tem trinta e pouco anos, usa calça jeans, botas cano longo, camisa vermelha com as bordas das mangas engolindo o terno preto. Se parece tremendamente com Rupert Everett, aquele cara que interpreta o amigo gay da Julia Roberts no Casamento do Meu Melhor Amigo, e tem os cabelos mais bagunçados do reino da Rainha Elizabeth II. Ele a conduz por corredores repletos de suvenires que rementem a casos assombrosos do passado ou simplesmente são decorações de mal gosto.

Então, ela descreve detalhadamente o caso enquanto assiste o homem misterioso montando um galeão em miniatura para organizar melhor os pensamentos. Ao terminar, percebe que Dylan é alguém cheio de hábitos inusitados. Ele passa a tocar clarinete para prolongar o processo de reflexão e depois a canta, na cara larga, roubando um beijo da mulher sem reação. Não demoraria muito, em mais algumas páginas, o Sr. Dog seria praticamente transportando para o filme “Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero, com o assistente e a nova amante. O leitor se deleitaria com cenas angustiantes de zumbis fechando o cerco, prestes a devorá-los, enquanto tentam impedir que principal algoz de Dylan, o Dr. Xabarás, os zumbifique e alastre um vírus letal em busca da imortalidade.

Ler Dylan Dog é se deixar entrar em um espiral surreal que se afunila num condensado de horror com humor e sexo no melhor de estilo italiano. A Bonelli é especialista em transformar gêneros manjados em séries bacanas como, por exemplo, as histórias policias de Nick Raider, no melhor estilo Máquina Mortífera, ou Nathan Never, título de ficção científica inspirado em Blade Runner. Contudo, o autor Tiziano empregou a técnica de personagens no gênero de terror que, geralmente, não foca em protagonistas e sim no horror em si como o principal e o desenvolveu com grandiosidade e riqueza de detalhes, o inserindo nas situações mais escabrosas e inimagináveis.

O suspense, as tiradas cômicas, a violência explícita e insinuações sexuais estão presentes em boa parte das produções de horror, não importa para qual mídia seja feita. Afinal, elas são atrativos reconhecidos que garantem vendagem, mas a graça e criatividade estão na maneira como os elementos mencionados são mero pano de fundo para tramas engenhosas, com respiros bem calculados entre eles, que provocam o fascínio pelo personagem.

Confira algumas das características marcantes do investigador: Dylan Dog já trabalhou para a Scotland Yard no passado, mas largou o emprego para se dedicar ao trabalho de investigar pesadelos, o que é visto com maus olhos por toda a sociedade londrina, que o considera um charlatão de marca maior. É vegetariano, abstêmio - depois de ter controlado o alcoolismo - sofre de complexo de Édipo, tem fobia de altura, morcegos e não consegue ter relacionamento estável com mulher alguma. Elas acabam morrendo ao longo da edição ou desistindo do detetive, que invariavelmente está na pindaíba e desconhece como irá pagar as contas do mês até alguém fazer soar a estrondosa campainha com um novo mistério a ser solucionado. Assim, Dylan entra em seu fusca branco com a emblemática placa DYD 666 e o vemos dobrar a esquina em direção ao pesadelo.

Dylan em terras tupiniquins

Lembro bem do mês de outubro de 2001. Tinha 15 anos, pouquíssimo contato com a internet, que estava a toda, e estava fascinado com minha mais nova aquisição, a primeira edição da série de seis volumes que a Conrad Editora publicaria até abril do ano seguinte. A coleção fora selecionada pelo próprio Sclavi como introdução perfeita ao personagem e teve todas as capas refeitas pelo artista Mike Mignola, criador de outra grande obra do horror, Hellboy.

Saí da escola sem sequer ter noção do que estava prestes a ler. Comprei o gibi no intervalo de um período letivo para outro porque a arte da capa me fisgou de longe, mesmo que um pouco escondida na prateleira inferior da banca de jornal. O preço era R$ 4,50. Deixei de ir ao cinema com meus amigos que acharam minha compra o maior desperdício de dinheiro. Comecei a leitura no ônibus de volta para casa e soube em questão de minutos que teria todas as edições daquela publicação.

Fui descobrir que Dylan Dog já foi lançado antes disso no Brasil, na mesma ordem que na Itália, pela Record de 1991 a 1992. Infelizmente foram só 11 volumes, difíceis de encontrar em sebos e um especial com a parceria de Dylan com Martin Mystère, o detetive do impossível, e outro especial solitário. Em 1993, uma coletânea intitulada Fumetti reuniu histórias de personagens italianos, entre elas, umas das poucas do detetive do pesadelo em cores com 18 páginas, sendo que a média de páginas é quase cem por história.

Fiquei desolado ao perceber que seria quase impossível conseguir as edições mais antigas. Porém, no início de uma noite de agosto de 2002, tomei um susto agradável na banca de jornal de um supermercado. A Mythos Editora retomava a série mensal, não na sequência produzida no país de origem, mas não importava porque cada história é praticamente independente da outra. Seriam quatro anos acompanhando regularmente o Sr. Dog nas bancas até o cancelamento. Foram 40 edições. Eu já tinha 20 anos, barba na cara, e fiquei louco da vida como se ainda tivesse 15 anos.


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