BATALHA NO ESPAÇO

PRIMEIRA PARTE

Benedita Bueno segurou-se, como pode, nos braços de sua poltrona de comando. Os impactos dos mísseis, disparados pelos caças inimigos, reverberaram no casco da Cuzco. Mas o cruzador manteve-se firme.
– Todas as baterias, fogo!! - Gritou a plenos pulmões.
Imediatamente, os canhões antiaéreos entraram em ação e cinco caças transformaram-se em nuvens de gás incandescente no mesmo instante.
Ela esboçou um sorriso que logo se apagou quando um brilho ofuscante inundou a ponte; o destróier que acompanhava a belonave desaparecia em meio a uma explosão violenta. E somente graças aos absorvedores de inércia o Cuzco não adernara.
– Cruzador vhannyr a dois mil quilômetros! - O oficial de radar gritou, antecipando-se a pergunta de sua capitã. – Posição: 12º estibordo!
Benedita soltou um impropério.
– Onde estão nossos canhões?
– A caminho, senhora! – O artilheiro respondeu sem olhá-la.
As três torres duplas se movimentaram. Seu computador de combate fez os cálculos de alcance e trajetória. Suas câmaras foram municiadas e uma luz verde acendeu-se no painel do artilheiro.
– Baterias principais na posição de tiro, senhora!
– Fogo!!
As baterias do Cuzco entraram em ação e o cruzador inimigo transformou-se numa bola de chamas e destroços.
A euforia tomou conta do cruzador de patrulha e por um segundo a batalha foi esquecida; um segundo fatal.
O Cuzco adernou, como se tivesse recebido o coice de uma mula, e todos seus tripulantes foram arrancados de seus postos, sendo arremessados contra as paredes.
– Fomos atingidos! – Alguém gritou, olhando um painel, ao tentar se levantar. – Estamos perdendo pressão...
Era um aviso desnecessário, pois todos podiam ver as colunas de fumaça que se levantavam no espaço cósmico; estavam perdendo oxigênio e a pressão interna descia rapidamente.
– Isolem os compartimentos atingidos, temos que reest... - Benedita não conseguiu completar a ordem; um novo baque fez com que ela fosse arremessada para longe de seu assento; uma dor lacerante tomou conta de seu flanco, um anúncio de que várias costelas haviam se partido. Soltou um gemido.
Quando abriu os olhos, após morder os lábios para controlar a dor, pode ver a destruição que havia tomado conta da ponte do Cuzco. Uma visão que durou poucos segundos; um segundo impacto reverberou por toda a ponte e os tripulantes que ainda permaneciam em seus postos, ou tentavam ajudar seus companheiros, foram arremessados sobre os painéis.
Benedita tentava se levantar quando o solavanco jogou-a novamente ao chão. Ela gritou de dor e ódio ao sentir um painel, que se soltara, esmagar-lhe as pernas.
Não queria morrer ali, não como um rato preso numa ratoeira. A dor dilacerava sua mente e seus olhos se embaçavam por causa das lágrimas, sentia pouco a pouco a vida se esvaindo...
– A vidraça vai rompe... – Foi a ultima coisa que ouviu antes de mergulhar no aconchego da inconsciência.
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Benedita acordou sobressaltada.
Passou a mão sob o queixo suado e deslizou-a sobre um painel invisível na parede próxima à cama; uma vigia se abriu exibindo o negro estelar. De onde estava podia ver o Ville de Paris, uma belonave do mesmo tipo do Cuzco.
A Cuzco.
Ela havia assumido o comando do cruzador de batalha apenas duas semanas antes da batalha de Saturno. Uma batalha violenta onde as forças beligerantes perderam sessenta por cento de seus efetivos. Mas que teve como resultado a expulsão definitiva dos vhannyres do Sistema Solar. E eliminada toda e qualquer pretensão daquela raça alienígena sobre a Terra e seus planetas irmãos.
Naquela batalha, Benedita sentira medo pela primeira vez; não o medo que sentia ao ouvir o som dos bombardeios alienígenas sobre sua cidade. Mas o que sentia ao perceber que sua vida terminaria sem ter feito a diferença.
Ao acordar duas semanas depois, num hospital militar, percebera que havia conseguido uma segunda chance. Infelizmente não podia dizer o mesmo de sua nave e nem de sua tripulação. Fora ela, apenas três tripulantes sobreviveram à destruição do cruzador. E, quando soube, chorara todas as noites, sentia-se culpada; por ainda estar viva e tantas pessoas boas não.
Talvez este fosse um dos motivos que levara o almirante a lhe dar o comando do Anhanguera, ao invés de aceitar seu pedido de baixa.
“Você recebeu uma segunda chance e deve honrar seus companheiros mortos vivendo”, disse na ocasião.
– Capitã?! A senhora está aí?! - A voz do oficial de comunicação chegou até ela pelo intercomunicador.
– Pode falar, Storino - Benedita respondeu, sentando-se.
– Localizamos a Ibéria, senhora – Sua voz parecia excitada – E seria bom a senhora dar uma olhada...
– Certo! Já estou indo! - Deu fim a comunicação olhando em volta, à procura de seu uniforme.
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– Capitão na ponte! – Alguém anunciou quando Benedita entrou e quem podia fez-lhe uma saudação. Antes de se sentar, ela olhou para o oficial de comunicação e este entendeu o que ele significava.
– As 16:30, horário de Brasília, os sensores do Hiei depararam-se com uma alta concentração de táquions a 280.000 quilômetros de Plutão – Ele iniciou o relato. – Ao se aproximar, identificaram a fonte como sendo de um aglomerado de destroços...
– As redondezas de Plutão foram palco de pelo menos duas grandes batalhas nos últimos dois anos. Estes destroços podem ser remanescentes destas batalhas... – Ela o interrompeu, enfadada.
– Foi o que o capitão LeMel também pensou, de início, mas uma sondagem precisa revelou que os mesmos eram recentes. E foi neste momento que ele decidiu contatar-nos. Já faz dez minutos que recebemos seu comunicado e as primeiras imagens...
– Ora. Então as mostre.
No mesmo instante, o visor principal deixou de exibir o espaço próximo e em seu lugar apareceu um emaranhado de aço retorcido e chapas de plastiaço flutuando a esmo. Ela se aprumou; em uma daquelas chapas via-se claramente a palavra "IBERIA" escrita na fonte padrão da Marinha Espacial da Terra. Benedita sentiu um leve tremor percorrer-lhe o corpo. Podia sentir a excitação tomando conta de si.
– Informe ao Hiei que mantenha posição. – Ordenou. – Avise ao Ville de Paris e ao Iroquois que devem saltar para as coordenadas do Hiei.
– Sim, senhora! - O oficial respondeu, voltando-se para seu equipamento.
Benedita deu um suspiro antes de pegar o intercomunicador. – Atenção todos os tripulantes; preparar para saltar!
Suas palavras ecoaram por todos os compartimentos do encouraçado.
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Os restos do que havia sido o cruzador de patrulha Ibéria permaneciam imóveis, tendo como pano de fundo os discos escurecidos de Plutão e seu satélite. A não menos que dois mil quilômetros de distância, luzes de taxiamento denunciavam a presença do destróier Hiei, que aguardava pacientemente a chegada de sua força tarefa.
Sua espera não foi longa.
O cruzador de batalha Iroquois foi o primeiro a sair do hiper-espaço. Em seguida, um leve tremeluzir anunciou a chegado do Anhanguera; o encouraçado surgiu a apenas mil quilômetros dos destroços. Cinco segundos depois, o Ville de Paris se fez presente.
Benedita dividia sua atenção entre a tela principal e a vidraça de vidrocarbono transparente que lhe dava uma panorâmica do espaço.
O Ibéria tinha partido da base naval da Lua com a missão de fazer um levantamento orbital dos planetas e luas mais distantes do sistema e pôr em suas órbitas satélites de rastreamento taquionico. Mas, cinco dias atrás, o cruzador parou de enviar sua mensagem regular para a Terra. Quase que imediatamente, uma ordem de busca foi expedida para as naves mais próximas.
Fazia 40 horas que a frotilha capitaneada pelo Anhangüera vasculhava o espaço entre Netuno e Plutão; uma busca infrutífera, até agora.
A capitã admitia que nunca dera a devida importância àquela missão; achava que era paranóia do Comando, pois o rádio do Ibéria poderia estar com problemas e o capitão Kurumada não achara necessário interromper seu trabalho. Agora, olhando para os destroços do cruzador, teve que admitir que o Comando não estava tão paranóico assim.
– A pergunta é: como e porque o Ibéria está destruído? – Perguntara mais para si do que para seus oficiais.
– O capitão LeMel se antecipou a nós e já está conduzindo as investigações para sabermos as causas do acidente. – O primeiro a falar foi Ivan Moraes, o oficial cientifico, um dos poucos tripulantes que tinha idade superior a de Benedita.
– Acidente?! – A voz indignada do oficial de armas, Hassan Mauhar, um jovem recém-saído da Academia, se fez ouvir. – Ela pode muito bem ter sido atacada. Lembre-se que ainda pode haver unidades vhannyres por ai...
– Como você pode ter certeza disso, meu jovem?
Benedita já havia passado por aquilo antes. Os dois iriam entrar numa discussão sem fim, cada um tentando prevalecer seu ponto de vista. Então, simplesmente ficou observando aquele contraste entre gerações.
Setenta por cento de sua tripulação eram de jovens como Hassan, idealistas e um tanto quanto precipitados. Faltava-lhes a experiência que oficiais como Ivan, e ela, possuíam.
De todos os danos que a guerra causa, o maior é a perda de material humano. Afinal, uma nave de guerra pode ser construída novamente, mas a experiência que um capitão deve possuir para comandá-la é irrecuperável.
– Acho que vocês terão sua resposta. - Ela encerrou a discussão, olhando para o oficial de rádio.
– O capitão LeMel já tem os resultados das análises. - Ele respondeu ao olhar dela. No mesmo instante, a figura do capitão do Hiei se materializou na tela principal.
– Então?! O que o senhor nos diz, capitão LeMel? – Benedita perguntou, após as saudações de praxe.
Do outro lado da tela o capitão parecia tenso – Tudo o que tenho a dizer, senhora, é que o Ibéria foi alvejado várias vezes antes de ser destruído...
O silêncio tomou conta da ponte do encouraçado terrestre. Benedita sentiu a mão suar. Hassam lançou um olhar de "eu não te disse?" para Ivan.
– ... por micrometeoritos!
Foi a vez de Ivan retornar o olhar de vitória para Hassan, que procurou disfarçar o embaraço.
– O senhor está querendo dizer que a destruição do Ibéria não passou de um acidente? Mas, como micrometeoritos puderam ultrapassar o campo de proteção do Ibéria? Ele não foi criado especificamente para bloqueá-los?
– Não sei dar esta resposta para a senhora! Mas, de acordo com nossas análises, vários destes objetos perfuraram o casco e atingiram o reator principal, ocasionando a destruição do Ibéria.
– Todas as naves da Terra são construídas com uma caixa preta, à moda dos aviões comerciais, que registra tudo o que acontece na ponte em som e imagem. Se conseguíssemos recuperá-la, poderíamos saber o que aconteceu – Hassam interveio.
– Então vamos procurar esta caixa! Comunique a todas as naves para que iniciem a busca! Obrigada, capitão LeMel.
– Por nada, senhora – O capitão do Hiei a saudou e desapareceu da tela principal.
– Um acidente. Quem diria... – Benedita murmurou antes de se levantar. – Bom... estarei em meu gabinete preparando um relatório para o comando. Assuma, senhor Ivan!
– Capitã!? – O radarista a chamou, impedindo que abandonasse a ponte – Estou captando flutuação no espaço-tempo!
Benedita voltou-se para vidraça. O característico tremeluzir, indicativo do local onde uma nave irá abandonar o hiperespaço, era visível a olho nu.

CONTINUA EM 30 DIAS.

3 comentários:

  1. Nunca vi Patruhla Estelar, mas achei bem interessante esse texto.

    O seu estilo é sempre assim, mais direto ou você se adaptou pra esse conto?

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  2. Opa! Pra escrever este fanfic tive que dar uma refreada em minha veia latina melodramatica ^__^
    Obrigado por ter lido Joe!

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  3. Gostei cara, parabéns! Continuarei lendo esta história.

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