BATALHA NO ESPAÇO

SEGUNDA PARTE
– Salto completado, senhor. – O navegador comunicou assim que Neyffe abriu os olhos; definitivamente não gostava de saltos hiperespaciais.

– Estamos na orla do Sistema Solar.
Durante aquela viagem haviam sofrido vários ataques e restaram apenas cinco belonaves, mas pelo menos nenhum dos transportes tinha se perdido. Porém, com apenas cinco naves e tripulações a beira da exaustão, ele sabia que não poderia proteger os comboios. Ele precisava urgentemente de um lugar para deixá-los e Sistema Solar era o sistema habitado mais próximo.
Claro que outro fator que o fez procurar aquele sistema era o fato dos nativos do terceiro planeta terem sustentado uma guerra contra os vhannyres por dez anos. Neyffe contava com a inimizade entre os solares e o império para conseguir a cooperação dos nativos.
– Detectamos várias naves a 15.000 km de distância. Pelos registros, são naves de design solar. E estão pedindo nossa identificação, senhor.
Neyffe olhou para as silhuetas das belonaves, que eram exibidas no painel de vídeo principal.
– O que vamos fazer, major? – um homem de idade próxima à aposentadoria aproximou-se, sua face exibia uma cicatriz que dividia a bochecha direita em duas.
Voltou-se para o navegador – À frente, a toda velocidade!
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– São onze cargueiros, quatro cruzadores e um encouraçado. – A identificação das naves foi dada assim que suas silhuetas se tornaram estáveis no espaço comum. – Suas configurações apresentam semelhança com antigas classes de astronaves vhannyres.
Benedita sentiu um aperto no coração; será que os vhannyres haviam decidido reiniciar a guerra? Passados seis meses da batalha de Saturno, a Terra não havia se recuperado inteiramente. Em meio a tantas dificuldades, o reaparelhamento da Marinha de Guerra não foi uma das prioridades.
– Pela quantidade de cargueiros eu diria que é uma frota de abastecimento. Eles podem ter efetuado um salto mal calculado...
– Pode ser. Mas não podemos nos arriscar, Ivan. Além do mais, eles não estão parando. Todas as naves, alerta vermelho!
Ao mesmo tempo, a sereia ecoou por todo o Anhanguera anunciando a batalha eminente.
– Nós vamos enfrentá-los? Olha só o estado daqueles cruzadores! Não terão a mínima chance. É incrível que ainda estejam voando...
O oficial de armas não exagerava; todas as belonaves traziam os cascos chamuscados. Marcas mais que evidentes que haviam passado por mais de uma batalha antes de chegarem ao Sistema Solar. Era nítida a impressão de que estavam nos limites de suas forças.
Aquela observação fez com que uma dúvida se alojasse no coração de Benedita. Decidiu apostar na dúvida.
– Abra todos os canais, Storino – Ordenou. – Aqui é RMS Anhanguera, da Marinha Espacial da Republica Federal da Terra, vocês estão invadindo o espaço territorial terrestre, identifiquem-se!
Segundos se passaram.
– Sem resposta, capitã! Transmitimos em todos os canais, mas não obtivemos resposta. Só podem estar nos ignorando.
– Estão se movendo! – O operador de radar noticiou no mesmo instante.
Todos na ponte voltaram seus olhares para a capitã.
– Preparar para disparar! Hassan; disparo de advertência, o mais próximo possível do encouraçado.
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– Não acho uma boa idéia ignorarmos as naves solares, Neyffe. – O velho general Dugall tentava persuadir seu comandante.
– Estas naves podem ou não podem ser das Forças de Sol Três. Não podemos nos arriscar a cair numa emboscada criada por corsários do império. Sem contar que nossas reservas de energia estão no fim, nem sei se conseguiremos dar mais um salt... – Neyffe não completou a frase.
– Couraçado Solar abriu fogo! – O radarista gritou.
Numa fração de segundo depois, os feixes luminosos dos disparos cortaram o caminho do encouraçado. Era nitidamente um tiro de advertência, mas o conhecimento do fato não diminuía a tensão sentida por todos na ponte.
– Droga!! – Neyffe vituperou. – Mantenham o curso! Diga aos cruzadores que assumam posição de defesa e informe aos cargueiros que assim que estiverem prontos, devem saltar. – Distribuiu as ordens. Se fosse preciso ele enfrentaria as naves e ganharia tempo para os cargueiros.
– Nave Solar disparou novamente...
Mais um disparo de advertência, pensou. E como o outro, seria ignorado.
– ...alvo: cargueiro numero um! – a voz do tripulante saiu trêmula.
– Pelo Supremo!! – O jovem oficial exclamou antes de seu coração gelar.
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Apesar do disparo de advertência, a frota desconhecida continuava avançando. Benedita resmungou duvidando da sanidade do comandante alienígena. Eles optavam por ignorar as naves e simplesmente avançavam, oferecendo seus flancos para os canhões das naves da Terra. Ou, seus olhos estreitaram-se, não ofereciam tanto assim.
O encouraçado permanecia à frente, mas os cruzadores se deslocavam cobrindo os flancos dos cargueiros. Seja o que for que estivessem transportando, as tripulações daquelas naves pareciam dispostas a não deixarem os cargueiros sofrerem dano. Nem que precisassem se sacrificar como escudo.
Um sorriso malicioso formou-se nos lábios da capitã; descobrira como fazer a frota invasora parar sem ter que destruí-la.
– Prepare para disparar outro tiro de advertência, Hassan. O alvo é o primeiro cargueiro do comboio. Quero que você dispare o mais perto que puder. Pode chamuscar a pintura, mas não deve atingi-lo. – Seus olhos brilharam. – Quero ver se eles não vão parar.
– Sim senhora. – O oficial respondeu. – Torre A, preparar para disparar; advertência. Alvo; cargueiro número um – As têmporas de Hassan umedeceram e gotículas de suor brilharam em sua testa, aquele seria o disparo mais preciso que já executara em sua vida. – Vertical; 12º positivo, Horizontal; 06º negativo, Fogo!!!
Os canhões despejaram seus jatos mortais de plasma, que atravessaram o negror espacial, iluminando um dos cruzadores inimigos e resvalando no casco do cargueiro; tão perto que a pintura ferveu e se liquefez.
A frota desconhecida parou.
Benedita sorriu de satisfação.
– Meus parabéns, Hassan; foi um belo tiro! - Elogiou o oficial de armas, que tirava o suor de sua testa após ter soltado um longo suspiro de alivio. – Storino, comunique-lhes que o próximo não vai apenas arrancar a pintura e...
– Comunicação chegando, capitã! – O radialista interrompeu-a.
O sorriso aumentou na face da capitã terráquea – Ficaram ansiosos para conversar? Huh! Na tela...
A grande tela principal tremeluziu e trocou a imagem do comboio alien pela de um homem de tez azul que se mostrava nitidamente irritado.
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“Aquele capitão terráqueo era louco ou o quê?”, Neyffe resmungou, mentalmente, ao ver as serpentes de plasma mortal que quase reduzirem o cargueiro a poeira cósmica.
– Todas as naves: parada total!! – Ordenou e a nave sofreu um leve estremecimento ao ser obrigada a parar bruscamente.
– Eles podem ter errado de propósito ou não. - Dugall comentou, olhando para a imagem das naves terrestres. - De qualquer forma, acho que não teremos tanta sorte da próxima vez...
Neyffe suspirou; seu velho amigo tinha razão.
– Abra uma linha com o encouraçado solar. – Dirigiu-se ao oficial de rádio.
A conexão não demorou mais que seis segundos e a imagem da ponte do encouraçado terrestre surgiu na tela.
– Obrigada por atender nosso pedido para parar! – o sorriso irônico da capitã solar encheu a ponte.
– Sou o major Neyffe, comandante da Sol de Phrianmo – Dirigiu-se ao telão, seus olhos fuzilavam o rosto da terráquea.
– Sou a capitã Benedita Bueno, comandante do Encouraçado Espacial Anhanguera, da República Federal da Terra. Bom... creio que o senhor já sabe, mas vou repetir: vocês invadiram o espaço territorial da Terra e seria bom se nos dissessem quais são suas intenções.
– Perdoe-nos por invadirmos seu espaço territorial, capitã. Acontece que fizemos vários saltos nos últimos dias e nossas tripulações estão exaustas. Pedimos permissão para permanecermos no Sistema Solar até que possamos efetuar outro salto.
– Se é só isso, porque não parou quando suas telas nos detectaram? Por que a pressa, major?
– Por prudência. Veja; somos um comboio de colonização e temos sofrido diversos ataques de espécies hostis nos últimos dias...
– Então, quer dizer que naqueles cargueiros há pessoas? – A capitã terráquea pareceu surpresa.
– Queria aproveitar, capitã, para fazer um pedido formal de refúgio. Como lhe disse, sofremos muitos ataques e somente por sorte não perdemos nenhum dos cargueiros. Mas, como pode ver, pelos nossos cascos, estamos nos limites de nossas defesas. Tudo que peço é que dêem refúgio à minha gente, liberando-me para ir buscar reforços em nosso mundo natal.
– Entendo! Por favor, aguarde.
A imagem da terráquea desapareceu da tela. Neyffe imaginou que ela estivesse conferenciando com seus oficiais. Minutos depois, seu rosto reapareceu.
– Bem... Irei informar o Comando Central de sua solicitação e, como vocês não irão a lugar algum enquanto esperamos a resposta, preparem-se para serem inspecionados. Começaremos pelo cargueiro Numero Um! É isso...Fim de transmissão.
A tela principal da Sol de Phrianmo voltou a exibir o espaço cósmico.
– Prepare um transporte; irei ao cargueiro Numero Um. – Neyffe ordenou, preparando-se para sair da ponte.
– Por que? – Dogall inquiriu assim que ele passou pelo veterano.
– E por que seria se não para conhecer nossa adorável capitã solar? – Ironizou.
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– Recebendo confirmação de que o comboio de Phrianmo está no Sistema Solar, senhor!
Ao ouvir o informe, o general Vorgrn voltou sua atenção para a tela principal, onde era exibida uma imagem, em tempo real, da formação de naves phrianmoenses e terrestres.
– Parece que o destino resolveu nos presentear. Não acha, coronel?
Suas palavras eram dirigidas a um homem, aparentando estar na casa dos quarenta, que se aproximava. Em sua mão, estava uma pequena folha de plástico.
– E este presente fica melhor a cada instante, general! Junto com a confirmação da posição do comboio recebemos uma mensagem codificada de nosso agente informando a posição de nosso alvo.
– Como disse antes; um presente magnífico. – Um brilho de satisfação passou pelos olhos do general. – Envie um grupo de abordagem e capturem-no!
– Sim, senhor! – O coronel fez uma mesura e se aproximou de um console.
Minutos depois, dois encouraçados e cinco destróieres abandonaram a formação que a frota mantinha próxima a nuvem de Oerth. Segundos depois, desapareceram no hiperespaço.



CONTINUA EM 30 DIAS.

Um comentário:

  1. Massa! Está bem interessante, não me deixa entediado. Sua forma de escrita é muito legal.

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