BATALHA NO ESPAÇO

SEGUNDA PARTE
– Salto completado, senhor. – O navegador comunicou assim que Neyffe abriu os olhos; definitivamente não gostava de saltos hiperespaciais.

– Estamos na orla do Sistema Solar.
Durante aquela viagem haviam sofrido vários ataques e restaram apenas cinco belonaves, mas pelo menos nenhum dos transportes tinha se perdido. Porém, com apenas cinco naves e tripulações a beira da exaustão, ele sabia que não poderia proteger os comboios. Ele precisava urgentemente de um lugar para deixá-los e Sistema Solar era o sistema habitado mais próximo.
Claro que outro fator que o fez procurar aquele sistema era o fato dos nativos do terceiro planeta terem sustentado uma guerra contra os vhannyres por dez anos. Neyffe contava com a inimizade entre os solares e o império para conseguir a cooperação dos nativos.
– Detectamos várias naves a 15.000 km de distância. Pelos registros, são naves de design solar. E estão pedindo nossa identificação, senhor.
Neyffe olhou para as silhuetas das belonaves, que eram exibidas no painel de vídeo principal.
– O que vamos fazer, major? – um homem de idade próxima à aposentadoria aproximou-se, sua face exibia uma cicatriz que dividia a bochecha direita em duas.
Voltou-se para o navegador – À frente, a toda velocidade!
********************
– São onze cargueiros, quatro cruzadores e um encouraçado. – A identificação das naves foi dada assim que suas silhuetas se tornaram estáveis no espaço comum. – Suas configurações apresentam semelhança com antigas classes de astronaves vhannyres.
Benedita sentiu um aperto no coração; será que os vhannyres haviam decidido reiniciar a guerra? Passados seis meses da batalha de Saturno, a Terra não havia se recuperado inteiramente. Em meio a tantas dificuldades, o reaparelhamento da Marinha de Guerra não foi uma das prioridades.
– Pela quantidade de cargueiros eu diria que é uma frota de abastecimento. Eles podem ter efetuado um salto mal calculado...
– Pode ser. Mas não podemos nos arriscar, Ivan. Além do mais, eles não estão parando. Todas as naves, alerta vermelho!
Ao mesmo tempo, a sereia ecoou por todo o Anhanguera anunciando a batalha eminente.
– Nós vamos enfrentá-los? Olha só o estado daqueles cruzadores! Não terão a mínima chance. É incrível que ainda estejam voando...
O oficial de armas não exagerava; todas as belonaves traziam os cascos chamuscados. Marcas mais que evidentes que haviam passado por mais de uma batalha antes de chegarem ao Sistema Solar. Era nítida a impressão de que estavam nos limites de suas forças.
Aquela observação fez com que uma dúvida se alojasse no coração de Benedita. Decidiu apostar na dúvida.
– Abra todos os canais, Storino – Ordenou. – Aqui é RMS Anhanguera, da Marinha Espacial da Republica Federal da Terra, vocês estão invadindo o espaço territorial terrestre, identifiquem-se!
Segundos se passaram.
– Sem resposta, capitã! Transmitimos em todos os canais, mas não obtivemos resposta. Só podem estar nos ignorando.
– Estão se movendo! – O operador de radar noticiou no mesmo instante.
Todos na ponte voltaram seus olhares para a capitã.
– Preparar para disparar! Hassan; disparo de advertência, o mais próximo possível do encouraçado.
*********************
– Não acho uma boa idéia ignorarmos as naves solares, Neyffe. – O velho general Dugall tentava persuadir seu comandante.
– Estas naves podem ou não podem ser das Forças de Sol Três. Não podemos nos arriscar a cair numa emboscada criada por corsários do império. Sem contar que nossas reservas de energia estão no fim, nem sei se conseguiremos dar mais um salt... – Neyffe não completou a frase.
– Couraçado Solar abriu fogo! – O radarista gritou.
Numa fração de segundo depois, os feixes luminosos dos disparos cortaram o caminho do encouraçado. Era nitidamente um tiro de advertência, mas o conhecimento do fato não diminuía a tensão sentida por todos na ponte.
– Droga!! – Neyffe vituperou. – Mantenham o curso! Diga aos cruzadores que assumam posição de defesa e informe aos cargueiros que assim que estiverem prontos, devem saltar. – Distribuiu as ordens. Se fosse preciso ele enfrentaria as naves e ganharia tempo para os cargueiros.
– Nave Solar disparou novamente...
Mais um disparo de advertência, pensou. E como o outro, seria ignorado.
– ...alvo: cargueiro numero um! – a voz do tripulante saiu trêmula.
– Pelo Supremo!! – O jovem oficial exclamou antes de seu coração gelar.
***********************
Apesar do disparo de advertência, a frota desconhecida continuava avançando. Benedita resmungou duvidando da sanidade do comandante alienígena. Eles optavam por ignorar as naves e simplesmente avançavam, oferecendo seus flancos para os canhões das naves da Terra. Ou, seus olhos estreitaram-se, não ofereciam tanto assim.
O encouraçado permanecia à frente, mas os cruzadores se deslocavam cobrindo os flancos dos cargueiros. Seja o que for que estivessem transportando, as tripulações daquelas naves pareciam dispostas a não deixarem os cargueiros sofrerem dano. Nem que precisassem se sacrificar como escudo.
Um sorriso malicioso formou-se nos lábios da capitã; descobrira como fazer a frota invasora parar sem ter que destruí-la.
– Prepare para disparar outro tiro de advertência, Hassan. O alvo é o primeiro cargueiro do comboio. Quero que você dispare o mais perto que puder. Pode chamuscar a pintura, mas não deve atingi-lo. – Seus olhos brilharam. – Quero ver se eles não vão parar.
– Sim senhora. – O oficial respondeu. – Torre A, preparar para disparar; advertência. Alvo; cargueiro número um – As têmporas de Hassan umedeceram e gotículas de suor brilharam em sua testa, aquele seria o disparo mais preciso que já executara em sua vida. – Vertical; 12º positivo, Horizontal; 06º negativo, Fogo!!!
Os canhões despejaram seus jatos mortais de plasma, que atravessaram o negror espacial, iluminando um dos cruzadores inimigos e resvalando no casco do cargueiro; tão perto que a pintura ferveu e se liquefez.
A frota desconhecida parou.
Benedita sorriu de satisfação.
– Meus parabéns, Hassan; foi um belo tiro! - Elogiou o oficial de armas, que tirava o suor de sua testa após ter soltado um longo suspiro de alivio. – Storino, comunique-lhes que o próximo não vai apenas arrancar a pintura e...
– Comunicação chegando, capitã! – O radialista interrompeu-a.
O sorriso aumentou na face da capitã terráquea – Ficaram ansiosos para conversar? Huh! Na tela...
A grande tela principal tremeluziu e trocou a imagem do comboio alien pela de um homem de tez azul que se mostrava nitidamente irritado.
***********************
“Aquele capitão terráqueo era louco ou o quê?”, Neyffe resmungou, mentalmente, ao ver as serpentes de plasma mortal que quase reduzirem o cargueiro a poeira cósmica.
– Todas as naves: parada total!! – Ordenou e a nave sofreu um leve estremecimento ao ser obrigada a parar bruscamente.
– Eles podem ter errado de propósito ou não. - Dugall comentou, olhando para a imagem das naves terrestres. - De qualquer forma, acho que não teremos tanta sorte da próxima vez...
Neyffe suspirou; seu velho amigo tinha razão.
– Abra uma linha com o encouraçado solar. – Dirigiu-se ao oficial de rádio.
A conexão não demorou mais que seis segundos e a imagem da ponte do encouraçado terrestre surgiu na tela.
– Obrigada por atender nosso pedido para parar! – o sorriso irônico da capitã solar encheu a ponte.
– Sou o major Neyffe, comandante da Sol de Phrianmo – Dirigiu-se ao telão, seus olhos fuzilavam o rosto da terráquea.
– Sou a capitã Benedita Bueno, comandante do Encouraçado Espacial Anhanguera, da República Federal da Terra. Bom... creio que o senhor já sabe, mas vou repetir: vocês invadiram o espaço territorial da Terra e seria bom se nos dissessem quais são suas intenções.
– Perdoe-nos por invadirmos seu espaço territorial, capitã. Acontece que fizemos vários saltos nos últimos dias e nossas tripulações estão exaustas. Pedimos permissão para permanecermos no Sistema Solar até que possamos efetuar outro salto.
– Se é só isso, porque não parou quando suas telas nos detectaram? Por que a pressa, major?
– Por prudência. Veja; somos um comboio de colonização e temos sofrido diversos ataques de espécies hostis nos últimos dias...
– Então, quer dizer que naqueles cargueiros há pessoas? – A capitã terráquea pareceu surpresa.
– Queria aproveitar, capitã, para fazer um pedido formal de refúgio. Como lhe disse, sofremos muitos ataques e somente por sorte não perdemos nenhum dos cargueiros. Mas, como pode ver, pelos nossos cascos, estamos nos limites de nossas defesas. Tudo que peço é que dêem refúgio à minha gente, liberando-me para ir buscar reforços em nosso mundo natal.
– Entendo! Por favor, aguarde.
A imagem da terráquea desapareceu da tela. Neyffe imaginou que ela estivesse conferenciando com seus oficiais. Minutos depois, seu rosto reapareceu.
– Bem... Irei informar o Comando Central de sua solicitação e, como vocês não irão a lugar algum enquanto esperamos a resposta, preparem-se para serem inspecionados. Começaremos pelo cargueiro Numero Um! É isso...Fim de transmissão.
A tela principal da Sol de Phrianmo voltou a exibir o espaço cósmico.
– Prepare um transporte; irei ao cargueiro Numero Um. – Neyffe ordenou, preparando-se para sair da ponte.
– Por que? – Dogall inquiriu assim que ele passou pelo veterano.
– E por que seria se não para conhecer nossa adorável capitã solar? – Ironizou.
*********************
– Recebendo confirmação de que o comboio de Phrianmo está no Sistema Solar, senhor!
Ao ouvir o informe, o general Vorgrn voltou sua atenção para a tela principal, onde era exibida uma imagem, em tempo real, da formação de naves phrianmoenses e terrestres.
– Parece que o destino resolveu nos presentear. Não acha, coronel?
Suas palavras eram dirigidas a um homem, aparentando estar na casa dos quarenta, que se aproximava. Em sua mão, estava uma pequena folha de plástico.
– E este presente fica melhor a cada instante, general! Junto com a confirmação da posição do comboio recebemos uma mensagem codificada de nosso agente informando a posição de nosso alvo.
– Como disse antes; um presente magnífico. – Um brilho de satisfação passou pelos olhos do general. – Envie um grupo de abordagem e capturem-no!
– Sim, senhor! – O coronel fez uma mesura e se aproximou de um console.
Minutos depois, dois encouraçados e cinco destróieres abandonaram a formação que a frota mantinha próxima a nuvem de Oerth. Segundos depois, desapareceram no hiperespaço.



CONTINUA EM 30 DIAS.

Lançamento HQNADO



Clique na IMAGEM para ACESSAR!

Lançamento Núcleo Quadrinhos


Clique na IMAGEM para ACESSAR!

Dylan Dog: o detetive do pesadelo

Por Caio Luiz

http://www.bigorna.net/

Um grito emana do interior da ostentosa mansão. É noite. A bela mulher de cabelos negros se apóia na porta do corredor principal, ofegante. Traja somente a camisola transparente e calcinha. Olha por cima do ombro esquerdo, põe a mão no pescoço e pensa “meu Deus!”. Sua expressão denuncia o pavor que acelera o coração e a faz entrar em desespero, ao forçar a maçaneta, enquanto o vulto a persegui-la se aproxima a passos vagarosos, que só aumentam a tensão.

Ela torce e implora para que a porta abra, mas parece emperrada. Se tremesse menos seria mais fácil destrancá-la. Mesmo sem olhar para trás, pode sentir as mãos pálidas se aproximando. Finalmente a pesada porta de madeira cede e é possível ir para o outro lado. Infelizmente, o horror não teria fim. Uma das mãos se mete pela fresta e a arranha com vigor. É correr ou morrer.

Se alcançar o telefone ainda haverá chances de sobreviver. O vento gelado vindo de fora deixa a mostra os seios da vítima, que avança descuidadamente e tropeça no carpete. Ao cair, bate a cabeça em um dos móveis e desmaia por alguns segundos. Quando acorda, se depara com o marido tentando arrancar um pedaço de sua canela com os dentes... Assim começa a primeira edição de Dylan Dog, personagem criado em 1986 por Tiziano Sclavi. O escritor foi responsável por uma das mais célebres publicações da editora italiana Bonelli Comics, conhecida pelos títulos Tex, Mágico Vento, Nick Raider, Martin Mystère, Zagor, Dampyr e Mister No.

A história de 24 anos atrás já apresentava os elementos que tornariam a série popular o suficiente para vender um milhão de cópias por mês, o que é espantoso para qualquer gibi. O clima noir proporcionado pelo preto e branco, com moças sempre a visitar o escritório do detetive particular conquistador, sempre foi uma fórmula certeira de sucesso, mas a inovação estava no tipo de caso em que o investigador trabalharia.

Por exemplo, continuando com a história da mulher perseguida, ela se desvencilha do marido, se tranca no banheiro e, em seguida, o mata com um golpe de tesoura nos olhos. O problema é que ele já estava morto. Quem no mundo você procuraria para resolver algo do tipo? Pois é, Dylan Dog, o detetive do pesadelo. Por cinquenta libras esterlinas ao dia, mais despesas, ele topa averiguar o acontecimento mais distante da realidade possível. A própria Morte (a entidade mesmo!) em um bizarro encontro em que jogava xadrez com um indivíduo prestes a falecer, o definiu como um surpreendente e involuntário catalisador de fenômenos paranormais.

Voltando a historia, Sybil, a mulher ameaçada pelo cônjuge zumbi, se dirige a Craven Road, nº 7, na cidade de Londres, Inglaterra, e aperta a campainha para ouvir o toque mais esquisito de todos os tempos, “Uaaarrgh!”, um baita grito de horror. Quem deveria abrir a porta para atender a possível cliente? O mais lógico seria o próprio detetive. Mas essa é grande qualidade da revista. A obviedade fica para segundo plano. Quem recebe a linda viúva é ninguém menos que Groucho Marx em pessoa, na verdade um sósia do expoente da comédia estadunidense, bastante famoso na primeira metade do século XX com seus óculos de aros arredondados, bigode e sobrancelhas grossas, sempre com um charuto no canto da boca. Groucho é uma espécie de mordomo-assistente de Dylan que o acompanha sempre disposto a fazer anedotas, por vezes cretinas ou geniais, e que carrega o revólver antiguíssimo, peça de museu pra valer, que os salvou de diversos encontros perigosos com mortos-vivos, assassinos em série, lobisomens, vampiros e etc.

Após se livrar do inconveniente mordomo, Sybil se depara com o homem que procurava. Ele tem trinta e pouco anos, usa calça jeans, botas cano longo, camisa vermelha com as bordas das mangas engolindo o terno preto. Se parece tremendamente com Rupert Everett, aquele cara que interpreta o amigo gay da Julia Roberts no Casamento do Meu Melhor Amigo, e tem os cabelos mais bagunçados do reino da Rainha Elizabeth II. Ele a conduz por corredores repletos de suvenires que rementem a casos assombrosos do passado ou simplesmente são decorações de mal gosto.

Então, ela descreve detalhadamente o caso enquanto assiste o homem misterioso montando um galeão em miniatura para organizar melhor os pensamentos. Ao terminar, percebe que Dylan é alguém cheio de hábitos inusitados. Ele passa a tocar clarinete para prolongar o processo de reflexão e depois a canta, na cara larga, roubando um beijo da mulher sem reação. Não demoraria muito, em mais algumas páginas, o Sr. Dog seria praticamente transportando para o filme “Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero, com o assistente e a nova amante. O leitor se deleitaria com cenas angustiantes de zumbis fechando o cerco, prestes a devorá-los, enquanto tentam impedir que principal algoz de Dylan, o Dr. Xabarás, os zumbifique e alastre um vírus letal em busca da imortalidade.

Ler Dylan Dog é se deixar entrar em um espiral surreal que se afunila num condensado de horror com humor e sexo no melhor de estilo italiano. A Bonelli é especialista em transformar gêneros manjados em séries bacanas como, por exemplo, as histórias policias de Nick Raider, no melhor estilo Máquina Mortífera, ou Nathan Never, título de ficção científica inspirado em Blade Runner. Contudo, o autor Tiziano empregou a técnica de personagens no gênero de terror que, geralmente, não foca em protagonistas e sim no horror em si como o principal e o desenvolveu com grandiosidade e riqueza de detalhes, o inserindo nas situações mais escabrosas e inimagináveis.

O suspense, as tiradas cômicas, a violência explícita e insinuações sexuais estão presentes em boa parte das produções de horror, não importa para qual mídia seja feita. Afinal, elas são atrativos reconhecidos que garantem vendagem, mas a graça e criatividade estão na maneira como os elementos mencionados são mero pano de fundo para tramas engenhosas, com respiros bem calculados entre eles, que provocam o fascínio pelo personagem.

Confira algumas das características marcantes do investigador: Dylan Dog já trabalhou para a Scotland Yard no passado, mas largou o emprego para se dedicar ao trabalho de investigar pesadelos, o que é visto com maus olhos por toda a sociedade londrina, que o considera um charlatão de marca maior. É vegetariano, abstêmio - depois de ter controlado o alcoolismo - sofre de complexo de Édipo, tem fobia de altura, morcegos e não consegue ter relacionamento estável com mulher alguma. Elas acabam morrendo ao longo da edição ou desistindo do detetive, que invariavelmente está na pindaíba e desconhece como irá pagar as contas do mês até alguém fazer soar a estrondosa campainha com um novo mistério a ser solucionado. Assim, Dylan entra em seu fusca branco com a emblemática placa DYD 666 e o vemos dobrar a esquina em direção ao pesadelo.

Dylan em terras tupiniquins

Lembro bem do mês de outubro de 2001. Tinha 15 anos, pouquíssimo contato com a internet, que estava a toda, e estava fascinado com minha mais nova aquisição, a primeira edição da série de seis volumes que a Conrad Editora publicaria até abril do ano seguinte. A coleção fora selecionada pelo próprio Sclavi como introdução perfeita ao personagem e teve todas as capas refeitas pelo artista Mike Mignola, criador de outra grande obra do horror, Hellboy.

Saí da escola sem sequer ter noção do que estava prestes a ler. Comprei o gibi no intervalo de um período letivo para outro porque a arte da capa me fisgou de longe, mesmo que um pouco escondida na prateleira inferior da banca de jornal. O preço era R$ 4,50. Deixei de ir ao cinema com meus amigos que acharam minha compra o maior desperdício de dinheiro. Comecei a leitura no ônibus de volta para casa e soube em questão de minutos que teria todas as edições daquela publicação.

Fui descobrir que Dylan Dog já foi lançado antes disso no Brasil, na mesma ordem que na Itália, pela Record de 1991 a 1992. Infelizmente foram só 11 volumes, difíceis de encontrar em sebos e um especial com a parceria de Dylan com Martin Mystère, o detetive do impossível, e outro especial solitário. Em 1993, uma coletânea intitulada Fumetti reuniu histórias de personagens italianos, entre elas, umas das poucas do detetive do pesadelo em cores com 18 páginas, sendo que a média de páginas é quase cem por história.

Fiquei desolado ao perceber que seria quase impossível conseguir as edições mais antigas. Porém, no início de uma noite de agosto de 2002, tomei um susto agradável na banca de jornal de um supermercado. A Mythos Editora retomava a série mensal, não na sequência produzida no país de origem, mas não importava porque cada história é praticamente independente da outra. Seriam quatro anos acompanhando regularmente o Sr. Dog nas bancas até o cancelamento. Foram 40 edições. Eu já tinha 20 anos, barba na cara, e fiquei louco da vida como se ainda tivesse 15 anos.


Curtas, Notas e Afins – A Missão...

- Véspera de Feriado Municipal – Consciência Negra – aliás, que raio de feriado é esse que cai no sábado? Minha intenção era fazer um post deste por semana, mas fazemos planos e o destino ri deles. Mas, enfim...

- O quadrinhista mineiro Wellington Santos, autor das HQs do herói urbano Vulto, concede entrevista exclusiva para o Impulso HQ e fala sobre sua trajetória, o mercado de quadrinhos e futuros projetos. Alias o Impulso HQ é um dos melhores sobre gibis que conheço, vale a pena acompanhar.

- Já que estamos indicando sites, aqui vai mais um: Maximum Cosmo onde Alexandre Lancaster, diariamente discute o cenário dos mangás e seu reflexo pelo mundo. Site indispensável para se descobrir que mangá é muito mais que olhos grandes e boca pequena. O cara indica obras fabulosas que devem ser lidas por todos os amantes do bom quadrinho. Também há uma entrevista dele no Ambrosia. Confiram!

- O Interstella RPG está convidando escritores para colaborarem para mais um numero do e-book gratuito “Crônicas da Dispersão, com histórias ambientadas no cenário. Os interessados é só entrarem no site e verem como participar. Vale a Pena!

- Falando em contos. Semana que vem teremos mais um capitulo da “Ultima Batalha em Brumus”. A capitã Julia Parlino ficara frente a frente com seu suposto inimigo. Alias, obrigado a todos pela ótima recepção da fanfic. Um agradecimento especial ao Joe de Lima por ter comentado, valeu Joe!

- Conforme vou postanto os capítulos do UBB já estou preparando a próxima leva de contos que o substituíra. Finalmente irei lançar meu universo de heróis, o ParaVerso e vocês nunca viram nada igual. Uma coisa totalmente nova, inovadora e diferente. Brincadeira gente! Só prometo tentar fazer algo legal. O primeiro conto já está na fase de correção.

- E falando em universos de heróis o Núcleo Quadrinhos vem publicando o novo universo de heróis da Excelsior Quadrinhos. Dois, dos três números lançados trazem heróis já conhecido deste que vos fala.

- Rasga-Mortalha: simpatizo-me com a personagem – o típico vigilante noturno urbano no melhor estilo Batman, mas bem que podiam ter escrito uma história nova pra ela. Esta mesma aventura foi publicada na HQNADO 05 – não lembro se em cores ou P&B. Carlos Henry usou o clichê usado ad nausem pelos roteiristas nacionais; A vitima indefesa encurralada num beco – pelo menos aqui não era o velho mulher sozinha vs estupradores. Ele intercala a ação com cenas do passado de Rasga-Mortalha, que supostamente deveriam explicar os motivos que a levaram a ser uma vigilantes, assim imagino eu. Mas esse recurso só deixa a história truncada e não leva a lugar nenhum porque os flashbacks são irrelevantes para a história e para o leitor.

- Panteão: outra história reaproveitada do site HQNADO escrita por Carlos Henry que até agora não se mostrou capaz de escrever HQs de super-heróis. Sinto muito cara!

- Alma: história inédita, acho, de Alexandre Lobão e Carlos Henry. Começamos com uma igreja em cima de vários prédios e um padre tendo pesadelos que devem nos mostrar cenas de sua vida passada. Depois já somos apresentados a sua forma heróica e então vem a decepção: nosso herói das trevas vai lutar contra um bando de ladrões de banco sem poderes nenhum. Qualé gente custa criar vilões decentes para seus heróis? A intenção aqui foi criar um personagem que fica filosofando consigo mesmo. Infelizmente temos conversa demais e ação de menos.

- O primeiro numero de um gibi deve trazer a origem de seus personagens – ou como se juntaram no caso de um grupo – e nem Rasga-Mortalha, Panteão e Alma fazem isso. Peguemos a estrutura dos três atos, o numero 1 corresponderia ao 1º Ato: Apresentação do personagem e seu mundo ordinário, apresentar o incidente motivador – geralmente o aparecimento do vilão , estabelecer a situação e o conflito, por fim concluir a história ou proporcionar um gancho para o 2º numero. Pegue qualquer mangá e leia a primeira história e verá o que digo.

- Outro problema, talvez o mais importante de todos é “Queremos trazer este tipo de HQ de super-herói de volta em HQs curtas de 10 à 12 páginas no máximo (...)”, vi muitos bons argumentos se tornarem péssimas histórias por causa dessa limitação insana. Porque insana? A segunda parte da frase nos dá a resposta: “(...), não se precisa de 22 páginas pra contar uma boa HQ, (...) Leiam Miracleman e Capitão Bretanha, dos ingleses e saberão o que digo.”, a pergunta aqui é: quem são os roteiristas de Miracleman e Capitão Bretanha mesmo? Se alguém aqui se julga no mesmo nível deles é melhor descer da mesa.

- Alias, se quiserem ver uma HQ de dez paginas que cumpre a missão da primeira história/primeiro numero de forma primorosa leiam Almanaque Meteoro de Roberto Guedes. Em dez paginas ele nos apresentou o personagem, o mundo ordinário, a origem de seus poderes e o vilão. Tudo de forma fluida e não forçada ou truncada.

- É, falei muita bobagem! Num esquentem, minha opinião vale tanto quanto a de qualquer um! É isso, fui!

- Atualizando: Tenho tweeter - acabei de fazer: http://twitter.com/admarius

BATALHA NO ESPAÇO

PRIMEIRA PARTE

Benedita Bueno segurou-se, como pode, nos braços de sua poltrona de comando. Os impactos dos mísseis, disparados pelos caças inimigos, reverberaram no casco da Cuzco. Mas o cruzador manteve-se firme.
– Todas as baterias, fogo!! - Gritou a plenos pulmões.
Imediatamente, os canhões antiaéreos entraram em ação e cinco caças transformaram-se em nuvens de gás incandescente no mesmo instante.
Ela esboçou um sorriso que logo se apagou quando um brilho ofuscante inundou a ponte; o destróier que acompanhava a belonave desaparecia em meio a uma explosão violenta. E somente graças aos absorvedores de inércia o Cuzco não adernara.
– Cruzador vhannyr a dois mil quilômetros! - O oficial de radar gritou, antecipando-se a pergunta de sua capitã. – Posição: 12º estibordo!
Benedita soltou um impropério.
– Onde estão nossos canhões?
– A caminho, senhora! – O artilheiro respondeu sem olhá-la.
As três torres duplas se movimentaram. Seu computador de combate fez os cálculos de alcance e trajetória. Suas câmaras foram municiadas e uma luz verde acendeu-se no painel do artilheiro.
– Baterias principais na posição de tiro, senhora!
– Fogo!!
As baterias do Cuzco entraram em ação e o cruzador inimigo transformou-se numa bola de chamas e destroços.
A euforia tomou conta do cruzador de patrulha e por um segundo a batalha foi esquecida; um segundo fatal.
O Cuzco adernou, como se tivesse recebido o coice de uma mula, e todos seus tripulantes foram arrancados de seus postos, sendo arremessados contra as paredes.
– Fomos atingidos! – Alguém gritou, olhando um painel, ao tentar se levantar. – Estamos perdendo pressão...
Era um aviso desnecessário, pois todos podiam ver as colunas de fumaça que se levantavam no espaço cósmico; estavam perdendo oxigênio e a pressão interna descia rapidamente.
– Isolem os compartimentos atingidos, temos que reest... - Benedita não conseguiu completar a ordem; um novo baque fez com que ela fosse arremessada para longe de seu assento; uma dor lacerante tomou conta de seu flanco, um anúncio de que várias costelas haviam se partido. Soltou um gemido.
Quando abriu os olhos, após morder os lábios para controlar a dor, pode ver a destruição que havia tomado conta da ponte do Cuzco. Uma visão que durou poucos segundos; um segundo impacto reverberou por toda a ponte e os tripulantes que ainda permaneciam em seus postos, ou tentavam ajudar seus companheiros, foram arremessados sobre os painéis.
Benedita tentava se levantar quando o solavanco jogou-a novamente ao chão. Ela gritou de dor e ódio ao sentir um painel, que se soltara, esmagar-lhe as pernas.
Não queria morrer ali, não como um rato preso numa ratoeira. A dor dilacerava sua mente e seus olhos se embaçavam por causa das lágrimas, sentia pouco a pouco a vida se esvaindo...
– A vidraça vai rompe... – Foi a ultima coisa que ouviu antes de mergulhar no aconchego da inconsciência.
******************
Benedita acordou sobressaltada.
Passou a mão sob o queixo suado e deslizou-a sobre um painel invisível na parede próxima à cama; uma vigia se abriu exibindo o negro estelar. De onde estava podia ver o Ville de Paris, uma belonave do mesmo tipo do Cuzco.
A Cuzco.
Ela havia assumido o comando do cruzador de batalha apenas duas semanas antes da batalha de Saturno. Uma batalha violenta onde as forças beligerantes perderam sessenta por cento de seus efetivos. Mas que teve como resultado a expulsão definitiva dos vhannyres do Sistema Solar. E eliminada toda e qualquer pretensão daquela raça alienígena sobre a Terra e seus planetas irmãos.
Naquela batalha, Benedita sentira medo pela primeira vez; não o medo que sentia ao ouvir o som dos bombardeios alienígenas sobre sua cidade. Mas o que sentia ao perceber que sua vida terminaria sem ter feito a diferença.
Ao acordar duas semanas depois, num hospital militar, percebera que havia conseguido uma segunda chance. Infelizmente não podia dizer o mesmo de sua nave e nem de sua tripulação. Fora ela, apenas três tripulantes sobreviveram à destruição do cruzador. E, quando soube, chorara todas as noites, sentia-se culpada; por ainda estar viva e tantas pessoas boas não.
Talvez este fosse um dos motivos que levara o almirante a lhe dar o comando do Anhanguera, ao invés de aceitar seu pedido de baixa.
“Você recebeu uma segunda chance e deve honrar seus companheiros mortos vivendo”, disse na ocasião.
– Capitã?! A senhora está aí?! - A voz do oficial de comunicação chegou até ela pelo intercomunicador.
– Pode falar, Storino - Benedita respondeu, sentando-se.
– Localizamos a Ibéria, senhora – Sua voz parecia excitada – E seria bom a senhora dar uma olhada...
– Certo! Já estou indo! - Deu fim a comunicação olhando em volta, à procura de seu uniforme.
*************************
– Capitão na ponte! – Alguém anunciou quando Benedita entrou e quem podia fez-lhe uma saudação. Antes de se sentar, ela olhou para o oficial de comunicação e este entendeu o que ele significava.
– As 16:30, horário de Brasília, os sensores do Hiei depararam-se com uma alta concentração de táquions a 280.000 quilômetros de Plutão – Ele iniciou o relato. – Ao se aproximar, identificaram a fonte como sendo de um aglomerado de destroços...
– As redondezas de Plutão foram palco de pelo menos duas grandes batalhas nos últimos dois anos. Estes destroços podem ser remanescentes destas batalhas... – Ela o interrompeu, enfadada.
– Foi o que o capitão LeMel também pensou, de início, mas uma sondagem precisa revelou que os mesmos eram recentes. E foi neste momento que ele decidiu contatar-nos. Já faz dez minutos que recebemos seu comunicado e as primeiras imagens...
– Ora. Então as mostre.
No mesmo instante, o visor principal deixou de exibir o espaço próximo e em seu lugar apareceu um emaranhado de aço retorcido e chapas de plastiaço flutuando a esmo. Ela se aprumou; em uma daquelas chapas via-se claramente a palavra "IBERIA" escrita na fonte padrão da Marinha Espacial da Terra. Benedita sentiu um leve tremor percorrer-lhe o corpo. Podia sentir a excitação tomando conta de si.
– Informe ao Hiei que mantenha posição. – Ordenou. – Avise ao Ville de Paris e ao Iroquois que devem saltar para as coordenadas do Hiei.
– Sim, senhora! - O oficial respondeu, voltando-se para seu equipamento.
Benedita deu um suspiro antes de pegar o intercomunicador. – Atenção todos os tripulantes; preparar para saltar!
Suas palavras ecoaram por todos os compartimentos do encouraçado.
******************
Os restos do que havia sido o cruzador de patrulha Ibéria permaneciam imóveis, tendo como pano de fundo os discos escurecidos de Plutão e seu satélite. A não menos que dois mil quilômetros de distância, luzes de taxiamento denunciavam a presença do destróier Hiei, que aguardava pacientemente a chegada de sua força tarefa.
Sua espera não foi longa.
O cruzador de batalha Iroquois foi o primeiro a sair do hiper-espaço. Em seguida, um leve tremeluzir anunciou a chegado do Anhanguera; o encouraçado surgiu a apenas mil quilômetros dos destroços. Cinco segundos depois, o Ville de Paris se fez presente.
Benedita dividia sua atenção entre a tela principal e a vidraça de vidrocarbono transparente que lhe dava uma panorâmica do espaço.
O Ibéria tinha partido da base naval da Lua com a missão de fazer um levantamento orbital dos planetas e luas mais distantes do sistema e pôr em suas órbitas satélites de rastreamento taquionico. Mas, cinco dias atrás, o cruzador parou de enviar sua mensagem regular para a Terra. Quase que imediatamente, uma ordem de busca foi expedida para as naves mais próximas.
Fazia 40 horas que a frotilha capitaneada pelo Anhangüera vasculhava o espaço entre Netuno e Plutão; uma busca infrutífera, até agora.
A capitã admitia que nunca dera a devida importância àquela missão; achava que era paranóia do Comando, pois o rádio do Ibéria poderia estar com problemas e o capitão Kurumada não achara necessário interromper seu trabalho. Agora, olhando para os destroços do cruzador, teve que admitir que o Comando não estava tão paranóico assim.
– A pergunta é: como e porque o Ibéria está destruído? – Perguntara mais para si do que para seus oficiais.
– O capitão LeMel se antecipou a nós e já está conduzindo as investigações para sabermos as causas do acidente. – O primeiro a falar foi Ivan Moraes, o oficial cientifico, um dos poucos tripulantes que tinha idade superior a de Benedita.
– Acidente?! – A voz indignada do oficial de armas, Hassan Mauhar, um jovem recém-saído da Academia, se fez ouvir. – Ela pode muito bem ter sido atacada. Lembre-se que ainda pode haver unidades vhannyres por ai...
– Como você pode ter certeza disso, meu jovem?
Benedita já havia passado por aquilo antes. Os dois iriam entrar numa discussão sem fim, cada um tentando prevalecer seu ponto de vista. Então, simplesmente ficou observando aquele contraste entre gerações.
Setenta por cento de sua tripulação eram de jovens como Hassan, idealistas e um tanto quanto precipitados. Faltava-lhes a experiência que oficiais como Ivan, e ela, possuíam.
De todos os danos que a guerra causa, o maior é a perda de material humano. Afinal, uma nave de guerra pode ser construída novamente, mas a experiência que um capitão deve possuir para comandá-la é irrecuperável.
– Acho que vocês terão sua resposta. - Ela encerrou a discussão, olhando para o oficial de rádio.
– O capitão LeMel já tem os resultados das análises. - Ele respondeu ao olhar dela. No mesmo instante, a figura do capitão do Hiei se materializou na tela principal.
– Então?! O que o senhor nos diz, capitão LeMel? – Benedita perguntou, após as saudações de praxe.
Do outro lado da tela o capitão parecia tenso – Tudo o que tenho a dizer, senhora, é que o Ibéria foi alvejado várias vezes antes de ser destruído...
O silêncio tomou conta da ponte do encouraçado terrestre. Benedita sentiu a mão suar. Hassam lançou um olhar de "eu não te disse?" para Ivan.
– ... por micrometeoritos!
Foi a vez de Ivan retornar o olhar de vitória para Hassan, que procurou disfarçar o embaraço.
– O senhor está querendo dizer que a destruição do Ibéria não passou de um acidente? Mas, como micrometeoritos puderam ultrapassar o campo de proteção do Ibéria? Ele não foi criado especificamente para bloqueá-los?
– Não sei dar esta resposta para a senhora! Mas, de acordo com nossas análises, vários destes objetos perfuraram o casco e atingiram o reator principal, ocasionando a destruição do Ibéria.
– Todas as naves da Terra são construídas com uma caixa preta, à moda dos aviões comerciais, que registra tudo o que acontece na ponte em som e imagem. Se conseguíssemos recuperá-la, poderíamos saber o que aconteceu – Hassam interveio.
– Então vamos procurar esta caixa! Comunique a todas as naves para que iniciem a busca! Obrigada, capitão LeMel.
– Por nada, senhora – O capitão do Hiei a saudou e desapareceu da tela principal.
– Um acidente. Quem diria... – Benedita murmurou antes de se levantar. – Bom... estarei em meu gabinete preparando um relatório para o comando. Assuma, senhor Ivan!
– Capitã!? – O radarista a chamou, impedindo que abandonasse a ponte – Estou captando flutuação no espaço-tempo!
Benedita voltou-se para vidraça. O característico tremeluzir, indicativo do local onde uma nave irá abandonar o hiperespaço, era visível a olho nu.

CONTINUA EM 30 DIAS.