Aline & Pastor da Noite

O que é?
Digital Gibi publicado no site Núcleo Quadrinhos. Com roteiro de Haeckel Almeida, arte de Tony Brandão e cores de Tony Brandão e Célio Cardoso.

Comento...

A Arte: O traço de Tony Brandão é competente. Os cenários são pouco detalhados e às vezes têm-se a impressão de que foram inseridos digitalmente, mas cumprem a função de situar a ação. As cores claras usadas por Brandão e Cardoso não deixam duvidas de que lemos uma história da Aline e não do Pastor da Noite.

O Roteiro: O roteiro pode ser dividido em duas partes: a História propriamente dita, da pagina 3 à 7, e o Epilogo, da pagina 8 à 10.
Na primeira parte o roteiro flui adequadamente, enxuto e eficiente. Temos até o emprego da regra não escrita para encontro entre heróis: “Quando dois heróis se encontram pela primeira vez, sempre devem lutar entre si!”. A agressão do Pastor pode parecer excessiva num primeiro momento, mas é totalmente condizente com o tipo de personagem: o anti-herói, justiceiro e solitário. Há um encerramento digno: a lição de moral na mocinha ingênua.
E então chegamos a ultima parte do roteiro, o epilogo. Lembram quando disse que esta é uma história da Aline, até porque seu nome vem na frente do titulo, então ela precisa terminar por cima em sua própria história e o Epilogo existe para cumprir essa função.
Primeiramente há que se notar que é um epilogo muito longo: 3 paginas! Lembre-se: a história acabou na pagina 7 com o ultimo quadro e a lição de moral do Pastor da Noite. Perceba que o Epilogo nada mais é do que um monólogo da Aline passando seu ponto de vista. Algo que ela poderia ter feito na própria história, talvez num clássico: discutem seus pontos de vista enquanto se esmurram! Ou apenas numa pagina a mais.
E a seqüência de quadros iniciais da pagina 8 serviriam perfeitamente para um epilogo, digamos, a contento ou até mesmo soberbo.
Mas esse nem é o problema com o epilogo; o problema é que, para fazer a visão de mundo de Aline prevalecer o roteiro precisou torcer a personalidade do Pastor da Noite, para que ele concordasse com ela ou formulasse algum tipo de desculpa. Imperdoável!

O Diálogo: Eles são econômicos e, o que é mais importante, todos os diálogos cumprem a função de avançar a narrativa. Nenhuma palavra ou frase é desperdiçada. Haeckel Almeida mostrou-se um excelente criador de diálogos, sabendo até mesmo quando não usá-los como na, já citada, seqüência inicial da pagina 8.

Aline: A personagem-titulo. Aline é uma adolescente de 16 anos que se parece com uma adolescente de 16 anos, ponto pro Brandão, e age com a inocência idealista de uma menina da mesma idade, ponto pro Almeida. Mas Aline não é apenas inocente ela é também sensual, uma sensualidade natural que apesar das roupas curtas, apelativas diriam alguns, não é vulgar. E esse é um ponto que deve ser ressaltado e valorizado, porque sensualidade é diferente de vulgaridade.

Pastor da Noite: Conduzido com esmero na primeira parte da HQ foi imensamente prejudicado no “Epilogo”. Onde seu arquétipo – o anti-herói justiceiro solitário - foi torcido, deixado de lado mesmo, para que a visão colorida da realidade de Aline prevalecesse. Justiceiros não conversam numa boa com garotinhas e não arrumam desculpas esfarrapadas para fazer o que fazem apenas para conseguir colo de uma menina de 16 anos (Epa!!). São ações atípicas e antinaturais para este tipo de personagem. Isso esta no próprio conceito do arquétipo anti-herói justiceiro.

Encerrando: Numa primeira leitura Aline & Pastor da Noite é um bom gibi, tanto pelos desenhos quanto pela história. A sensação de que alguma coisa não se encaixa só vem depois. Seria uma ótima HQ se não fosse o deslize no “epilogo”. Um epilogo deve ser breve, não mais que uma pagina numa HQ de 12 paginas. Como o desfecho foi muito longo, Haeckel Almeida deveria ter repensado a estrutura da história. Porque no fim a pergunta que fica é: Pastor da Noite deixara de ser um justiceiro a partir de agora?
Acredito que reescrever a essência do personagem não era a intenção do roteirista. Se era, conseguiu!

É isso!

2 comentários:

  1. Gostei muito da crítica camarada. Muito bem bolada, e tenho certeza que poucos parariam para refletir tanto à respeito.
    Quanto ao desenvolvimento do Pastor da Noite, quando eu comecei à escrever o pastor, eu sabia que era uma história que eu uma hora chegaria ao fim; o Pastor um dia vai acabar, e não sei se vai demorar muito pra isso, pq na história inicial do pastor, ele já é um cara no "fim" da carreira, totalmente cansado dos anos de luta, tanto, que ele nem liga mais pra valores... então, fica aí, a idéia, talvez, da reação do Pastor no final... quis mostrar justamente o conflito de um cara que está no fim dos seus dias de combate.

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  2. Obrigado por visitar este blog!
    Que bom que gostou da resenha, ela vale tanto quanto qualquer outra.
    Bem, minha analise foi feita apenas em cima do gibi em questão, tendo em vista o arquétipo usado pelo personagem. Foi com base nesse arquétipo que teci minhas criticas ao "epilogo" que passa a visão que você tem do personagem. Lembre-se que meu questionamento era: se essa era, realmente, a percepção que você queria passar?

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