BATALHA NO ESPAÇO

TERCEIRA PARTE

O transporte abandonou a proteção do hangar do encouraçado terrestre e imediatamente recebeu a escolta de dois caças.

Em seu interior, além de um grupo de marines sob o comando do sargento Ferrantti e de dois técnicos, estava a capitã-de-mar-e-guerra Benedita Bueno. Contra as recomendações de seus oficiais, a comandante do Anhanguera resolvera acompanhar o grupo de inspeção.

Benedita era do tipo que tinha que ver pra crer, então queria confirmar com os próprios olhos se aquele cargueiro estava cheio de colonos, e gostaria de conhecer o comandante phrionmoense, pois calculara que ele nunca deixaria uma de suas naves serem inspecionadas sem sua presença. Havia um outro motivo, também; nunca estivera a bordo de uma nave alienígena antes e não podia deixar passar a oportunidade.

– Estamos nos aproximando do cargueiro. – O piloto anunciou. – Iniciando procedimentos de acoplagem...

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A porta da sala de descompressão se abriu e os primeiros a saírem foram dois soldados, a julgar pelas vestes esverdeadas. Imediatamente, apontaram as armas para Neyffe e seus guardas; que, em resposta, apontaram as suas para as contrapartes terráqueas.

– Mas...o que pensam que estão fazendo?! – Uma voz feminina, porém forte e decidida, veio detrás dos soldados. – Abaixem a armas, imediatamente! Estamos aqui para uma inspeção e não para iniciarmos um tiroteio!

Os fuzileiros espaciais abaixaram suas armas e deram passagem a uma mulher, com o rosto visivelmente irritado.

A oficial terráquea teria, no máximo, a idade de Neyffe e sua pele bronzeada e os olhos verdes vividos contrastavam com os longos cabelos castanhos, que lhe caíam sobre os ombros. A princípio, parecia ter a mesma altura que ele, mas este engano logo foi desfeito ao notar os saltos altos das botas que usava.

Ao levantar os olhos, Neyffe espantou-se; o traje espacial dela, branco com detalhes em preto e azul, era extremamente justo, acompanhando as curvas do corpo. Seu único ornamento era o cinturão da arma que pendia de sua cintura.

Ele estava constrangido. Seus homens estavam constrangidos. Afinal, nunca viram uma mulher em trajes tão justos.

– Não seria melhor seus homens também abaixarem as armas, major? - ela se aproximou olhando por sobre os ombros de Neyffe.

Neyffe, tentando mostrar naturalidade, apenas fez um sinal e seus guardas abaixaram as armas. – Bem-vinda a bordo do cargueiro número um, capitã Benedita.

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Ao perceber os olhares, constrangidos, dos phrionmoenses sobre si, Benedita sorriu por dentro.

– Obrigada, major! – Agradeceu o cumprimento de Neyffe e apertou-lhe a mão. – Mas, não estou aqui para uma visita social, o senhor compreende...

A capitã calculou que a idade do major não devia passar a casa dos vinte e cinco anos terrestres e as marcas de uma vida sem despreocupação ainda eram percebidas em sua face. Era alguém que estava no comando de uma nave estelar, não por vocação ou por vontade própria, mas por forças das circunstâncias.

Sinceramente, ela não se impressionou com o jovem oficial phrionmoense. Somente admirava o esforço que ele fazia para não olhar seu corpo.

– Compreendo. – Neyffe respondeu, com enfado, e mostrou a saída. – Por aqui...

Todos abandonaram a sala e entraram em um corredor, mal iluminado, pintura desbotada e detritos pelos cantos, onde avançaram até outra porta. Neyffe abriu-a e deu passagem à comandante terráquea.

Benedita esforçou-se para que seu espanto não transparecesse.

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– Sabe... – Hassan pensou alto, contemplando os cargueiros. – A capitã se arrisca demais indo pessoalmente. Qualquer um de nós dois poderia comandar esta inspeção...

– Realmente, meu amigo. – Ivan se aproximou. – Mas ela é do tipo de pessoa que não se contenta apenas com um relatório, precisa conferir in loco...

– Pra mim, ela é apenas curiosa...

Os dois esforçaram-se para conter a gargalhada.

– Picos de táquions identificados à 12 000 km, 12º, bombordo. – A voz do oficial de radar retirou-os de seu momento de descontração. – Pelo menos sete objetos estão retornando ao espaço normal. Os sensores estão rastreando suas ident...

– Devem ser os reforços enviados pelo Comando Central. – Hassan interrompeu-o, relaxando-se ainda mais no assento.

– Improvável. – O radarista, irritado por ter sido interrompido, ironizou. - A não ser que nossa situação esteja tão desesperadora que estejamos reciclando destróieres e couraçados vhannyres...

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O choro cansado das crianças. Os lamentos dos idosos. A respiração arfada dos doentes. Famílias aglomeradas sobre trapos, envoltas pelo lixo, na semi-escuridão, com a desesperança em seus olhos.

Benedita sentiu a comoção percorrer-lhe o coração e sabia que o mesmo acontecia com seus homens; estava estampado nos olhos de cada soldado terrestre ali presente.

Era como se vissem as próprias lembranças. De uma época em que viviam como ratos, morando nos túneis de metrô, desesperados e assustados demais para chorarem, enquanto o inferno atômico devorava suas cidades e colônias.

– Este é Vroht, condestável dos civis desta nave. – Neyffe disse, apresentando um senhor na faixa dos 70 anos terrestres; seus olhos estavam fundos, e sua face cansada, e via-se claramente que não se alimentava direito havia vários dias.

– Vocês têm que nos ajudar!! – Vroht segurou os braços da terráquea. De seus olhos, escorriam lágrimas de desespero – Nossas crianças estão ficando doentes. Nossas mulheres não têm o que comer. Pelo Supremo, sejam piedosos...

– Senhor... eu... – Pega de surpresa, Benedita ficou sem reação observando o olhar desesperado do ancião.

– Chega, Vroht! – Neyffe afastou o alterado ancião – Este é um problema nosso. Eles não têm a obrigação de se envolver...

A capitã terráquea podia ver, em seus olhos, a resignação do major phrianmoense.

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– As naves vhannyres estão avançando em direção ao comboio. – O oficial de radar mantinha-se atento ao painel do radar, apesar da sereia de alarma ecoar por toda a ponte. – Indo, mais precisamente, na direção do cargueiro número um!

Naquele momento todos, na ponte, só tiveram um pensamento: a capitã!

Obviamente que aquele movimento não passaria desapercebido pelos phrianmoenses e logo o encouraçado e dois cruzadores se moveram numa tentativa de interceptar e impedir o avanço vhannyr.

Os cruzadores dispararam seus canhões, assim que se posicionaram entre os vhannyres e o cargueiro. Seus raios de morte cruzaram o espaço, atravessando a blindagem de um dos destróieres inimigos, que desapareceu numa nuvem de gás.

Em resposta, os encouraçados inimigos abriram fogo transformando em destroços o cruzador mais próximo e avariando seriamente outro; seus propulsores foram envolvidos pelas chamas.

Vendo a incapacidade de reação do inimigo às armas vhannyres, os couraçados iniciaram seu reposicionamento para dispararem o tiro de misericórdia. Um dos encouraçados atacantes nunca chegaria a disparar.

Vários disparos de plasma róseo atravessaram seu casco, fazendo-o se partir, transformando-se numa bola de luz e destroços que envolveram suas companheiras, cegando-lhes os sensores.

O encouraçado espacial conhecido como Sol de Phrianmo disparara...

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– Mas que...!? - Benedita exclamou ao sentir o casco do cargueiro, primeiramente vibrar e, depois balançar, como uma barcaça num mar revolto; a terráquea perdeu o equilíbrio é só não foi ao chão porque o sargento Ferrantti amparou-a com os braços.

– Sargento, obrigada! – Agradeceu ao se endireitar, voltando-se imediatamente para Neyffe. Ele, por sua vez, estava próximo a uma parede.

– ...estamos sob ataque de uma frotilha vhannyr, senhor... – Foi tudo o que ouviu antes da comunicação ser cortada.

Neyffe voltou-se para ela – Devemos ir à ponte!

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Os sensores das belonaves, ainda permaneciam cegos, quando quatro descargas energéticas romperam a bolha de claridade e cruzaram o espaço na direção do encouraçado phrianmoense. Felizmente a Sol de Phrianmo começara a se mover, procurando um melhor ângulo de disparo, e apenas um dos disparos atingiu-a, de raspão, volatizando duas baterias AA.

Toda esta ação foi presenciada pelas belonaves terrestres, que permaneciam impávidas em suas posições. Obedeciam às ordens de sua comandante, apesar do estado de nervos de suas tripulações. O desejo de auxiliar as naves phrianmoenses era vívido nas mentes dos capitães das astronaves terrestres e somente a disciplina e o respeito a ordens hierarquicamente superiores impediam que disparassem as armas.

– Comunicação chegando. – Storino anunciou, fazendo com que a tensão na ponte do Anhanguera aumentasse. – É a capitã!

O rosto, sério, de Benedita apareceu na tela principal. - Qual é a situação?

– Sete naves vhannyres saíram do hiperespaço, dois encouraçados e cinco destróieres, e avançaram diretamente para o cargueiro numero um, ignorando todos os outros. Destruíram um dos cruzadores phrianmoenses, no avanço, mas perderam um destróier e um couraçado, que foi atingido pela Sol de Phrianmo. – Ivan iniciou um resumo, preciso e conciso, dos fatos. – No momento estamos incapacitados de tomar uma ação ofensiva pois elas estão muito próximas do cargueiro e...

Ele calou-se; a imagem da ponte do cargueiro estremeceu e Benedita precisou firmar-se para não cair – Alguma coisa errada, capitã?

– Estão nos abordando... – Ela respondeu, olhando para o lado. - Fiquem preparados. Vocês saberão quando agir... – a imagem desapareceu.

Instintivamente todos se voltaram para a janela; a esfera de energia cegante, causada pela destruição do couraçado já se dissipara e a frotilha inimiga se mostrava. Um dos destróieres tinha avançado e estava acoplado ao cargueiro, próximo à proa.

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Na maioria das naves estelares as proas eram o local utilizado para os depósitos de armazenagem. Por ser um local hermeticamente fechado, era o local preferido por equipes de abordagem. A descompressão provocada pelo rompimento de casco, necessária para se penetrar à nave, não afetava a estabilidade estrutural da embarcação.

A única desvantagem era a demora em abrir as portas herméticas. Isto possibilitava a preparação da defesa pela tripulação, e a distância que a proa ficava da ponte de comando.

Neyffe estava consciente deste fato e iria aproveitá-lo.

– Mandem as mulheres e as crianças se refugiarem na popa. – Distribuía as ordens. – Ergam as barricadas e aqueles que puderem segurar uma arma devem ser armados...

– Meus homens irão ajudar, major. – Benedita se aproximou. O sargento Ferrantti bateu continência e desapareceu pela porta.

– Obrigado, capitã. Mas receio que tudo será uma questão de tempo. - Ele olhou pela vidraça, resignado - Estamos cercados pelos inimigos, nossas naves não podem agir sem nos destruir no processo. Podemos resistir a uma abordagem, mas eles simplesmente podem substituir uma nave por outra até cairmos...

– Salte! – Benedita interveio. – Ordene que o cargueiro salte, ele pode não? Assim sairemos desta ratoeira...

O phrianmoense sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo. O que ela pedia era loucura. Havia uma nave de 10.000 toneladas acoplada ao cargueiro e as máquinas de transposição não conseguiriam arrastá-la no processo. O saldo final daquela loucura seria a destruição de ambas as astronaves. Neyffe balançou a cabeça negativamente.

– O que temos a perder?! – ela fitou-o.

Em toda sua vida, o jovem phrianmoense nunca vira tamanha determinação e confiança como aquela que emanava dos olhos esverdeados da terráquea, que pareciam querer ler sua alma.

“Serão estes os olhos de um verdadeiro capitão de nave estelar?”, se indagou antes de decidir apostar na confiança de sua visitante.

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– Há uma alta concentração de taquions na posição do cargueiro número um! - O oficial de radar anunciou, fazendo com que todos se voltassem para o local onde a frotilha vhannyr se posicionava, ao redor do cargueiro phrianmoense.

As naves vhannyres se distanciavam do cargueiro; se mantivessem suas atuais posições, a distorção espaço-tempo, necessária para o salto hiperespacial poderia destruí-las ao tentar arrastá-las para o halo dimensional deixado pela nave no momento do salto.

– É loucura! – Hassan esbravejou. – Serão destruídos assim que entrarem no hiperespaço...

– Talvez não! Os niveis táquionicos do destróier, começaram a se elevar... Eles também irão saltar... - Apesar da notícia, a voz do radarista era tensa.

Durante uma fração de segundo, o tempo, naquele setor do espaço, pareceu congelar.

A tensão e a expectativa tomavam conta de todas as naves.

Durante esta fração de segundo, as duas naves tremeluziram e desapareceram num brilho fantasmagórico. Deixando atrás de si somente a dúvida quanto a seu destino.

CONTINUA EM 15 DIAS...

Feliz Natal!!!


Noite feliz! Noite feliz!
Ó Senhor, Deus de amor!
Pobrezinho nasceu em Belém;
eis, na lapa, Jesus, nosso bem:
dorme em paz, ó Jesus!
Dorme em paz, ó Jesus!

Noite feliz! Noite feliz!
Ó Jesus, Deus da luz!
Quão afável é teu coração
que quiseste nascer nosso irmão
e a nós todos salvar!
E a nós todos salvar!

Noite feliz! Noite feliz!
Eis que, no ar, vêm cantar,
aos pastores, os anjos do Céu,
anunciando a chegada de Deus,
de Jesus Salvador!
De Jesus Salvador!


Curtas, Notas e Afins – O Império Contra-Ataca!

- Yoh, Minna-san! Nossa, faz tempo que não uso este cumprimento! Bons tempos aqueles, mesmo não sentindo saudades. Quem vive de passado é museu! Começo estas notas com um pedido de desculpas e uma explicação.

- O pedido de desculpas vai para aqueles que estavam acompanhando a “Ultima Batalha em Brumus”. Desculpa pessoal, mas desisti de continuar essa história como um fanfiction de Patrulha Estelar. Lembram o que eu disse sobre museu – passado? Então, a novela continua, mas com uma ambientação original, “Batalha no Espaço”. Não deletei os capítulos já postados mas substitui-os pelos capítulos modificados. Peço que voltem a eles! Como forma de me redimir pretendo reduzir o tempo de postagem entre capítulos de 30 para 15 dias a partir da próxima postagem!

- A.D. Marius now Hadrian Marius. Hadrian Marius tem uma longa história na internet – está ligado a bons e maus momentos que passei em frente ao teclado. Agora ele retorna, após um ano de abandono, marcando uma nova fase em frente ao teclado. Não é um retorno ao passado, senão estaria contrariando aquele papo de museu-vive-passado, mas um novo começo, sem tentar esquecer o passado!

- Vamos em frente. Enquanto estive fora o Nucleo Quadrinhos teve dois de seus gibis indicados ou ganharam prêmios, O Cristal Manticore de Célio Cardoso e Aline e Pastor da Noite, de Haeckel Almeida e Tony Brandão. O segundo titulo já mereceu uma resenha da House e darei uma olhada no primeiro titulo. Acima de tudo, meus cumprimentos aos roteiristas e desenhistas e principalmente ao Gon por seu trabalho à frente da NHQ.

- Outro que merece meus cumprimentos é o Gratão com seu HQNADO e sua incansável saga do Observatório Lunar. Pena que ele agora coloca seus trabalhos no ISSUU! Oh Gratão, coloca uma opção praqueles que gostariam de ter os gibis do site em suas HDs!

- Comprei um e-reader ou leitor digital de livros eletrônicos da Gato Sabido. E é impressionante como o pessoal pega pesado com os e-reader. Colocam eles na mesma panela de um netbook. Quem quer um netbook, compre um netbook e passe raiva pensando que é um computador.

-Leitores digitais são para pessoas que adoram ler, simplesmente ler, nada mais que isso. Elas querem apenas ler, diminuir a quantidade de livros de papel na estante, ter à mão centenas de livros ao invés de levá-los num carrinho de mão.

- É incrível observar que as pessoas ainda estão passando por fases de aceitação de que os livros de papel estão indo embora. Dizem que gostam de sentir e cheirar os livros. Também passei por isto, mas já superei.

É isso!

BATALHA NO ESPAÇO

SEGUNDA PARTE
– Salto completado, senhor. – O navegador comunicou assim que Neyffe abriu os olhos; definitivamente não gostava de saltos hiperespaciais.

– Estamos na orla do Sistema Solar.
Durante aquela viagem haviam sofrido vários ataques e restaram apenas cinco belonaves, mas pelo menos nenhum dos transportes tinha se perdido. Porém, com apenas cinco naves e tripulações a beira da exaustão, ele sabia que não poderia proteger os comboios. Ele precisava urgentemente de um lugar para deixá-los e Sistema Solar era o sistema habitado mais próximo.
Claro que outro fator que o fez procurar aquele sistema era o fato dos nativos do terceiro planeta terem sustentado uma guerra contra os vhannyres por dez anos. Neyffe contava com a inimizade entre os solares e o império para conseguir a cooperação dos nativos.
– Detectamos várias naves a 15.000 km de distância. Pelos registros, são naves de design solar. E estão pedindo nossa identificação, senhor.
Neyffe olhou para as silhuetas das belonaves, que eram exibidas no painel de vídeo principal.
– O que vamos fazer, major? – um homem de idade próxima à aposentadoria aproximou-se, sua face exibia uma cicatriz que dividia a bochecha direita em duas.
Voltou-se para o navegador – À frente, a toda velocidade!
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– São onze cargueiros, quatro cruzadores e um encouraçado. – A identificação das naves foi dada assim que suas silhuetas se tornaram estáveis no espaço comum. – Suas configurações apresentam semelhança com antigas classes de astronaves vhannyres.
Benedita sentiu um aperto no coração; será que os vhannyres haviam decidido reiniciar a guerra? Passados seis meses da batalha de Saturno, a Terra não havia se recuperado inteiramente. Em meio a tantas dificuldades, o reaparelhamento da Marinha de Guerra não foi uma das prioridades.
– Pela quantidade de cargueiros eu diria que é uma frota de abastecimento. Eles podem ter efetuado um salto mal calculado...
– Pode ser. Mas não podemos nos arriscar, Ivan. Além do mais, eles não estão parando. Todas as naves, alerta vermelho!
Ao mesmo tempo, a sereia ecoou por todo o Anhanguera anunciando a batalha eminente.
– Nós vamos enfrentá-los? Olha só o estado daqueles cruzadores! Não terão a mínima chance. É incrível que ainda estejam voando...
O oficial de armas não exagerava; todas as belonaves traziam os cascos chamuscados. Marcas mais que evidentes que haviam passado por mais de uma batalha antes de chegarem ao Sistema Solar. Era nítida a impressão de que estavam nos limites de suas forças.
Aquela observação fez com que uma dúvida se alojasse no coração de Benedita. Decidiu apostar na dúvida.
– Abra todos os canais, Storino – Ordenou. – Aqui é RMS Anhanguera, da Marinha Espacial da Republica Federal da Terra, vocês estão invadindo o espaço territorial terrestre, identifiquem-se!
Segundos se passaram.
– Sem resposta, capitã! Transmitimos em todos os canais, mas não obtivemos resposta. Só podem estar nos ignorando.
– Estão se movendo! – O operador de radar noticiou no mesmo instante.
Todos na ponte voltaram seus olhares para a capitã.
– Preparar para disparar! Hassan; disparo de advertência, o mais próximo possível do encouraçado.
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– Não acho uma boa idéia ignorarmos as naves solares, Neyffe. – O velho general Dugall tentava persuadir seu comandante.
– Estas naves podem ou não podem ser das Forças de Sol Três. Não podemos nos arriscar a cair numa emboscada criada por corsários do império. Sem contar que nossas reservas de energia estão no fim, nem sei se conseguiremos dar mais um salt... – Neyffe não completou a frase.
– Couraçado Solar abriu fogo! – O radarista gritou.
Numa fração de segundo depois, os feixes luminosos dos disparos cortaram o caminho do encouraçado. Era nitidamente um tiro de advertência, mas o conhecimento do fato não diminuía a tensão sentida por todos na ponte.
– Droga!! – Neyffe vituperou. – Mantenham o curso! Diga aos cruzadores que assumam posição de defesa e informe aos cargueiros que assim que estiverem prontos, devem saltar. – Distribuiu as ordens. Se fosse preciso ele enfrentaria as naves e ganharia tempo para os cargueiros.
– Nave Solar disparou novamente...
Mais um disparo de advertência, pensou. E como o outro, seria ignorado.
– ...alvo: cargueiro numero um! – a voz do tripulante saiu trêmula.
– Pelo Supremo!! – O jovem oficial exclamou antes de seu coração gelar.
***********************
Apesar do disparo de advertência, a frota desconhecida continuava avançando. Benedita resmungou duvidando da sanidade do comandante alienígena. Eles optavam por ignorar as naves e simplesmente avançavam, oferecendo seus flancos para os canhões das naves da Terra. Ou, seus olhos estreitaram-se, não ofereciam tanto assim.
O encouraçado permanecia à frente, mas os cruzadores se deslocavam cobrindo os flancos dos cargueiros. Seja o que for que estivessem transportando, as tripulações daquelas naves pareciam dispostas a não deixarem os cargueiros sofrerem dano. Nem que precisassem se sacrificar como escudo.
Um sorriso malicioso formou-se nos lábios da capitã; descobrira como fazer a frota invasora parar sem ter que destruí-la.
– Prepare para disparar outro tiro de advertência, Hassan. O alvo é o primeiro cargueiro do comboio. Quero que você dispare o mais perto que puder. Pode chamuscar a pintura, mas não deve atingi-lo. – Seus olhos brilharam. – Quero ver se eles não vão parar.
– Sim senhora. – O oficial respondeu. – Torre A, preparar para disparar; advertência. Alvo; cargueiro número um – As têmporas de Hassan umedeceram e gotículas de suor brilharam em sua testa, aquele seria o disparo mais preciso que já executara em sua vida. – Vertical; 12º positivo, Horizontal; 06º negativo, Fogo!!!
Os canhões despejaram seus jatos mortais de plasma, que atravessaram o negror espacial, iluminando um dos cruzadores inimigos e resvalando no casco do cargueiro; tão perto que a pintura ferveu e se liquefez.
A frota desconhecida parou.
Benedita sorriu de satisfação.
– Meus parabéns, Hassan; foi um belo tiro! - Elogiou o oficial de armas, que tirava o suor de sua testa após ter soltado um longo suspiro de alivio. – Storino, comunique-lhes que o próximo não vai apenas arrancar a pintura e...
– Comunicação chegando, capitã! – O radialista interrompeu-a.
O sorriso aumentou na face da capitã terráquea – Ficaram ansiosos para conversar? Huh! Na tela...
A grande tela principal tremeluziu e trocou a imagem do comboio alien pela de um homem de tez azul que se mostrava nitidamente irritado.
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“Aquele capitão terráqueo era louco ou o quê?”, Neyffe resmungou, mentalmente, ao ver as serpentes de plasma mortal que quase reduzirem o cargueiro a poeira cósmica.
– Todas as naves: parada total!! – Ordenou e a nave sofreu um leve estremecimento ao ser obrigada a parar bruscamente.
– Eles podem ter errado de propósito ou não. - Dugall comentou, olhando para a imagem das naves terrestres. - De qualquer forma, acho que não teremos tanta sorte da próxima vez...
Neyffe suspirou; seu velho amigo tinha razão.
– Abra uma linha com o encouraçado solar. – Dirigiu-se ao oficial de rádio.
A conexão não demorou mais que seis segundos e a imagem da ponte do encouraçado terrestre surgiu na tela.
– Obrigada por atender nosso pedido para parar! – o sorriso irônico da capitã solar encheu a ponte.
– Sou o major Neyffe, comandante da Sol de Phrianmo – Dirigiu-se ao telão, seus olhos fuzilavam o rosto da terráquea.
– Sou a capitã Benedita Bueno, comandante do Encouraçado Espacial Anhanguera, da República Federal da Terra. Bom... creio que o senhor já sabe, mas vou repetir: vocês invadiram o espaço territorial da Terra e seria bom se nos dissessem quais são suas intenções.
– Perdoe-nos por invadirmos seu espaço territorial, capitã. Acontece que fizemos vários saltos nos últimos dias e nossas tripulações estão exaustas. Pedimos permissão para permanecermos no Sistema Solar até que possamos efetuar outro salto.
– Se é só isso, porque não parou quando suas telas nos detectaram? Por que a pressa, major?
– Por prudência. Veja; somos um comboio de colonização e temos sofrido diversos ataques de espécies hostis nos últimos dias...
– Então, quer dizer que naqueles cargueiros há pessoas? – A capitã terráquea pareceu surpresa.
– Queria aproveitar, capitã, para fazer um pedido formal de refúgio. Como lhe disse, sofremos muitos ataques e somente por sorte não perdemos nenhum dos cargueiros. Mas, como pode ver, pelos nossos cascos, estamos nos limites de nossas defesas. Tudo que peço é que dêem refúgio à minha gente, liberando-me para ir buscar reforços em nosso mundo natal.
– Entendo! Por favor, aguarde.
A imagem da terráquea desapareceu da tela. Neyffe imaginou que ela estivesse conferenciando com seus oficiais. Minutos depois, seu rosto reapareceu.
– Bem... Irei informar o Comando Central de sua solicitação e, como vocês não irão a lugar algum enquanto esperamos a resposta, preparem-se para serem inspecionados. Começaremos pelo cargueiro Numero Um! É isso...Fim de transmissão.
A tela principal da Sol de Phrianmo voltou a exibir o espaço cósmico.
– Prepare um transporte; irei ao cargueiro Numero Um. – Neyffe ordenou, preparando-se para sair da ponte.
– Por que? – Dogall inquiriu assim que ele passou pelo veterano.
– E por que seria se não para conhecer nossa adorável capitã solar? – Ironizou.
*********************
– Recebendo confirmação de que o comboio de Phrianmo está no Sistema Solar, senhor!
Ao ouvir o informe, o general Vorgrn voltou sua atenção para a tela principal, onde era exibida uma imagem, em tempo real, da formação de naves phrianmoenses e terrestres.
– Parece que o destino resolveu nos presentear. Não acha, coronel?
Suas palavras eram dirigidas a um homem, aparentando estar na casa dos quarenta, que se aproximava. Em sua mão, estava uma pequena folha de plástico.
– E este presente fica melhor a cada instante, general! Junto com a confirmação da posição do comboio recebemos uma mensagem codificada de nosso agente informando a posição de nosso alvo.
– Como disse antes; um presente magnífico. – Um brilho de satisfação passou pelos olhos do general. – Envie um grupo de abordagem e capturem-no!
– Sim, senhor! – O coronel fez uma mesura e se aproximou de um console.
Minutos depois, dois encouraçados e cinco destróieres abandonaram a formação que a frota mantinha próxima a nuvem de Oerth. Segundos depois, desapareceram no hiperespaço.



CONTINUA EM 30 DIAS.

Dylan Dog: o detetive do pesadelo

Por Caio Luiz

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Um grito emana do interior da ostentosa mansão. É noite. A bela mulher de cabelos negros se apóia na porta do corredor principal, ofegante. Traja somente a camisola transparente e calcinha. Olha por cima do ombro esquerdo, põe a mão no pescoço e pensa “meu Deus!”. Sua expressão denuncia o pavor que acelera o coração e a faz entrar em desespero, ao forçar a maçaneta, enquanto o vulto a persegui-la se aproxima a passos vagarosos, que só aumentam a tensão.

Ela torce e implora para que a porta abra, mas parece emperrada. Se tremesse menos seria mais fácil destrancá-la. Mesmo sem olhar para trás, pode sentir as mãos pálidas se aproximando. Finalmente a pesada porta de madeira cede e é possível ir para o outro lado. Infelizmente, o horror não teria fim. Uma das mãos se mete pela fresta e a arranha com vigor. É correr ou morrer.

Se alcançar o telefone ainda haverá chances de sobreviver. O vento gelado vindo de fora deixa a mostra os seios da vítima, que avança descuidadamente e tropeça no carpete. Ao cair, bate a cabeça em um dos móveis e desmaia por alguns segundos. Quando acorda, se depara com o marido tentando arrancar um pedaço de sua canela com os dentes... Assim começa a primeira edição de Dylan Dog, personagem criado em 1986 por Tiziano Sclavi. O escritor foi responsável por uma das mais célebres publicações da editora italiana Bonelli Comics, conhecida pelos títulos Tex, Mágico Vento, Nick Raider, Martin Mystère, Zagor, Dampyr e Mister No.

A história de 24 anos atrás já apresentava os elementos que tornariam a série popular o suficiente para vender um milhão de cópias por mês, o que é espantoso para qualquer gibi. O clima noir proporcionado pelo preto e branco, com moças sempre a visitar o escritório do detetive particular conquistador, sempre foi uma fórmula certeira de sucesso, mas a inovação estava no tipo de caso em que o investigador trabalharia.

Por exemplo, continuando com a história da mulher perseguida, ela se desvencilha do marido, se tranca no banheiro e, em seguida, o mata com um golpe de tesoura nos olhos. O problema é que ele já estava morto. Quem no mundo você procuraria para resolver algo do tipo? Pois é, Dylan Dog, o detetive do pesadelo. Por cinquenta libras esterlinas ao dia, mais despesas, ele topa averiguar o acontecimento mais distante da realidade possível. A própria Morte (a entidade mesmo!) em um bizarro encontro em que jogava xadrez com um indivíduo prestes a falecer, o definiu como um surpreendente e involuntário catalisador de fenômenos paranormais.

Voltando a historia, Sybil, a mulher ameaçada pelo cônjuge zumbi, se dirige a Craven Road, nº 7, na cidade de Londres, Inglaterra, e aperta a campainha para ouvir o toque mais esquisito de todos os tempos, “Uaaarrgh!”, um baita grito de horror. Quem deveria abrir a porta para atender a possível cliente? O mais lógico seria o próprio detetive. Mas essa é grande qualidade da revista. A obviedade fica para segundo plano. Quem recebe a linda viúva é ninguém menos que Groucho Marx em pessoa, na verdade um sósia do expoente da comédia estadunidense, bastante famoso na primeira metade do século XX com seus óculos de aros arredondados, bigode e sobrancelhas grossas, sempre com um charuto no canto da boca. Groucho é uma espécie de mordomo-assistente de Dylan que o acompanha sempre disposto a fazer anedotas, por vezes cretinas ou geniais, e que carrega o revólver antiguíssimo, peça de museu pra valer, que os salvou de diversos encontros perigosos com mortos-vivos, assassinos em série, lobisomens, vampiros e etc.

Após se livrar do inconveniente mordomo, Sybil se depara com o homem que procurava. Ele tem trinta e pouco anos, usa calça jeans, botas cano longo, camisa vermelha com as bordas das mangas engolindo o terno preto. Se parece tremendamente com Rupert Everett, aquele cara que interpreta o amigo gay da Julia Roberts no Casamento do Meu Melhor Amigo, e tem os cabelos mais bagunçados do reino da Rainha Elizabeth II. Ele a conduz por corredores repletos de suvenires que rementem a casos assombrosos do passado ou simplesmente são decorações de mal gosto.

Então, ela descreve detalhadamente o caso enquanto assiste o homem misterioso montando um galeão em miniatura para organizar melhor os pensamentos. Ao terminar, percebe que Dylan é alguém cheio de hábitos inusitados. Ele passa a tocar clarinete para prolongar o processo de reflexão e depois a canta, na cara larga, roubando um beijo da mulher sem reação. Não demoraria muito, em mais algumas páginas, o Sr. Dog seria praticamente transportando para o filme “Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero, com o assistente e a nova amante. O leitor se deleitaria com cenas angustiantes de zumbis fechando o cerco, prestes a devorá-los, enquanto tentam impedir que principal algoz de Dylan, o Dr. Xabarás, os zumbifique e alastre um vírus letal em busca da imortalidade.

Ler Dylan Dog é se deixar entrar em um espiral surreal que se afunila num condensado de horror com humor e sexo no melhor de estilo italiano. A Bonelli é especialista em transformar gêneros manjados em séries bacanas como, por exemplo, as histórias policias de Nick Raider, no melhor estilo Máquina Mortífera, ou Nathan Never, título de ficção científica inspirado em Blade Runner. Contudo, o autor Tiziano empregou a técnica de personagens no gênero de terror que, geralmente, não foca em protagonistas e sim no horror em si como o principal e o desenvolveu com grandiosidade e riqueza de detalhes, o inserindo nas situações mais escabrosas e inimagináveis.

O suspense, as tiradas cômicas, a violência explícita e insinuações sexuais estão presentes em boa parte das produções de horror, não importa para qual mídia seja feita. Afinal, elas são atrativos reconhecidos que garantem vendagem, mas a graça e criatividade estão na maneira como os elementos mencionados são mero pano de fundo para tramas engenhosas, com respiros bem calculados entre eles, que provocam o fascínio pelo personagem.

Confira algumas das características marcantes do investigador: Dylan Dog já trabalhou para a Scotland Yard no passado, mas largou o emprego para se dedicar ao trabalho de investigar pesadelos, o que é visto com maus olhos por toda a sociedade londrina, que o considera um charlatão de marca maior. É vegetariano, abstêmio - depois de ter controlado o alcoolismo - sofre de complexo de Édipo, tem fobia de altura, morcegos e não consegue ter relacionamento estável com mulher alguma. Elas acabam morrendo ao longo da edição ou desistindo do detetive, que invariavelmente está na pindaíba e desconhece como irá pagar as contas do mês até alguém fazer soar a estrondosa campainha com um novo mistério a ser solucionado. Assim, Dylan entra em seu fusca branco com a emblemática placa DYD 666 e o vemos dobrar a esquina em direção ao pesadelo.

Dylan em terras tupiniquins

Lembro bem do mês de outubro de 2001. Tinha 15 anos, pouquíssimo contato com a internet, que estava a toda, e estava fascinado com minha mais nova aquisição, a primeira edição da série de seis volumes que a Conrad Editora publicaria até abril do ano seguinte. A coleção fora selecionada pelo próprio Sclavi como introdução perfeita ao personagem e teve todas as capas refeitas pelo artista Mike Mignola, criador de outra grande obra do horror, Hellboy.

Saí da escola sem sequer ter noção do que estava prestes a ler. Comprei o gibi no intervalo de um período letivo para outro porque a arte da capa me fisgou de longe, mesmo que um pouco escondida na prateleira inferior da banca de jornal. O preço era R$ 4,50. Deixei de ir ao cinema com meus amigos que acharam minha compra o maior desperdício de dinheiro. Comecei a leitura no ônibus de volta para casa e soube em questão de minutos que teria todas as edições daquela publicação.

Fui descobrir que Dylan Dog já foi lançado antes disso no Brasil, na mesma ordem que na Itália, pela Record de 1991 a 1992. Infelizmente foram só 11 volumes, difíceis de encontrar em sebos e um especial com a parceria de Dylan com Martin Mystère, o detetive do impossível, e outro especial solitário. Em 1993, uma coletânea intitulada Fumetti reuniu histórias de personagens italianos, entre elas, umas das poucas do detetive do pesadelo em cores com 18 páginas, sendo que a média de páginas é quase cem por história.

Fiquei desolado ao perceber que seria quase impossível conseguir as edições mais antigas. Porém, no início de uma noite de agosto de 2002, tomei um susto agradável na banca de jornal de um supermercado. A Mythos Editora retomava a série mensal, não na sequência produzida no país de origem, mas não importava porque cada história é praticamente independente da outra. Seriam quatro anos acompanhando regularmente o Sr. Dog nas bancas até o cancelamento. Foram 40 edições. Eu já tinha 20 anos, barba na cara, e fiquei louco da vida como se ainda tivesse 15 anos.