Super-heróis brasileiros

Houve um tempo em que o arquétipo de super-herói nacional ainda emocionava os corações mais ingênuos. Capitão Sete, Falcão Negro, Capitão Asa, todos personagens de sucesso apresentados à infância de passadas gerações como modelo ficcional heróico. Deixavam a criançada grudada na frente TV, todas as semanas, sempre à espera de soluções para as armadilhas do episódio anterior. O herói tinha que se ‘safar', e as crianças torciam por isso.

Precursores das telenovelas no Brasil, possivelmente os heróis nacionais da TV contribuíram para formar o público que alimenta a audiência das novelas atuais, com aquelas mesmas crianças que cresceram acostumadas com as séries televisivas.

O Capitão Sete, interpretado por seu criador, o ator Ayres Campos, começou a passar na TV no dia 24 de setembro de 1954. Isso foi quase dez anos antes da primeira telenovela, que a TV Excelsior começou a exibir em julho de 1963. A novela chamava-se 2-5499 Ocupado , e era sobre um par romântico que se conhece devido a uma ligação errada, e era interpretada por Tarcísio Meira e Glória Menezes. Alguém lembra dessa novela? Dos heróis certamente já ouviu falar!

Em meados da década de 60 o Brasil sofre um traumático cataclismo político. Militares subvertem a defesa nacional contra o próprio Estado brasileiro, num evento brutal contra a ordem pública e democrática. Em oposição ao domínio militar começa a surgir um sentimento inconformista contra o regime totalitarista que se instalou após o golpe.

As representações comumente propostas pelos críticos da sociedade, através do escárnio, confundiram por décadas o patriotismo com o militarismo. Para estes o fruto indigno da ditadura militar não podia nunca representar algo que fosse de positivo para o país. Daí o brutal negativismo ostensivo contra a coisa nacional de representação patriótica nos tempos da ditadura.

A figura do super-herói nacional confundiu-se com a idéia de patriotismo, e este com o regime militar, tornando improvável por muito tempo a comunhão pacífica, entre ambos os conceitos, no imaginário coletivo.

Na verdade, ao que parece, a dificuldade não está na criação de bons personagens com características nacionais, e sim na dissolução do nó mental que ainda confunde nacionalismo com patriotismo e este ainda com militarismo e totalitarismo. Ao seguirem esta linha de raciocínio estão a misturar ‘alhos com bugalhos', como se diria em expressão popular.

Bons autores sempre criaram bons personagens. Podemos citar Eugênio Colonnese com seus Mylar, Escorpião, e Superargo; Emir Ribeiro com seus Homem de preto, Nova e Velta, entre outros; Orlando Paes Filho criador de Angus; Alessandro Dutra, Gian Danton e José Aguiar desenvolveram O Gralha; Mozart Couto com seu Hakan; Cynthia Carvalho e Ofeliano de Almeida com a trajetória de Othan o Leão Negro. Estes entre muitos outros, que sempre encontraram sua parcela de público.

Felizmente esse sentimento de preconceito anti-nacionalista anda em baixa! O resgate pelo mito do super-herói brasileiro, parece ter ganho um impulso com a auto-estima nacional em recuperação após a libertação política e estabilização monetária, somados ao reconhecimento profissional do trabalho de muitos brasileiros absorvidos pelo mercado internacional. Aos poucos um modelo de indústria parece ressurgir ao lado da memória dos seus ícones heróicos.

A periodicidade de revistas independentes como O Cometa, a Brado Retumbante, assim como o retorno do Capitão Sete (anunciado pelo designer Danyael Lopes para o site Universo HQ), são indícios de uma atenção dada a uma parte do exigente público brasileiro, que clama pelo retorno de seus super-heróis.

por Gabriel Rocha
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