O HARÉM ESPACIAL

PRIMEIRA PARTE

- Duas vezes na mesma semana! Deve ser um novo recorde...

Larrar apenas ouvia as palavras irônicas de Alesia de sua cela, já que não conseguia vê-la. Externamente parecia não se importar, mas sua mente procurava respostas para a atitude da elfa. Ironias não eram do feitio de Alesia, mas era a especialidade da basteth que, alias, estava estranhamente quieta.

Os três amigos eram trabalhadores autônomos que atuavam no segmento de transporte de carga interplanetária. Infelizmente algumas destas cargas eram classificadas como contrabando em alguns planetas da Dispersão. E foi com uma destas cargas que foram pegos por uma patrulha de fronteira. A carga foi imediatamente apreendida e só não tiveram a mesma sorte graças à manha de Feenah.

Endividados, eles se lamentavam numa taverna espacial quando um ancião os contratou para levá-lo de volta a seu mundo natal. O problema era que o planeta estava sob o controle de um déspota que fechara o sistema solar inteiro. Era praticamente impossível entrar ou sair. Mas, a perspectiva de recuperarem o que haviam perdido inibiu qualquer receio.

Infelizmente a sorte resolveu olhar novamente para o outro lado e a astronave emergiu diretamente sob o bojo de uma nave de patrulha. Totalmente dominado o saveiro espacial foi recolhido a bordo. Foram recepcionados por dez guardas robôs que, em questão de segundos, trancafiou-os em selas individuais.

- Oi!

O rapaz deu um salto com o súbito aparecimento de Feenah em frente a sua cela. Ela piscou alegre, ao ver sua cara de espanto. Feenah era uma típica representante de sua raça com olhos maliciosos, orelhas e cauda de gato, corpo lânguido coberto por uma fina penugem castanha clara pontilhada por manchas de tom mais escuro.

- Achou mesmo que uma mísera trava eletrônica me deteria.

Segundos depois, Alesia já estava livre e Larrar retornava após ter inspecionado o bloco de celas.

- seu Hanlder não está em lugar nenhum.

Eles se entreolharam.

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Após tantos anos de exílio Hanlder Burenmdenher precisava voltar urgentemente a Eta-Vërefgn, sua estrela natal. Foi este objetivo que o impulsionou a contratar os livre-cambistas naquela taverna espacial. Não porque eram bons, mas porque pareciam estar desesperados. Por isso, não recusariam sua oferta.

Eles titubearam quando ouviram o destino. A elfa pediu mais e um ou dois pensamentos ignóbeis passaram pela cabeça branca de Hanlder. No fim concordou em pagar o que pediam desde que o levassem para Eta-Vërefgn.

Só não imaginava que fossem idiotas. Porque somente idiotas conseguiriam sair do hiperespaço diretamente sob o bojo de uma nave de patrulha. Hanlder amaldiçoou os três aventureiros por estar atado àquela cadeira com o suor escorrendo de suas têmporas.

O arfar de sua respiração indicava que acabara de receber mais uma descarga da sonda psíquica.

Além dos dois robôs inquisidores que monitoravam a sessão, também havia um homem em farda de oficial que acompanhava tudo com um sorriso irônico no canto da boca.

- Você devia ter aproveitado a chance e ficado bem longe de Eta-Vërefgn, conde...

- Como eu poderia deixar meu planeta na mão de um louco? - o ancião vociferou antes de mergulhar num acesso de tosse.

Os olhos do oficial estreitaram-se e sua testa franziu, irada.

- Louco! Louco! Você ousa chamar de louco aquele que colocara Eta-Vërefgn nos livros de história galáctica. Não. O louco aqui é você, que mesmo tendo a oportunidade de fugir, retorna...

A sonda voltou a se aproximar das têmporas de Hanlder. O ancião sentiu que esta seria a ultima vez. Fechou os olhos e esperou a sonda fritar seu cérebro. Apesar de não ter conseguido libertar seu mundo consolava-se com fato de que a dor acabaria.

Mas o fim não viria desta vez.

A porta deslizou e três disparos certeiros liquidaram os robôs inquisidores e o oficial. Rapidamente, Larrar e Alesia livraram-no das amarras.

- Desculpe a intromissão, mas, temos um acordo com este velho – Feenah dirigiu-se a uma câmera espiã fixada no teto antes de destruí-la.

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O plano era simples. Resgatavam Hanlder, chegavam ao hangar, recuperavam a nave e davam o fora daquele sistema de loucos. Simples na teoria. Mas complicado na prática.

Era como se estivessem há horas correndo pelos corredores, desviando e revidando os disparos dos guardas robôs por isso quando começaram a temer que estivessem perdidos entraram na primeira porta que surgiu a sua frente.

Pararam pasmados. Haviam encontrado o hangar, mas impedindo-os de chegarem ao saveiro estavam cinqüenta guardas robôs.

Não havia como lutar, então recuaram. Infelizmente, o som característico dos desintegradores sendo carregados disse-lhes que o recuo não era uma opção.

Estavam cercados e sem alternativas. Soltaram as armas.

Os robôs abriram passagem para um homem de meia-idade ostentando um uniforme igual ao do homem da sala de interrogatório. Ele sorria zombeteiro.

- Foi muito feio o que fizeram, meus jovens. Suas mães não lhes ensinaram a não interromper os mais velhos? Hunf... não tem problema, eu e meu amigo podemos terminar nossos assuntos agora...".

Três robôs dispararam em Hanlder, que se apoiava no ombro de Larrar, acertando em cheio. Quando sentiu a temperatura do corpo do ancião elevar-se ao extremo, o rapaz o soltou horrorizado.

E, onde segundos antes havia um ser humano, restavam apenas uma nuvem de gás e o fedor de carne queimada que tomava conta do ambiente.

O homem voltou sua atenção para os três. Seus olhos brilhavam com uma mistura de insanidade e prazer que lhes revolveram os estômagos.

Larrar, Feenah e Alesia tiveram a certeza que seus destinos seriam o mesmo. Já se viam transformados em fumaça, e se maldiziam por terem aceitado aquela viagem. Recuaram e sentiram o cano frio das armas dos robôs em suas costas. Suas mentes procuraram febrilmente um jeito de escapar, mas não havia nenhum.

- Joguem todos no espaço! - ordenou, por fim, enquanto seus olhos caíam sobre Alesia - Esperem! Menos a elfa, ela será uma ótima aquisição para o harém do regente!

E assim eles foram separados. Alesia foi encaminhada às celas, e seus companheiros foram para a sala de descompressão mais próxima.

Os dois amigos caminharam, todo o percurso, calados. Cada um, a seu modo, procurava um meio de escaparem daquela situação. Mas toda a esperança acabou-se quando pararam em frente à câmara de descompressão. Eles se olharam, e o guarda empurrou-os para dentro assim que a porta se abriu. Era o fim.

Seus corações começaram a se acelerar conforme a voz metálica do computador anunciava os segundos restantes para a descompressão. Incapazes de dizer uma palavra de consolo sequer, seus olhos vagavam pela sala, iluminada pela luz vermelha de alerta. Suas gargantas já ardiam com a falta de oxigênio e a sirene ressoava pelo aposento quando avistaram os trajes de vácuo, presos nas paredes.

Lançaram-se sobre os trajes e só tiveram tempo de ajustá-los antes de serem sugados para o espaço exterior. Mas, ao se verem flutuando no negrume cósmico, estavam chegando à conclusão de que haviam apenas adiado o inevitável por vinte minutos.

- Pronto! E agora? - Feenah perguntou, flutuando no nada.

Estava ofegante. Fizera um esforço excessivo, lutando contra a perda de consciência causada pela quase inexistência de ar, para vestir o traje antes da comporta se abrir.

- Sei lá! - a voz de Larrar ressoou, ofegante, no comunicador - Tem alguma idéia?

- Talvez possamos tentar voltar à nave...

- Pode ser, ela não está muito longe. Se economizarmos os jatos, podemos conseguir - Larrar disse, checando os propulsores de manobra do traje.

Era uma idéia, e eles preferiam tentá-la a ficar pairando no vácuo, esperando. Infelizmente os etavërefgnianos não permaneceriam parados para sempre e enquanto eles checavam seu traje, eles se puseram em movimento. Levando a única esperança que lhes sobrava. Ou não.

O hangar se abriu e expeliu, com a ajuda da inércia, o velho saveiro.

- Sua nave é tão velha que eles não a querem nem como sucata - Feenah permitiu-se um gracejo.

Larrar apenas sorriu, ignorando o deboche. O empurrão inicial dado pelo raio trator fazia a velha nave se aproximar mais e mais.

CONTINUA... (daqui uma semana)

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