O HAREM ESPACIAL - PARTE III

Ao contrário da porta do harém, esta porta ao se abrir não fez barulho. Alesia avançou dois passos e a porta fechou automaticamente atrás de si: finalmente estava nos aposentos do regente de Eta-Vërefgn IV. A elfa vestia-se, como uma odalisca, com véus de seda galaadita transparente, que nada ocultavam. Olhou para todas as direções naquele mar de véus, lâmpadas e almofadas, mas não viu ninguém. Então avançou.

- Não continue. Fique ai mesmo princesa!

Mais curiosa que assustada Alesia olhou em volta procurando a origem daquela voz. Nada encontrou. Era como se a mesma viesse de todos os lados. Certamente o regente estava fazendo-se valer de um sistema de som para impressioná-la.

- Princesa?! - disse por fim - Engraçado, faz tempo que não sou chamada assim. Aliás, isso quer dizer que sabe quem sou e se sabe quem sou, também sabe que estou aqui contra minha vontade e que meu pai deve ser contatado e um preço estipulado pelo meu resgate!

- Quem disse que quero um resgate por você Alesia Alaisten, de Manasses. O que quero é que seja minha rainha.

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- De acordo com o mapa, devemos estar no andar logo abaixo de onde ficam os aposentos do regente - Feenah olhava para a tela do palm-top que exibia o mapa do complexo - Devemos avançar com mais calma. Pode ser que encontremos guardas humanos neste andar...

- Não se preocupe. Se aparecer algum, a gente desvia ou enfrenta. E quanto a estes homens de lata, esta belezinha - Larrar deu três tapinhas no aparelho preso à cintura - Deixa-os mais cegos do que morcegos rhotundijins...

Como a maioria dos déspotas, o regente de Eta-Vërefgn IV não confiava em seres vivos, então delegava a maioria das funções de seu palácio a robôs. Facilitando, assim, o avanço dos dois companheiros.

Feenah deu de ombros e o acompanhou. Avançaram alguns metros e pararam. Haviam percebido que há frente encontravam-se dois pares de guardas robôs perfilados de ambos os lados do corredor. Eles seriam obrigados a passar entre eles, se quisessem continuar.

Já haviam estado naquela situação antes. Praticamente todos os corredores possuíam uma dupla de guardas robôs de sentinela. Então avançaram confiantes, ou excessivamente confiantes, e passaram pelos guardas que permaneceram impassíveis.

Alguns passos à frente, Larrar soltou um riso triunfante. Um riso que desapareceu de sua face no mesmo instante, trocado pelo pavor. A luz que piscava intermitentemente no aparelho preso em sua cintura tinha se desligado com um clique seco e maligno. O de Feenah emitiu o mesmo som dois segundos depois. Os olhos dos autômatos moveram-se e enquadraram os dois amigos.

- Alto! Identifique-se! - a voz artificial do homem mecânico ecoou pelo corredor, ao mesmo tempo em que quatro pares de desintegradores eram apontados para o aventureiro - Prepare-se para ter seu DNA checado!

Eles tinham segundos para agir.

Num salto felino, Feenah sacou quatro adagas vibratórias e arremessou contra os dois primeiros guardas. Sua precisão foi perfeita e os homens metálicos cambalearam com suas cabeças perfuradas, antes de caírem pesadamente.

Os dois robôs restantes dispararam, mas já era tarde. Larrar se jogou ao chão e efetuou dois disparos precisos, arrancando a cabeça do guardas.

- Rápido! Vamos para as escadas! - Feenah indicou a porta maciça.

Sem os inibidores eletrônicos, eles haviam atraído a atenção de toda a rede de segurança do palácio. Era questão de segundos até que as primeiras unidades de guardas chegassem até eles. Então, a única saída era se refugiarem nas escadas de incêndio; não porque ali houvesse menos vigilância, mas porque robôs de combate não abrem portas, nem sobem escadas.

Larrar foi o primeiro a entrar, olhando em volta. Era uma simples plataforma metálica com escadas em caracol que desciam e subiam, e que continham alguns engradados empilhados displicentemente. Feenah entrou em seguida e pegou-o pelo braço, arrastando o humano para trás dos engradados. Sabendo que uma das características da raça de Feenah eram os sentidos aguçados, ele deixou-se levar e permaneceu calado.

Segundos se passaram até que duas figuras surgiram. Ficaram surpresos por serem os dois ladrões que haviam entrado com eles no palácio. Cada um carregava um disruptor destravado e exibiam caras de poucos amigos.

- O que eles fazem aqui? A copa ficou alguns andares abaixo - o rapaz sussurrou assim que os dois desapareceram na primeira curva sobre eles.

- O que me intriga não é isso - Feenah levantou-se - Mas o fato de estarem avançando pelas escadas, se os seus inibidores ainda continuam funcionando. Tem algo fedendo, e não são estas caixas...

Trocaram um olhar e confirmaram suas intenções com um balançar de cabeça, antes de começarem a subir.

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Alesia havia se preparado mentalmente para oferecer ao regente aquilo que era esperado de uma concubina; seu corpo. Por esse motivo as palavras de Sem III pegaram-na de surpresa e ela demorou-se alguns segundos para se recuperar.

- E o que lhe leva a crer que eu queira desposar um déspota assassino como você?

O silencio imperou por mais alguns segundos até que um vulto surgiu atrás dos véus. Era um homem de mais ou menos trinta anos com a pele curtida de sol e músculos definidos. Leila sorriu; entendia do porque das outras garotas não quererem abandonar o harém.

- Déspota? - o regente avançou, retribuindo o sorriso - Pode ser; muito do que faço poderia ser chamado de despotismo, principalmente por meus inimigos. Mas, assassino? Acho que não! Se tirei a vida de alguém foi porque era inimigo do Estado e somente fiz o que um regente deveria fazer!

- Desde quando o assassinato de inocentes faz parte das atribuições de um regente?!

Sem III soltou uma gargalhada de puro deboche.

- Você está falando de Hanlder? Não, princesa, aquele velho matreiro pode ser tudo menos inocente. Ele era o membro mais influente das antigas oligarquias que mandavam e desmandavam neste mundo. E como tal sentiu-se prejudicado quando extingui a servidão nos campos e confisquei terras para a reforma agrária. Não tive outra escolha a não ser exilá-lo. Principalmente depois que descobri seu envolvimento numa tentativa de me assassinar. Mesmo assim ele continuava maquinando, muito do que se fala nas estrelas sobre mim foi espalhado por ele. Por fim não tive outra escolha a não ser declará-lo inimigo do estado!

- Então pode eliminá-lo com a consciência limpa, não é?

- Princesa. Você é uma nobre. De uma das casas mais tradicionais de todo o braço galáctico! Verdadeiramente eu admiro sua linhagem. E é por causa desta admiração que resolvi mudar a sorte de meu povo! Quero dar a eles um lugar na galáxia. Um lugar na história. Mas para que se possa realizar este sonho devo, primeiramente, substituir a velha ordem pela nova!

- É por isso que quer minha mão? Acha que ao se tornar parente da casa real de Manasses, você poderá desafiar seu suserano, ou seja, Betânia? Infelizmente, sinto em dizer que nunca desposaria aquele que é o assassino de meus amigos.

- Seus amigos? - Sem III fez uma expressão de que tentava se lembrar de algo sem importância.

- Você se refere a basteth e o rapaz? Achei que eles fossem asseclas de Hanlder. Aliás, achei que todos vocês estivessem com aquele cabeça dura! Você só está aqui porque um de meus oficiais achou-a suficientemente atraente para meu harém.

- Não sei se me sinto lisonjeada – Alesia fez uma mesura - Ou enojada!

- De qualquer forma: somente depois que você chegou é que descobri quem era.

O regente se aproximou. Suas mãos pousaram, ternamente, nos ombros de Leila.

- Sei que não vai adiantar, mas sinto muito. Se soubesse que você era quem é, e que eles eram seus amigos, teria poupado a todos. Desde que sucedi meu pai tenho sido rodeado por maquinações. Acho que tudo isso acabou me deixando um pouco paranóico.

Seus olhos se cruzaram e Alesia sentiu uma profunda solidão refletida neles. Seria aquela a tão falada “solidão do poder” que seu pai dizia? Ela sentiu vontade de tocá-lo. De confortá-lo.

- Alteza eu...

Um baque seco escancarou as portas. Duas figuras avançaram com os disruptores em riste.

- Sem III! - um dos homens gritou - Em nome do povo etavërefgense viemos cumprir a sentença justa pela morte de Hanlder Burenmdenher !

Então apertou o gatilho.

Num ato reflexo Alesia levantou a mão espalmada. Sem III pôde sentir o calor em suas costas quando o raio mortal chocou-se contra uma parede invisível e se desmanchou. Os atacantes entreolharam-se desconcertados e dispararam furiosamente seus disruptores, mas todos os disparos tiveram o mesmo destino do primeiro. Palavras de escárnio e maldizeres foram proferidas. A elfa foi chamada por nomes que fariam uma puta de mineradores ruborizar.

- Mas o que está acontecendo? - Sem III perguntou, se aproximando ainda mais de Alesia - É você que está gerando este campo?

- É apenas uma técnica que aprendi em meu mundo natal! Agora fique quieto porque preciso manter a concentração! - o suor começava a umedecer suas têmporas indicando que o esforço estava sendo excessivo - Onde estão os malditos robôs?

Como que atendendo ao seu pedido, os atacantes voltaram-se rapidamente na direção do corredor e começaram a disparar freneticamente. Um ato inútil, pois foram abatidos em segundos. E assim, sob o disparo certeiro das armas, terminava mais uma tentativa de assassinar o regente. Percebendo que o perigo passara, Alesia desfaz o campo e deixa-se cair, respirando pesadamente.

- Onde este universo vai parar? Não se pode confiar mais nem em ladrões!

Ela voltou-se imediatamente para a porta; acabara de ouvir o som de uma voz que imaginara estar calada para sempre. Seu coração disparou, pois sob o arco da porta estavam dois fantasmas, ou pelo menos assim ela os considerou por alguns segundos. Eles olhavam surpresos para a cena que tinham à sua frente.

- Larrar? Feenah? Mas... - gaguejou.

- Ah! Oi, Alesia... - Feenah acenou, displicente.

Esquecendo-se do cansaço ela correu na direção de seus amigos, jogando-se em seus braços. As lágrimas escorriam caudalosas pelas bochechas. Ela os abraçava fortemente e beijava-os compulsivamente. Larrar e afastou os braços da princesa e caminhou na direção do regente.

- Larrar?! - Alesia perguntou surpresa.

O golpe foi tão rápido que quando o regente percebeu já estava no chão. Seus lábios sangravam, o maxilar doía e a visão turvava.

- Isto é por ter tentado nos matar! - o rapaz gritou sacudindo ameaçadoramente o punho ainda fechado -E, o que pretendia fazer com minha amiga? Seu safado, pervertido!

- Nããoo! - Sandra gritou segurando o amigo pela cintura - Não faça isso Larrar! Você não deve tocar nele! Um rei não deve ser espancado como um cão sem dono.

- Mas? - ele recuou, sem entender.

- Eu entendo seus atos alteza. Pode parecer estranho, mas os entendo. Deve ser porque também possuo o que chamam de ‘sangue nobre’ mas isso não quer dizer que os aprove. Por este motivo declino de sua proposta. Vamos sair daqui! - Alesia segurou na mão de Larrar puxando-o na direção da porta. Deteve-se ao deparar-se com Singht.

- Não quer reconsiderar princesa? - Sem perguntou - Juntos poríamos Eta-Vërefgn no mapa da galáxia. As garotas ficariam felizes em tê-la como rainha.

Alesia balançou a cabeça negativamente.

- Obrigada, alteza, mas este tipo de vida não é para mim! Apesar de ter nascido princesa sei que nunca seria feliz dentro das paredes de um palácio! Meu pai, apesar de tudo, sabe disso! Singht e as outras, irmãs de meu coração, também sabem e compreendem!

Os olhos de Sem III encontraram-se com os de Singht que meneou a cabeça.

- E sei que o senhor também compreende! – Alesia fez uma mesura - Aqui me despeço. Adeus Alteza. Adeus irmã. Que os deuses galácticos sejam generosos com para o povo de Eta-Vërefgn.

- Adeus irmã! - Singht murmura, dando passagem para a amiga e seus companheiros - Seja feliz com o destino que escolheu!



ENDE

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