O HAREM ESPACIAL - PARTE III

Ao contrário da porta do harém, esta porta ao se abrir não fez barulho. Alesia avançou dois passos e a porta fechou automaticamente atrás de si: finalmente estava nos aposentos do regente de Eta-Vërefgn IV. A elfa vestia-se, como uma odalisca, com véus de seda galaadita transparente, que nada ocultavam. Olhou para todas as direções naquele mar de véus, lâmpadas e almofadas, mas não viu ninguém. Então avançou.

- Não continue. Fique ai mesmo princesa!

Mais curiosa que assustada Alesia olhou em volta procurando a origem daquela voz. Nada encontrou. Era como se a mesma viesse de todos os lados. Certamente o regente estava fazendo-se valer de um sistema de som para impressioná-la.

- Princesa?! - disse por fim - Engraçado, faz tempo que não sou chamada assim. Aliás, isso quer dizer que sabe quem sou e se sabe quem sou, também sabe que estou aqui contra minha vontade e que meu pai deve ser contatado e um preço estipulado pelo meu resgate!

- Quem disse que quero um resgate por você Alesia Alaisten, de Manasses. O que quero é que seja minha rainha.

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- De acordo com o mapa, devemos estar no andar logo abaixo de onde ficam os aposentos do regente - Feenah olhava para a tela do palm-top que exibia o mapa do complexo - Devemos avançar com mais calma. Pode ser que encontremos guardas humanos neste andar...

- Não se preocupe. Se aparecer algum, a gente desvia ou enfrenta. E quanto a estes homens de lata, esta belezinha - Larrar deu três tapinhas no aparelho preso à cintura - Deixa-os mais cegos do que morcegos rhotundijins...

Como a maioria dos déspotas, o regente de Eta-Vërefgn IV não confiava em seres vivos, então delegava a maioria das funções de seu palácio a robôs. Facilitando, assim, o avanço dos dois companheiros.

Feenah deu de ombros e o acompanhou. Avançaram alguns metros e pararam. Haviam percebido que há frente encontravam-se dois pares de guardas robôs perfilados de ambos os lados do corredor. Eles seriam obrigados a passar entre eles, se quisessem continuar.

Já haviam estado naquela situação antes. Praticamente todos os corredores possuíam uma dupla de guardas robôs de sentinela. Então avançaram confiantes, ou excessivamente confiantes, e passaram pelos guardas que permaneceram impassíveis.

Alguns passos à frente, Larrar soltou um riso triunfante. Um riso que desapareceu de sua face no mesmo instante, trocado pelo pavor. A luz que piscava intermitentemente no aparelho preso em sua cintura tinha se desligado com um clique seco e maligno. O de Feenah emitiu o mesmo som dois segundos depois. Os olhos dos autômatos moveram-se e enquadraram os dois amigos.

- Alto! Identifique-se! - a voz artificial do homem mecânico ecoou pelo corredor, ao mesmo tempo em que quatro pares de desintegradores eram apontados para o aventureiro - Prepare-se para ter seu DNA checado!

Eles tinham segundos para agir.

Num salto felino, Feenah sacou quatro adagas vibratórias e arremessou contra os dois primeiros guardas. Sua precisão foi perfeita e os homens metálicos cambalearam com suas cabeças perfuradas, antes de caírem pesadamente.

Os dois robôs restantes dispararam, mas já era tarde. Larrar se jogou ao chão e efetuou dois disparos precisos, arrancando a cabeça do guardas.

- Rápido! Vamos para as escadas! - Feenah indicou a porta maciça.

Sem os inibidores eletrônicos, eles haviam atraído a atenção de toda a rede de segurança do palácio. Era questão de segundos até que as primeiras unidades de guardas chegassem até eles. Então, a única saída era se refugiarem nas escadas de incêndio; não porque ali houvesse menos vigilância, mas porque robôs de combate não abrem portas, nem sobem escadas.

Larrar foi o primeiro a entrar, olhando em volta. Era uma simples plataforma metálica com escadas em caracol que desciam e subiam, e que continham alguns engradados empilhados displicentemente. Feenah entrou em seguida e pegou-o pelo braço, arrastando o humano para trás dos engradados. Sabendo que uma das características da raça de Feenah eram os sentidos aguçados, ele deixou-se levar e permaneceu calado.

Segundos se passaram até que duas figuras surgiram. Ficaram surpresos por serem os dois ladrões que haviam entrado com eles no palácio. Cada um carregava um disruptor destravado e exibiam caras de poucos amigos.

- O que eles fazem aqui? A copa ficou alguns andares abaixo - o rapaz sussurrou assim que os dois desapareceram na primeira curva sobre eles.

- O que me intriga não é isso - Feenah levantou-se - Mas o fato de estarem avançando pelas escadas, se os seus inibidores ainda continuam funcionando. Tem algo fedendo, e não são estas caixas...

Trocaram um olhar e confirmaram suas intenções com um balançar de cabeça, antes de começarem a subir.

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Alesia havia se preparado mentalmente para oferecer ao regente aquilo que era esperado de uma concubina; seu corpo. Por esse motivo as palavras de Sem III pegaram-na de surpresa e ela demorou-se alguns segundos para se recuperar.

- E o que lhe leva a crer que eu queira desposar um déspota assassino como você?

O silencio imperou por mais alguns segundos até que um vulto surgiu atrás dos véus. Era um homem de mais ou menos trinta anos com a pele curtida de sol e músculos definidos. Leila sorriu; entendia do porque das outras garotas não quererem abandonar o harém.

- Déspota? - o regente avançou, retribuindo o sorriso - Pode ser; muito do que faço poderia ser chamado de despotismo, principalmente por meus inimigos. Mas, assassino? Acho que não! Se tirei a vida de alguém foi porque era inimigo do Estado e somente fiz o que um regente deveria fazer!

- Desde quando o assassinato de inocentes faz parte das atribuições de um regente?!

Sem III soltou uma gargalhada de puro deboche.

- Você está falando de Hanlder? Não, princesa, aquele velho matreiro pode ser tudo menos inocente. Ele era o membro mais influente das antigas oligarquias que mandavam e desmandavam neste mundo. E como tal sentiu-se prejudicado quando extingui a servidão nos campos e confisquei terras para a reforma agrária. Não tive outra escolha a não ser exilá-lo. Principalmente depois que descobri seu envolvimento numa tentativa de me assassinar. Mesmo assim ele continuava maquinando, muito do que se fala nas estrelas sobre mim foi espalhado por ele. Por fim não tive outra escolha a não ser declará-lo inimigo do estado!

- Então pode eliminá-lo com a consciência limpa, não é?

- Princesa. Você é uma nobre. De uma das casas mais tradicionais de todo o braço galáctico! Verdadeiramente eu admiro sua linhagem. E é por causa desta admiração que resolvi mudar a sorte de meu povo! Quero dar a eles um lugar na galáxia. Um lugar na história. Mas para que se possa realizar este sonho devo, primeiramente, substituir a velha ordem pela nova!

- É por isso que quer minha mão? Acha que ao se tornar parente da casa real de Manasses, você poderá desafiar seu suserano, ou seja, Betânia? Infelizmente, sinto em dizer que nunca desposaria aquele que é o assassino de meus amigos.

- Seus amigos? - Sem III fez uma expressão de que tentava se lembrar de algo sem importância.

- Você se refere a basteth e o rapaz? Achei que eles fossem asseclas de Hanlder. Aliás, achei que todos vocês estivessem com aquele cabeça dura! Você só está aqui porque um de meus oficiais achou-a suficientemente atraente para meu harém.

- Não sei se me sinto lisonjeada – Alesia fez uma mesura - Ou enojada!

- De qualquer forma: somente depois que você chegou é que descobri quem era.

O regente se aproximou. Suas mãos pousaram, ternamente, nos ombros de Leila.

- Sei que não vai adiantar, mas sinto muito. Se soubesse que você era quem é, e que eles eram seus amigos, teria poupado a todos. Desde que sucedi meu pai tenho sido rodeado por maquinações. Acho que tudo isso acabou me deixando um pouco paranóico.

Seus olhos se cruzaram e Alesia sentiu uma profunda solidão refletida neles. Seria aquela a tão falada “solidão do poder” que seu pai dizia? Ela sentiu vontade de tocá-lo. De confortá-lo.

- Alteza eu...

Um baque seco escancarou as portas. Duas figuras avançaram com os disruptores em riste.

- Sem III! - um dos homens gritou - Em nome do povo etavërefgense viemos cumprir a sentença justa pela morte de Hanlder Burenmdenher !

Então apertou o gatilho.

Num ato reflexo Alesia levantou a mão espalmada. Sem III pôde sentir o calor em suas costas quando o raio mortal chocou-se contra uma parede invisível e se desmanchou. Os atacantes entreolharam-se desconcertados e dispararam furiosamente seus disruptores, mas todos os disparos tiveram o mesmo destino do primeiro. Palavras de escárnio e maldizeres foram proferidas. A elfa foi chamada por nomes que fariam uma puta de mineradores ruborizar.

- Mas o que está acontecendo? - Sem III perguntou, se aproximando ainda mais de Alesia - É você que está gerando este campo?

- É apenas uma técnica que aprendi em meu mundo natal! Agora fique quieto porque preciso manter a concentração! - o suor começava a umedecer suas têmporas indicando que o esforço estava sendo excessivo - Onde estão os malditos robôs?

Como que atendendo ao seu pedido, os atacantes voltaram-se rapidamente na direção do corredor e começaram a disparar freneticamente. Um ato inútil, pois foram abatidos em segundos. E assim, sob o disparo certeiro das armas, terminava mais uma tentativa de assassinar o regente. Percebendo que o perigo passara, Alesia desfaz o campo e deixa-se cair, respirando pesadamente.

- Onde este universo vai parar? Não se pode confiar mais nem em ladrões!

Ela voltou-se imediatamente para a porta; acabara de ouvir o som de uma voz que imaginara estar calada para sempre. Seu coração disparou, pois sob o arco da porta estavam dois fantasmas, ou pelo menos assim ela os considerou por alguns segundos. Eles olhavam surpresos para a cena que tinham à sua frente.

- Larrar? Feenah? Mas... - gaguejou.

- Ah! Oi, Alesia... - Feenah acenou, displicente.

Esquecendo-se do cansaço ela correu na direção de seus amigos, jogando-se em seus braços. As lágrimas escorriam caudalosas pelas bochechas. Ela os abraçava fortemente e beijava-os compulsivamente. Larrar e afastou os braços da princesa e caminhou na direção do regente.

- Larrar?! - Alesia perguntou surpresa.

O golpe foi tão rápido que quando o regente percebeu já estava no chão. Seus lábios sangravam, o maxilar doía e a visão turvava.

- Isto é por ter tentado nos matar! - o rapaz gritou sacudindo ameaçadoramente o punho ainda fechado -E, o que pretendia fazer com minha amiga? Seu safado, pervertido!

- Nããoo! - Sandra gritou segurando o amigo pela cintura - Não faça isso Larrar! Você não deve tocar nele! Um rei não deve ser espancado como um cão sem dono.

- Mas? - ele recuou, sem entender.

- Eu entendo seus atos alteza. Pode parecer estranho, mas os entendo. Deve ser porque também possuo o que chamam de ‘sangue nobre’ mas isso não quer dizer que os aprove. Por este motivo declino de sua proposta. Vamos sair daqui! - Alesia segurou na mão de Larrar puxando-o na direção da porta. Deteve-se ao deparar-se com Singht.

- Não quer reconsiderar princesa? - Sem perguntou - Juntos poríamos Eta-Vërefgn no mapa da galáxia. As garotas ficariam felizes em tê-la como rainha.

Alesia balançou a cabeça negativamente.

- Obrigada, alteza, mas este tipo de vida não é para mim! Apesar de ter nascido princesa sei que nunca seria feliz dentro das paredes de um palácio! Meu pai, apesar de tudo, sabe disso! Singht e as outras, irmãs de meu coração, também sabem e compreendem!

Os olhos de Sem III encontraram-se com os de Singht que meneou a cabeça.

- E sei que o senhor também compreende! – Alesia fez uma mesura - Aqui me despeço. Adeus Alteza. Adeus irmã. Que os deuses galácticos sejam generosos com para o povo de Eta-Vërefgn.

- Adeus irmã! - Singht murmura, dando passagem para a amiga e seus companheiros - Seja feliz com o destino que escolheu!



ENDE

O HARÉM ESPACIAL - PARTE II

Eta-Vërefgn IV foi colonizado ainda durante o exodoo da humanidade, mas, seja por causa de líderes déspotas ou pela índole do povo, exibe apenas resquícios das comodidades modernas, tão comuns nos mundos mais importantes da Dispersão. Vërefgnaria, a capital, é um aglomerado de edificações, com quatro andares, pontilhada por um estádio e alguns palácios cujo esmero arquitetônico contrastava com a monotonia vermelho-cobre das habitações ao redor.

Alesia, não acostumada à perda de entes queridos, chorara até entrar numa espécie de torpor. Só então percebeu que haviam pousado e que ela fora conduzida até um dos palácios, onde teve de esperar em frente a uma ampla porta de duas folhas, ornamentada com arabescos. A porta se abriu automaticamente.

Era uma vasta sala decorada naquele padrão das ilustrações dos livros das mil e uma noites; as pilastras, arabescos e véus estavam por toda parte. Até mesmo havia uma piscina aquecida no centro. A poucos metros diversas mulheres, das mais diversas raças, dedicavam-se a afazeres frívolos. O estrondo, produzido pelo fechar da porta, fez com que todas interrompessem o que estavam fazendo. Seus olhos curiosos caíram sobre a estranha.

- Seja bem-vinda, irmã – uma basteth se aproximou, sorrindo - Sim, querida, é assim que nos tratamos. Porque, assim como nós, você teve a honra de ter sido escolhida para fazer parte do harém de Sem III, regente de Eta-Vërefgn.

Alesia sabia o que era um harém. Eles eram comuns na sociedade élfica, principalmente entre os lordes planetários. Sua própria mãe fez parte de um. Mas saber o que era um harém e tornar-se parte de um eram duas coisas completamente diferentes.

- Venha!- a basteth estendeu a mão ao perceber que ela estava mergulhada na confusão - Deixe que cuidemos de ti.

Ela aceitou e a mulher gato conduziu-a para o centro da sala.

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A cidade amanheceu em polvorosa. Era dia de feira e as ruas estavam lotadas de comerciantes e suas barracas, onde se vendiam produtos de todos os cantos do planeta e além. Decididos a resgatar sua companheira, Larrar e Feenah partiram em direção ao planeta-capital, assim que recuperaram o saveiro, e agora andavam entre os pedestres, completamente incógnitos e mesclados.

Como a presença de não humanos era escassa, a basteth estava envolta em um manto com um capuz que lhe cobria a cabeça, escondendo o rosto e as orelhas de gato. Ela olhava para todos os lados, como se procurasse algo.

Próximo a uma barraca que vendia frutas parecidas com melões, encontrava-se um garoto, que os olhava de soslaio. Quando ela olhou em sua direção, ele pegou um dos melões e ergueu contra o sol. As mangas de sua camisa escorreram e uma tatuagem em forma de serpente se mostrou. Era o que ela procurava.

O pivete abandonou o melão e começou a caminhar. Feenah, para não perdê-lo de vista, puxou Larrar pela camisa e partiu em seu encalço. Entraram num beco e viram-no desaparecer por uma porta que, ao ser aberta, revelava uma escada. Sem muita alternativa, começaram a descer. Após meia hora, se viram numa ampla sala, cercados por vários homens de olhares frios e ameaçadores.

Larrar levou a mão ao disruptor preso em sua cintura.

Nos dias subseqüentes à sua chegada ao planeta, Feenah, com a desaprovação de Larrar, iniciara uma série de furtos. Que se tornavam cada vez mais ousados, na tentativa de contatar a guilda de ladrões local, a única capaz de ajudar-lhes a resgatar Alesia. E eles finalmente haviam conseguido.

- Quem ousa trabalhar em meu território sem pagar a taxa devida a guilda? - indagou o líder, um homem de tez esverdeada e várias cicatrizes pelo rosto.

- Eu! – a basteth respondeu com firmeza, descobrindo a cabeça - Feenah Fhorca, filha de Tulah Fhorca, neta de Nhorah Fhorca, bisneta de Hyj...

O líder levantou a mão e ela calou-se. Suas palavras ecoaram pelas paredes do salão e Larrar jurou que podia ouvir o próprio coração batendo, tamanho o silêncio.

- A que devo tão ilustre presença? - o líder perguntou. Havia deboche em seus olhos.

- Venho até vós para solicitar ajuda para resgatar uma amiga.

- E porque devo ajudá-la, filha de Tulah Fhorca?

- Porque assim dizem as leis inquebrantáveis da Irmandade! - Feenah respondeu, não gostando do tom de desafio da pergunta.

Neste instante, alguém se aproximou do líder e sussurrou algo em seu ouvido. A hostilidade que havia em sua face desapareceu como por encanto. Ele sorriu para Feenah.

- Claro! Claro! Como pude me esquecer das leis da Irmandade? - ele sorriu cinicamente - Todos os ladrões são irmãos, não são?

A basteth fechou a cara.

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Anexo à 'sala das mulheres', existe um jardim suspenso que nada deve aos jardins suspensos dos próprios palácios elficos. É um dos locais mais belos que Alesia já viu, com canteiros pontuados com centenas de variedades de flores, árvores ornamentais e viveiros de pássaros. Era onde ela estava naquele momento, recostada sobre um balcão e olhando o céu cinza-claro de Eta-Vërefgn IV. A doce brisa vespertina brincava com seus cabelos.

Nos primeiros dias Alesia não reparara na beleza daquele lugar, pois tinha apenas um único pensamento: escapar. Várias oportunidades surgiram e se perderam; seja por causa da rígida segurança do palácio ou pela indiferença de suas companheiras.

Longe de ficar aborrecida com o comodismo das moças, ela as compreendia; eram canários que nunca haviam saboreado o doce vento da liberdade e que temiam abandonar sua gaiola dourada por algo incerto. Singht, a jovem basteth que a recepcionara quando fora introduzida no harém, aproximou-se e debruçou sobre o balaústre.

- É tão bom ver Hikari sorrindo - disse após alguns segundos.

Alesia lançou um olhar para a amarna, que alegremente colocava uma tiara de flores na cabeça da garota humana. As duas sempre estavam juntas, e a ela começava a se perguntar se existia algo mais que amizade entre as duas.

- O senhor a encontrou num circo, onde vivia acorrentada e nua com as costas infeccionada por causa de um grotesco implante de asas. Eles viajavam de aldeia em aldeia, exibindo-a como um ser maligno da mitologia humana. Quando a trouxeram, estava tão assustada, tão desesperada, que poucas de nós achamos que fosse se recuperar. E teria realmente, enlouquecido, se não fosse por Key, que sempre a consolou e a aconchegou, nos momentos de maior desespero.

Alesia continuou olhando o horizonte.

- Por que está me contando isso?

- Porquê? Porque sei o que pensas de nós, irmã. Está na forma como nos olha. Pensa que somos pobres coitadas que não conhecem outra vida, a não ser a de servir um homem como dóceis concubinas. Mas não é assim! O caso de Hikari não é uma exceção. Era a realidade de todas nós, até sermos trazidas para este lugar...

A elfa balançou a cabeça e encarou a outra.

- Você não precisa dar explicações para mim, Singht. Aliás, nenhuma de vocês precisa. Mas entenda, eu passei a vida toda fugindo deste tipo de vida! Foi para não me tornar um simples adorno no palácio de alguém que abandonei meu planeta natal...

- Irmã? Irmã Alesia! – a voz de uma das moças, uma elfa pouco mais nova que Alesia, ecoou pelo salão, fazendo com que suas irmãs levantassem os olhares.

- Estou aqui! - Alesia sinalizou sua posição sacudindo o braço levantado - O que se passa?

- Me mandaram avisar que o Senhor vai recebê-la hoje.

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No piso de um dos corredores dos níveis inferiores do palácio existe uma grade que dá acesso para os esgotos da capital. E é exatamente nesta grade que dedos nervosos aparecem e a forçam até que ela se solte, liberando a passagem para quatro figuras soturnas. Feenah foi à última a sair do túnel, ajudada por um dos ladrões que acompanhavam-na naquela incursão. Trocou algumas palavras com eles antes que desaparecessem, deixando-a a sós com o humano.

- Aonde eles vão? Pensei que iam apenas nos colocar dentro palácio...

- Eles são ladrões, Larrar! Disseram que, como já estão aqui, não voltariam de mãos vazias. Na certa, vão roubar alguns talheres de que ninguém achará falta...

- Ladrões, hunf! - o rapaz deu de ombros - E agora?

- Bom, de acordo com o mapa que a guilda nos forneceu, só temos que subir uns 50 andares...

- Cinqüenta?!

Ela balançou a cabeça afirmativamente e conferiu um aparelho que estava preso à cintura; uma luz vermelha piscava intermitente.

- Confira seu inibidor eletrônico também, Larrar. Afinal, não queremos ser pegos antes de acharmos Alesia.

O rapaz conferiu o aparelho que os mantinham invisíveis para os sistemas de vigilância do palácio, antes de começarem a caminhar. Não avançaram dez metros e o som de passos foram ouvidos no corredor. Diante de seus olhos estupefatos, uma dezena de robôs surgiu de uma porta lateral e seguiu na direção dos companheiros. Automaticamente, Larrar levou a mão ao coldre, preparando-se para o pior.

- Não! - Feenah advertiu-o - São apenas robôs operários. Fique fora do caminho deles que nem nos notarão. Para este tipo, não é preciso nem usar um inibidor. Assim dito, ambos grudaram nas paredes e deixaram os robôs passarem. E como dissera a basteth, os homens de lata nem perceberam suas presenças. Mesmo assim, Larrar não deixou de suar.

- Agora, Vamos! - ela indicou o caminho, assim que os robôs desapareceram numa curva - Temos muito que caminhar...

- Cinqüenta andares, ai, ai!

- Olhe pelo lado bom: pelo menos você vai perder esta barriguinha de chope...

- Eu não tenho barriga! - o humano indignou-se.

- Claro... há, há, há!

Continua...

O HARÉM ESPACIAL

PRIMEIRA PARTE

- Duas vezes na mesma semana! Deve ser um novo recorde...

Larrar apenas ouvia as palavras irônicas de Alesia de sua cela, já que não conseguia vê-la. Externamente parecia não se importar, mas sua mente procurava respostas para a atitude da elfa. Ironias não eram do feitio de Alesia, mas era a especialidade da basteth que, alias, estava estranhamente quieta.

Os três amigos eram trabalhadores autônomos que atuavam no segmento de transporte de carga interplanetária. Infelizmente algumas destas cargas eram classificadas como contrabando em alguns planetas da Dispersão. E foi com uma destas cargas que foram pegos por uma patrulha de fronteira. A carga foi imediatamente apreendida e só não tiveram a mesma sorte graças à manha de Feenah.

Endividados, eles se lamentavam numa taverna espacial quando um ancião os contratou para levá-lo de volta a seu mundo natal. O problema era que o planeta estava sob o controle de um déspota que fechara o sistema solar inteiro. Era praticamente impossível entrar ou sair. Mas, a perspectiva de recuperarem o que haviam perdido inibiu qualquer receio.

Infelizmente a sorte resolveu olhar novamente para o outro lado e a astronave emergiu diretamente sob o bojo de uma nave de patrulha. Totalmente dominado o saveiro espacial foi recolhido a bordo. Foram recepcionados por dez guardas robôs que, em questão de segundos, trancafiou-os em selas individuais.

- Oi!

O rapaz deu um salto com o súbito aparecimento de Feenah em frente a sua cela. Ela piscou alegre, ao ver sua cara de espanto. Feenah era uma típica representante de sua raça com olhos maliciosos, orelhas e cauda de gato, corpo lânguido coberto por uma fina penugem castanha clara pontilhada por manchas de tom mais escuro.

- Achou mesmo que uma mísera trava eletrônica me deteria.

Segundos depois, Alesia já estava livre e Larrar retornava após ter inspecionado o bloco de celas.

- seu Hanlder não está em lugar nenhum.

Eles se entreolharam.

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Após tantos anos de exílio Hanlder Burenmdenher precisava voltar urgentemente a Eta-Vërefgn, sua estrela natal. Foi este objetivo que o impulsionou a contratar os livre-cambistas naquela taverna espacial. Não porque eram bons, mas porque pareciam estar desesperados. Por isso, não recusariam sua oferta.

Eles titubearam quando ouviram o destino. A elfa pediu mais e um ou dois pensamentos ignóbeis passaram pela cabeça branca de Hanlder. No fim concordou em pagar o que pediam desde que o levassem para Eta-Vërefgn.

Só não imaginava que fossem idiotas. Porque somente idiotas conseguiriam sair do hiperespaço diretamente sob o bojo de uma nave de patrulha. Hanlder amaldiçoou os três aventureiros por estar atado àquela cadeira com o suor escorrendo de suas têmporas.

O arfar de sua respiração indicava que acabara de receber mais uma descarga da sonda psíquica.

Além dos dois robôs inquisidores que monitoravam a sessão, também havia um homem em farda de oficial que acompanhava tudo com um sorriso irônico no canto da boca.

- Você devia ter aproveitado a chance e ficado bem longe de Eta-Vërefgn, conde...

- Como eu poderia deixar meu planeta na mão de um louco? - o ancião vociferou antes de mergulhar num acesso de tosse.

Os olhos do oficial estreitaram-se e sua testa franziu, irada.

- Louco! Louco! Você ousa chamar de louco aquele que colocara Eta-Vërefgn nos livros de história galáctica. Não. O louco aqui é você, que mesmo tendo a oportunidade de fugir, retorna...

A sonda voltou a se aproximar das têmporas de Hanlder. O ancião sentiu que esta seria a ultima vez. Fechou os olhos e esperou a sonda fritar seu cérebro. Apesar de não ter conseguido libertar seu mundo consolava-se com fato de que a dor acabaria.

Mas o fim não viria desta vez.

A porta deslizou e três disparos certeiros liquidaram os robôs inquisidores e o oficial. Rapidamente, Larrar e Alesia livraram-no das amarras.

- Desculpe a intromissão, mas, temos um acordo com este velho – Feenah dirigiu-se a uma câmera espiã fixada no teto antes de destruí-la.

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O plano era simples. Resgatavam Hanlder, chegavam ao hangar, recuperavam a nave e davam o fora daquele sistema de loucos. Simples na teoria. Mas complicado na prática.

Era como se estivessem há horas correndo pelos corredores, desviando e revidando os disparos dos guardas robôs por isso quando começaram a temer que estivessem perdidos entraram na primeira porta que surgiu a sua frente.

Pararam pasmados. Haviam encontrado o hangar, mas impedindo-os de chegarem ao saveiro estavam cinqüenta guardas robôs.

Não havia como lutar, então recuaram. Infelizmente, o som característico dos desintegradores sendo carregados disse-lhes que o recuo não era uma opção.

Estavam cercados e sem alternativas. Soltaram as armas.

Os robôs abriram passagem para um homem de meia-idade ostentando um uniforme igual ao do homem da sala de interrogatório. Ele sorria zombeteiro.

- Foi muito feio o que fizeram, meus jovens. Suas mães não lhes ensinaram a não interromper os mais velhos? Hunf... não tem problema, eu e meu amigo podemos terminar nossos assuntos agora...".

Três robôs dispararam em Hanlder, que se apoiava no ombro de Larrar, acertando em cheio. Quando sentiu a temperatura do corpo do ancião elevar-se ao extremo, o rapaz o soltou horrorizado.

E, onde segundos antes havia um ser humano, restavam apenas uma nuvem de gás e o fedor de carne queimada que tomava conta do ambiente.

O homem voltou sua atenção para os três. Seus olhos brilhavam com uma mistura de insanidade e prazer que lhes revolveram os estômagos.

Larrar, Feenah e Alesia tiveram a certeza que seus destinos seriam o mesmo. Já se viam transformados em fumaça, e se maldiziam por terem aceitado aquela viagem. Recuaram e sentiram o cano frio das armas dos robôs em suas costas. Suas mentes procuraram febrilmente um jeito de escapar, mas não havia nenhum.

- Joguem todos no espaço! - ordenou, por fim, enquanto seus olhos caíam sobre Alesia - Esperem! Menos a elfa, ela será uma ótima aquisição para o harém do regente!

E assim eles foram separados. Alesia foi encaminhada às celas, e seus companheiros foram para a sala de descompressão mais próxima.

Os dois amigos caminharam, todo o percurso, calados. Cada um, a seu modo, procurava um meio de escaparem daquela situação. Mas toda a esperança acabou-se quando pararam em frente à câmara de descompressão. Eles se olharam, e o guarda empurrou-os para dentro assim que a porta se abriu. Era o fim.

Seus corações começaram a se acelerar conforme a voz metálica do computador anunciava os segundos restantes para a descompressão. Incapazes de dizer uma palavra de consolo sequer, seus olhos vagavam pela sala, iluminada pela luz vermelha de alerta. Suas gargantas já ardiam com a falta de oxigênio e a sirene ressoava pelo aposento quando avistaram os trajes de vácuo, presos nas paredes.

Lançaram-se sobre os trajes e só tiveram tempo de ajustá-los antes de serem sugados para o espaço exterior. Mas, ao se verem flutuando no negrume cósmico, estavam chegando à conclusão de que haviam apenas adiado o inevitável por vinte minutos.

- Pronto! E agora? - Feenah perguntou, flutuando no nada.

Estava ofegante. Fizera um esforço excessivo, lutando contra a perda de consciência causada pela quase inexistência de ar, para vestir o traje antes da comporta se abrir.

- Sei lá! - a voz de Larrar ressoou, ofegante, no comunicador - Tem alguma idéia?

- Talvez possamos tentar voltar à nave...

- Pode ser, ela não está muito longe. Se economizarmos os jatos, podemos conseguir - Larrar disse, checando os propulsores de manobra do traje.

Era uma idéia, e eles preferiam tentá-la a ficar pairando no vácuo, esperando. Infelizmente os etavërefgnianos não permaneceriam parados para sempre e enquanto eles checavam seu traje, eles se puseram em movimento. Levando a única esperança que lhes sobrava. Ou não.

O hangar se abriu e expeliu, com a ajuda da inércia, o velho saveiro.

- Sua nave é tão velha que eles não a querem nem como sucata - Feenah permitiu-se um gracejo.

Larrar apenas sorriu, ignorando o deboche. O empurrão inicial dado pelo raio trator fazia a velha nave se aproximar mais e mais.

CONTINUA... (daqui uma semana)

Desculpe, mas...

Saudações,

Este não é um blog que se presta para este tipo de coisa, mas os leitores me darão licença para que eu como membro da Igreja, de meu pitaco sobre o caso da menina de nove anos e a excomunhão dos abortitas.

O aborto no Código de Direito Canônico

Can. 1398 — Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit.

Em língua pátria, o cânon 1398 do Código de Direito Canônico:
Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.

O cânon 1311 ensina que "A Igreja tem o direito nativo e próprio de punir com sanções penais os fiéis delinquentes". O presidente Lula não sabe o que diz, aliás ele desconhece o que seja punir delinquentes. Só incorre nas sanções canônicas os que são católicos; ou seja, a Igreja mantém-se em sua jurisdição. Que o presidente se mantenha na dele. A Igreja não determinou a prisão de alguém, pois não tem poder para isso; ela excluiu da comunhão dos bens espirituais alguns filhos seus até que se arrependam de seus erros. Lula, Temporão, Minc, associações de médicos e opiniólogos em geral não podem se intrometer em assuntos eclesiais.

A pena latae sententiae não necessita de uma declaração. O delinqüente incorre nela ipso facto. Por que Dom José decidiu declarar a pena? Como ele próprio disse, é preciso despertar a consciência dos fiéis para a gravidade do delito e a punição que ele acarreta. Os fiéis que, sem culpa, ignoram estar violando uma lei ou preceito não são passíveis de nenhuma pena (cân 1323 n. 2º). Por isso, é absolutamente necessária a atitude de Dom José e a sua divulgação, mesmo que equivocada, pelos meios de comunicação. Que ninguém mais alegue ignorância, inadvertência ou erro.

Pelo mesmo cân 1323 n. 1º, a menina de nove anos não é passível de pena. Mas o são os responsáveis pelo aborto, sua mãe, e aqueles sem os quais ele não poderia ter sido realizado, a equipe médica.

O estuprador, se católico, poderia ter recebido alguma sanção canônica, embora não incorra na pena de excomunhão. Deveria também receber uma punição proporcional ao crime cometido, mas sabemos que, caso fique preso, não o ficará por muito tempo. E não culpem a Igreja e Dom José por isto!

Atenção, este texto não é meu, pertence á http://oblatvs.blogspot.com/ , mas como concordo com ele em numero, gênero e grau...

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