A VINGADORA QUE NASCEU HOJE

PRIMEIRA PARTE


No distante planeta Patmos uma menina e seu robô-servo acompanham uma estrela cadente. O objeto estelar percorre todo o céu até se chocar atrás de uma colina. O estrondo produzido obriga-lhe a tampar os ouvidos. Rajadas de vento enfurecido sopram pela campina arrancando flores e esvoaçando sua saia. O robô-servo foi arrastado por dez metros antes de conseguir se estabilizar e voltar para junto dela.

Minutos se passam até que consegue coragem para abrir os olhos e destampar os ouvidos. Tudo a sua volta parece ter voltado à normalidade. Apenas as revoadas dos pássaros, que se afastam da colina, lembram-lhe que momentos antes o mundo parecia ter chegado a seu fim.

Cheia de curiosidade ela corre para o local da queda. Descobrindo ao chegar que a estrela cadente era na verdade um módulo salva-vidas. Com a ajuda de seu robô-servo consegue acesso ao interior encontrando apenas um tripulante. Que está desacordado.

+ + + +

A dor de cabeça é tremenda. Parece que há um bloco de aço adâmico sobre sua têmpora. Mas ele esforça-se para abrir os olhos. Eles ardem com a luz, mas força-os a permanecerem abertos. Então vislumbra um teto de alvenaria, de onde dependurava-se uma lâmpada elétrica. Há também uma esfera metálica com braços e dois olhos esbugalhados que lhe olham de maneira indiferente.

A esfera, ao perceber que o naufrago acordara flutua até se esconder atrás de uma menina que não devia ter mais do que onze anos. A rapaz segue o vôo da criatura cibernética e sorri debilmente. Ela arregala os olhos, assustada.

- Vovô! Ele acordou! – a garota grita.

Um ancião entra no quarto, atendendo ao chamado.

– Que bom! – O ancião observou atentamente o rosto do homem deitado e sorriu – Você nos compreende? Como está se sentindo?

- Tenho sede – é tudo o que consegue pronunciar.

- É de se esperar. Afinal está dormindo quase uma semana! Rápido Elisa vá buscar água fresca para nosso hóspede! E traga algo para ele comer também!

A menina corre pela porta afora, seguida pelo robô flutuante.

- Sou Forn Elliezear e aquela menina é minha neta Elisa. Foi ela que encontrou o salva-vidas que o trouxe até Patmos.

- Patmos? – o estranho perguntou tentando se sentar. No que foi ajudado por Forn.

- É um planeta colônia de Galaad.

Neste instante a menina retorna com um jarro de água, vários copos e um prato com varias fatias de pães recobertas por geléia. Forn enche um dos copos e passa ao acamado que bebe com sofreguidão.

- Então, o que lhe traz a Patmos, senhor...?

- Augusto M. Sorver. Primeiro tenente da décima quinta divisão de cavalaria mecanizada das Forças Estelares de Guimaraes! Estava retornando para minha base, após uma merecida licença de trinta dias, quando os geradores pan-estelares da nave de carreira, onde viajava, entrou em pane. A nave abandonou o hiperespaço com o casco completamente comprometido. Temendo o pior o capitão ordenou a evacuação. Infelizmente parece que sou o único sobrevivente.

- Talvez sim. Talvez não. O fato é que caiu numa área remota de Patmos. A cidade mais próxima está a cinco dias de viagem. E a cidade das estrelas está, a não menos que um mês, do outro lado do mar Arale.

- Mas você tem um comunicador, não?

- Sinto, mas não temos! O que possuíamos se quebrou a muito. E nunca sentimos falta. Mas não se preocupe com isso. Primeiro se recupere. A garota estende o prato com os pães.

– Depois teremos o prazer de dispor de um jovem para acompanhá-lo até a cidade - Forn caminha até a porta - Venha Elisa! Deixe nosso hóspede comer e descansar.

Augusto foi deixado só olhando o prato de pães. O jarro de água e o copo foram deixados sobre o criado ao lado da cama.

+ + + +

A água molha as mãos de Elisa no momento em que ela passa o prato por baixo da torneira. Durante alguns segundos permanece observando a espuma escorrendo. Então termina o enxágüe e o coloca junto com os outros. Alguém entra na cozinha. Ela não se incomoda, pois pensa que é o avô.

- Er... Elisa?!

A voz do estranho deixa-a surpresa. Ela se vira observando-o.

- É este seu nome não é? Elisa!

- Sim – ela responde sem jeito enxugando as mãos no avental – O senhor deseja alguma coisa?

- Por favor, senhor não. Assim parece que tenho cinqüenta anos. Augusto está bom – ele sorri e ela sente a face aquecer – Gostaria de um pouco de água. Mas pode deixar que eu mesmo pego. É só me mostrar onde está o copo.

- Os copos estão naquela porta – ela aponta uma das portas do armário de parede – Se quiser água fria tem no refrigerador. E, enquanto Augusto se serve Elisa volta sua atenção para a pia. Entre um gole e outro os olhos do rapaz caem sobre os pratos no escorredor.

- Desculpe por estar lhe dando trabalho!

- Não é nada. Meu avô sempre diz que devemos ajudar quem precisa...

- Mesmo assim pode ter certeza que lhes pagarei por todo o trabalho que estou dando. Alias, será que você não poderia me levar até onde está o módulo?

Elisa para de lavar os talheres.

– Porque?

- Por nada! É que seu avô comentou que o rádio de vocês está quebrado então pensei em consertá-lo. E seria uma mão na roda se alguma peça do módulo servisse. Então você me leva?

- Claro! Depois do almoço está bom?

- Está ótimo! – ele sorri.


SEGUNDA PARTE


Augusto saiu de dentro do módulo carregando mais alguns componentes. Mas o que chamou a atenção de Elisa foi uma maleta que tinha um desenho diferente da maleta de primeiros-socorros, que ele trouxera momentos antes.

Percebendo a curiosidade da garota o soldado senta a porta do módulo e abre a caixa. De dentro levanta uma pistola Gauss que reluz com o sol da tarde.

- Uau!! – é tudo o que Elisa consegue dizer.

- Tome! Pegue! – ele oferece a arma para as mãos ansiosas da menina.

- Posso mesmo?

- Claro! Ela está travada então não há perigo – ele sorri dando-lhe confiança.

Elisa pega a pistola e começa a olhá-la por todos os lados. Augusto sorri ante o deslumbramento dela. Então retira de dentro da maleta uma segunda pistola. Destrava-a e aponta para um arbusto. O disparo ecoa pelo bosque assustando os animais.

Elisa volta-se para ele. Seus olhos estão arregalados de emoção.

- Você quer tentar?

Tudo o que ela faz é balançar a cabeça ao mesmo tempo em que lhe entrega a arma que esta segurando.

- Está é uma Nokia HG 2050 4 mm. Uma pistola Gauss relativamente comum e leve – Augusto explica didaticamente – Possui as funções automática e semi-automática, supressor de chama e contador digital de munição. Possui um pente com vinte projéteis e tambores de propelentes recarregáveis a cada mil disparos...

Elisa acompanha cada palavra de Augusto como um aluno dedicado ouve o professor.

Ele destrava a arma e a devolve.

- Tente acertar naquele galho! Segure com as duas mãos e abra um pouco as pernas. Apesar deste modelo possuir amortecedor de recuo você é muito nova...

Elisa aponta a arma o melhor que pode para o galho que Augusto escolhera como alvo. O som do disparo ecoa pela floresta. Elisa sorri. Mas fecha a cara em seguida: o projétil passara muito longe do alvo.

Augusto gargalha ao ver sua cara de emburrada.

- Deixe-me ajudá-la.

A garota volta à posição original e o soldado abraça-a por trás segurando as mãos dela que envolvem a arma.

- Você tem que mirar por aqui! – ele mostra-lhe o e centro da arma – Pronta? Então respire devagar e concentre-se. Agora visualize o alvo e com a mente traga-o mais para perto. Focalize! Agora dispare!

O projétil abandonou a arma com a velocidade costumeira e o pequeno galho foi arrancado violentamente de seu lugar.

- Parabéns! Com o tempo você fará todos estes passos de forma instintiva. – Augusto elogiou tocando suavemente o pescoço da menina.

Elisa sorriu.

+ + + +

Augusto acordou sobressaltado. O sol acabava de se elevar e seus raios róseos entravam pela janela. Olhou para a janela. Não conseguiu conter uma expressão de espanto.

Logo após o fim da aldeia o reluzente casco de uma espaçonave, do tipo draccar, brilhava ao sol matutino. O soldado piscou algumas vezes como se procurasse acordar. Levantou-se apressado e correu a janela. Seus olhos correram por toda a porção visível da nave à procura de alguma identificação. Nada encontrou e sentiu um pressentimento ruim.

Vestiu-se e desceu as escadas apressadamente. Não havia sinal de Forn e nem de Elisa. Saiu para a rua que também se encontrava deserta. Partiu para a praça central aonde, antes mesmo de chegar, avistou os aldeões reunidos. Andou entre eles até avistar seu anfitrião e a neta.

Só então Augusto reparou na cena.

Num dos lados da praça encontrava-se um homem sentado numa cadeira, sobre uma prancha de carga gravitacional. Ao seu redor havia pelo menos uns dez capangas, entre humanos e alienígenas, armados. Perto deles estavam os membros do conselho de anciões da vila. Numa postura subserviente ouviam as palavras que o homem dizia.

- O que está acontecendo? – Augusto perguntou assim que se aproximou de Forn.

- Eles vêm a cada três meses e levam um terço de nossa produção. A melhor parte. Dizem que é para nossa proteção.

- E vocês ficam assim? Somente olhando sem fazer nada?

- O que poderíamos fazer? Somos pacíficos e não possuímos arma alguma...

- Foram eles que mataram meus pais.

Augusto olha para Elisa e se surpreende com um olhar cheio de rancor e mágoa. Algo que achava impossível de ver naqueles olhos alegres e sorridentes.


TERCEIRA PARTE


A luz pálida da lua banhava o veiculo espacial quando um vulto se aproximou sorrateiramente. Sua mão apalpou o casco até encontrar uma saliência. Puxou uma alavanca e uma porta se abriu. Ao se ver dentro da nave Augusto avançou sorrateiramente por um dos corredores.

Apesar de possuírem um designer ultrapassado os draccares eram algo comum na galáxia. Sua baixa manutenção e alta resistência tornavam-no o tipo de nave favorita de exploradores, comerciantes em áreas remotas e, principalmente, piratas espaciais.

Como membro da milícia espacial guimaranea ele efetuara varias abordagens a naves daquele tipo. Este fato associado ao estudo dos esquemas das astronaves, lição obrigatória antes de cada abordagem, mostrava-lhe exatamente a direção que tomar e quais compartimentos procurar.

De fato, vinte minutos depois ele estava em frente ao paiol da nave. Um rápido olhar em torno lhe disse que não havia nenhum sistema de detecção ou alarme a vista. Sorriu e avançou.

Verificou cuidadosamente a fechadura eletrônica; era o modelo padrão das naves tipo draccar, sem nenhuma modificação. Arrombou o painel. Cruzou fios e digitou as teclas convenientes. Um leve zumbido informou que tivera sucesso e a porta se abriu.

Havia uma variedade enorme de armas penduradas nas paredes; rifles polivalentes, rifles laser, pistolas de gauss e suas contrapartes laser. Espadas de lamina vibratória, escopetas de dissuasão.

Sobre as estantes encontrava-se grande variedade de munição; desde projéteis para as armas Gauss até cargas para as pistolas e rifles lasers. E para encerrar uma grande variedade de granadas; indo das anti-pessoal até as químicas e virulentas, de caráter claramente ilegal.

Augusto observou por alguns segundos aquela variedade de armas pessoais antes de decidir quais levar. Se Forn dizia que não havia armas na vila para poderem resistir ao assédio pirata, agora eles as teriam. Imediatamente o soldado começou a coleta.

Já estava com vários coldres e rifles pendurados nos ombros quando ouviu o som das armas sendo destravadas em suas costas.

- É melhor que você largue tudo onde está moço!

Ele não precisava voltar-se para saber que havia, no mínimo, dois rifles apontados para suas costas. Então, lentamente ele solta as granadas que acabara de pegar e retira os coldres e rifles, um a um.

- Estes matutos estão ficando abusados!

Um dos bandoleiros resmunga assim que Augusto deixa cair o ultimo coldre.

- Ótimo, agora vire-se! Quero ver sua cara antes de dar um tiro no meio dela...

O soldado obedeceu e se virou. Os dois bandidos caíram antes de verem a pistola em sua mão. Imediatamente correu até a porta e averiguou que o corredor estava vazio. Voltou para dentro do paiol; pegou três cinturões e algumas granadas, que enviou nos bolsos, e voltou para o corredor.

Seu plano tinha dado errado. Pretendia levar armas suficientes para que o pessoal da vila se defendesse e, se houvesse tempo, plantar algumas cargas no draccar condenando a nave pirata à destruição. Infelizmente fora descoberto cedo demais. Teria sorte se saísse vivo.

Correu pelo corredor na direção da escotilha. Mas logo diminuiu o passo, algo lhe parecia errado; apesar de ter abatido dois piratas o corredor parecia tão deserto como antes. Nem ao menos havia o som intermitente das sereias de alarme.

Avançou cautelosamente até chegar na intersecção que ligava o seu corredor ao corredor que levava a escotilha. Entrou por ela e saiu do outro lado.

Estacou. Recostado a porta da escotilha havia um homem; o mesmo que conversava com os chefes da aldeia sentado na cadeira sobre a prancha gravitacional. Ele fumava despreocupadamente. Soltou uma baforada antes de olhar para Augusto.

- Até que enfim você chegou, senhor invasor! – havia malicia em sua voz e em seu olhar gélido – Primeiro deixe-me dar-lhe os parabéns pela audácia em invadir minha nave. E por essa audácia percebi que você não é daqui. Seria você um mercenário que estes covardes contrataram?

- Está enganado! Não fiz isso por dinheiro – o rancor no olhar de Elisa era vivido na mente de Augusto - Fiz porque um homem deve fazer o que se espera que um homem faça!

- Um homem de princípios, hein? Gosto disso; porque não se junta a nós?

- Não obrigado. Se aceitasse iria contra o que acabei de dizer...

- É uma pena... – o homem se endireitou exibindo os coldres – Pelo menos, vamos resolver este assunto como homens honrados...

Augusto soltou todas as armas no piso. Todas, menos uma cujo cinturão afivelou a cintura.

Sacaram. O som, das detonações simultâneas, ecoou pelos corredores silenciosos.

Novamente a imagem de Elisa, só que desta vez sorrindo e correndo entremeio as flores silvestres, veio à mente do soldado.


QUARTA PARTE


Estavam todos reunidos na praça central. Aparentemente o chefe dos bandoleiros queria dizer algo importante. Como sempre ele estava sentado em seu trono sobre a prancha gravitacional e rodeado por seus capangas.

Elisa já havia visto aquela cena mais vezes do que gostaria. Na realidade estava mais preocupada com o fato de não ter encontrado, ou visto, Augusto em lugar algum. Tal desaparecimento causava-lhe um pressentimento ruim.

Então ela viu; sobre a prancha, servindo de repouso para os pés do líder bandoleiro havia algo envolto numa lona. Seu coração disparou.

- Sabe; estou desapontado com vocês!

O chefe pirata disse antes de chutar o conteúdo da lona para fora da prancha. A lona desenrolou-se e deixou o corpo inerte do soldado cair no chão batido da praça.

- Nããããoooo!!!!!!!

Uma mascara de terror e desespero cobriu a face de Elisa. As lágrimas brotaram de seus olhos e seu grito lamentoso abafou todos os sons. Mesmo usando de toda a força Forn não conseguiu impedir que a neta se desvencilhasse e corresse na direção do corpo de Augusto e desabasse sobre o mesmo. Totalmente perdida em sua dor.

O assassino ignorou-a e olhou para a multidão.

- Eu lhes protejo de saqueadores e peço apenas o mínimo como pagamento! Apenas o mínimo para sustentar meus homens! E vocês o que fazem; maquinam por minhas costas contratando um mercenário...

- Ei! Não nos envolva! - alguém gritou entre os aldeões.

- Ele é um estranho que foi trazido por essa menina! - gritou outro.

- Isso! Se alguém é culpado é essa ai!! - um terceiro sentenciou.

O murmúrio percorreu todos os aldeões. Palavras de acusação foram proferidas contra Elisa e Augusto. O saqueador sorriu.

- Então não se importarão se esta criança nos divirta! - dois dos homens se aproximaram de Elisa e retiraram-na de sobre o corpo de Augusto - Como forma de se redimir por sua mesquinharia!

A multidão calou-se e um silêncio mortal caiu sobre a aldeia. As mulheres tamparam suas bocas com as mãos chocadas. Todos ali sabiam o que aquelas palavras significavam.

- Nããooo!! – Forn avançou desesperado sobre os captores de Elisa – Deixem minha neta em paz! Ela não fez nada para vocês.

Com um safanão ele foi afastado e jogado ao solo. Foi cercado e passou a receber chutes cada vez mais violentos. Pararam apenas quando o corpo do ancião havia se tornado uma massa inerte.

- Vovô... – Elisa balbuciou entremeio ao choro.

O silencio se fez mais pesado. Quase palpável até que um murmúrio, vindo de entre os aldeões dissipou-o.

- Eles mesmos procuraram esse fim!

Houve um suspiro, que há muito estava contido. Até que enfim eles encontraram uma justificativa para sua própria paralisia. O bandido sorriu novamente; não esperava outra reação por parte deles.

Terminada a diversão os brutamontes arrastaram a menina até um armazém e prenderam-na com correias. Destruíram suas vestes e deixaram-na. Deixada só Elisa desmanchou-se novamente em prantos; por Augusto e por seu avô. Seus soluços chegaram a ser ouvido do lado de fora para a angústia de seus conterrâneos e deleite de seus captores.

A noite chegou e com ela chegaram os saqueadores. Traziam vinhos e iguarias para seu banquete. Após se fartarem eles vieram. Humanos e alienígenas. Um de cada vez. Dois ou às vezes três ao mesmo tempo. Todos procuraram Elisa e seu corpo jovem e pequeno para se satisfazerem.

Quando as lágrimas secaram e a dor anestesiou seu corpo Elisa guardou no peito a certeza de que logo se reencontraria com Augusto e seu avô.


EPILOGO


Era uma pálida manhã, assim como a chuva que caia, quando uma das portas do armazém se abriu. Pés pequenos e trêmulos pisaram a lama fria.

Elisa abandonou a segurança do armazém e recebeu a chuva em seu rosto. Uma chuva que fazia-a tremer ao mesmo tempo em que sentia toda a sujeira escorrer por sobre seu corpo desnudo.

Começou a caminhar. Seu corpo surrado com as pernas e nádegas cheias de hematomas transformavam cada passo em um calvário indescritível. Sua garganta ferida e os lábios cortados tornavam sua respiração dolorida e sufocante. Ela caiu. Uma. Duas vezes. Mas continuou.

A chuva continuava caindo, retirando a lama de seu corpo e mantendo a rua deserta. Mas Elisa sabia que por trás de cada janela, de cada cortina, havia um aldeão observando-a. Preso em sua própria paralisia ante a via-crúcis que ela fazia para alcançar sua casa.

Por fim alcançou o alpendre e num ultimo esforço jogou-se porta adentro. Quando a porta se fechou ela já dormia no chão duro e frio da sala.

Três dias se passaram sem que ninguém ouvisse, ou visse, o menor movimento dentro da casa. O murmúrio de que ela havia morrido já se espalhara quando amanheceu o quarto dia.

Todos foram acordados de sobressalto. Grandes labaredas se elevavam do andar superior da casa de Forn e Elisa. Nuvens de fumaça negra saiam pela porta e janelas do andar de baixo. Toda a aldeia correu para a frente da residência.

As indagações findaram antes mesmo de começar. Dentremeio a fumaça surgiu Elisa com uma mochila. Sem olhar para os lados a menina atravessou a multidão e continuou seu caminho até sair da aldeia. O silencio manteve-se até encobrir-se no horizonte.

+ + + +

- Então? Já se lembrou de mim?

A mulher perguntou e recebeu apenas um grunhido como resposta. Ela sorriu.

A luz das estrelas, que entrava pela vidraça, banhava seu corpo nu dando-lhe uma beleza quase sobrenatural. Mas o homem, sobre o qual estava sentada, não ficou admirado, pois ele tinha coisas mais importantes com que se preocupar.

Uma delas era como livrar seus braços da imobilização imposta pelos joelhos da mulher. A outra era como afastar as pistolas que ela apontava para ele; uma para seu queixo, outra para sua virilha.

- Após andar durante horas encontrei uma viajante que me levar para a cidade mais próxima. De lá segui para a Cidade das Estrelas onde foi fácil arranjar casa e comida. Desde então tenho lhe seguido. Indo de bordel em bordel eu acompanhei seus movimentos e um por um todos seus homens passaram por minha cama. Engraçado como os homens têm memória curta. Ou será que foi o efeito do vinho que beberam naquela noite? Nenhum deles me reconheceu, muitos até procuraram minha hospitalidade mais de uma vez, até ser tarde demais...

- Desgraçada!! - o homem gritou raivoso - Foi você? Você matou todos eles?

- Ah! Resolveu falar? - ela sorriu - Sim, demorou dez anos, mas peguei um por um dos bastardos que vieram sobre mim aquele dia. Bom, todos não: ainda falta você. Assim como todos os outros, você também me procurou várias vezes estes anos e oportunidades de matá-lo não me faltaram. Mas eu tinha que me segurar; você tinha que ser o último. Só me restava o consolo que se continuasse fazendo gostoso você sempre voltaria...

- O que pretende fazer?

- Ainda pergunta? - o sorriso dela aumentou e tornou-se algo insano - Pretendo fazer isso!!!

A arma que apontava para a virilha disparou. O projétil trucidou tudo pelo caminho; carne, músculos e ossos. O homem urrou de dor enquanto o sangue jorrava e banhava a mulher que ria desvairada.

- Está doendo? É para doer mesmo desgraçado! Mas eu lhe garanto que a dor que sente não pode ser comparada a que senti naquele dia! Naquele dia...

Apesar do prazer momentâneo que sentira ao mutilar seu violador agora ela chorava. Suas lágrimas desciam e se misturavam ao sangue ainda quente que respingara em seu rosto.

- Maldita!! Puta maldita!! Eu vou te matar desgraçada!! - o homem gritava entremeio aos gritos de dor.

Ela enxugou as lágrimas furiosamente por ter permitido que ele visse aquele momento de fraqueza.

- Não! Você não vai me matar! - levantou a pistola - Por que eu vou te matar primeiro!!

O segundo disparo reverberou pelas paredes do aposento.

Elisa ficou observando a massa amorfa em que havia se transformado a cabeça de seu cativo por alguns segundos. Então soltou as pistolas.

Olhou suas mãos manchadas de sangue. Cobriu o rosto com elas e, pela primeira vez naqueles dez anos, deixou as lágrimas escorrerem livremente.


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