Khaliel

Fomos contratados por uma arqueóloga para escoltá-la até um planeta morto, no extremo da Dispersão. Ela possuía uma carta estelar que indicava a existência de ruínas neherenia naquele mundo. Pessoalmente duvidava, mas o pagamento era bom.

De fato, as ruínas existiam, mas se pertenciam aos Senhores da Galáxia nunca saberei. Tudo o que sei é que, após percorrermos vários quilômetros de túneis e corredores, demos de cara com aqueles seres. Eram seres horríveis, deformados e cheios de espinhos pelo corpo, que pareciam ter saído do próprio inferno. Perdi dois companheiros antes de nos darmos conta de que deveríamos recuar se quiséssemos viver.

Sobramos eu, dois companheiros, a patroa e uma criança. Antes que nos pergunte o que uma criança estava fazendo com um grupo de caça fortunas nas ruínas de uma civilização morta, eu respondo: a criança era uma menina de rua, com olhar de “mamãe quero colo” que nossa patroa “adotou” em nossa ultima parada. Acho que se chamava Khali, Khaliel ou algo assim.

Dois de meus companheiros eram contra, aqueles mesmos que morreram lá atrás. Eu disse que não me importava; desde que ela pagasse o combinado podia levar quem quisesse em sua excursão. Pessoalmente, acho que a patroa não batia bem da bola por querer arrastar uma menina até aquele pedregulho flutuante perdido no meio do nada.

Mas, estava revendo minha opinião. Conforme corríamos por nossas vidas a menina, que era arrastada pela patroa, abriu seu “berreiro” diversas vezes. Ela estava cansada, exausta, com medo e nos atrasava cada vez mais.

Deus me perdoe, mas pensei varias vezes em deixá-la para trás. Já ia gritar novamente para que parasse de chorar quando as criaturas surgiram de “supetão” de uma porta lateral que não devia existir.

Pegos de surpresa meus dois companheiros foram estraçalhados pelas garras das criaturas em segundos. Só não tive o mesmo destino porque minha faca foi mais rápida que meu atacante. Mesmo assim sangrava aos borbotões.

E entre uma respiração e outra vi quando a patroa foi arremessada contra a parede, pude até ouvir seus ossos quebrando, e uma das criaturas erguendo a menina pelo pescoço. Ela berrava e a criatura parecia saborear seu desespero.

Então algo aconteceu, ou será que foi minha imaginação? A menina simplesmente calou-se e fitou a criatura, que, juro por Deus, tremeu sob o olhar penetrante dela.

- Tire as mãos de minha serva, criatura maldita! – ela disse e sua voz soou como o trovão, arrepiando todos os pelos de meu corpo, apesar do timbre infantil.

Nesse instante a criatura foi transpassada por dezenas de dardos de gelo que vieram de lugar nenhum. Soltou a criança e caiu agonizante.

A menina levantou o olhar e contemplou as outras criaturas, cujos olhos sem pupila moviam-se do companheiro morto para a menina de sorriso sádico.

- Venha, bergahazza! – ela gritou e as criaturas avançaram.

Antes de desmaiar ainda vi todo o corredor mergulhar numa luz branca.

Acordei no amplo hall de entrada do complexo. Não estava só. Poucos metros à frente, a arqueóloga dormia calmamente: não havia nenhum sinal de que estivesse ferida. Em seus braços a menina também dormia.

Em seus braços? Talvez ainda estivesse sonhando, pois ela pareceu tremeluzir como uma imagem refletida na água e desapareceu no instante seguinte.

Conforme relatado por O. Strander em Khekelev IV
-

Nenhum comentário:

Postar um comentário