Sniper

"A senhorita fez uma excelente escolha. Eles combinam com seus olhos".

Ethienne sorriu retribuindo o elogio feito pelo vendedor. Ela havia estado parada na banca por cerca de vinte minutos; o vendedor, um homem aparentando uns quarenta anos e provavelmente um escravo, tamanha a profusão de manchas em sua pele, algo característico desta raça de miseráveis, estava ansioso e sua impaciência começava a se mostrar visível.

Talvez a única coisa que o impedia de se exaltar eram as formas delicadas da cliente que além das mãos delicadas, que manuseavam a mercadoria, deixava entrever entre as dobras do sobretudo entreaberto as formas quase perfeitas de seu corpo.

A jovem, desde o começo, não tinha a menor intenção de gastar um único crédito naquelas bugigangas mas vendo a expectativa na face do pobre homem decidiu-se por um par de brincos adornados por uma bijuteria imitando o azul celeste; a mesma cor de seus olhos, motivo que levou o vendedor a dizer-lhe o elogio, mostrando os dentes amarelos de satisfação pela venda.

A garota, de cabelos acinzentados, não estava naquele local, conhecido por suas casas de jogos e de prazer, apenas por estar. Estava ali esperando, uma espera que havia terminado.

Ao mesmo tempo em que pagava o vendedor um carro gravítico estacionou na boate localizada a sua frente, do outro lado da rua, e um homem, aparentando ter uns vintes anos e elegantemente vestido, saiu de seu interior e entrou na casa noturna.

Assim que ele desapareceu na penumbra da porta da boate Ethienne pegou a bolsa que descansava a seu lado e começou a se distanciar do camelô até desaparecer num beco.

Minutos se passaram até que ela se viu sobre um edifício de três andares; um local que lhe permitia contemplar a entrada da casa noturna que havia recebido o homem em seu interior.

Ela, caprichosamente, abriu a bolsa e retirou o rifle de precisão, que reluziu com os raios vermelhos do sol. Olhou-o com um misto de carinho e respeito; era uma arma magnífica pelo menos era esta sua opinião.

Deixou-o sobre a bolsa enquanto se desfazia do sobretudo revelando o corpo apenas insinuado para o camelô. Se o pobre homem o visse assim apenas com o traje, feito de tecido de moléculas reflexivas, moldando-se nas as curvas de seu corpo, provavelmente não acreditaria que fosse obra da natureza mas, o produto de bioescultura, tão comum entre a alta burguesia. Ethienne sorriu.

Deitou-se próximo ao parapeito e o traje começou a cumprir seu objetivo; a luz que incidia sobre ele era absorvido tornando sua usuária quase invisível, tanto a olho nu como por sistemas de detecção por radar, infravermelho e microondas.

O rifle oscilou firme em suas mãos delicadas. Seu olho direito focalizou através da lente vislumbrando vivamente a porta da boate. Tudo estava pronto, agora era apenas uma questão de esperar.

Os minutos começaram a transcorrer e, se ele mantivesse a rotina, dentro de pouco tempo tudo estaria terminado. Nada poderia perturbar sua concentração naquele momento. Seus olhos estavam fixos na porta. Sua mente vazia, todo e qualquer pensamento nem ao menos era cogitado. Se alguém a visse naquele momento acharia que se tratava de uma estatua tamanho era tensão imposta aos músculos que permaneciam rijos como se temessem atrapalhar a concentração ao qualquer movimento.

O tempo previsto se cumpriu e a porta se abriu. Se fosse possível, naquele momento, Ethienne teria suspirado de alivio pelo fim da espera. Um homem apareceu, não aquele que ela esperava, e olhou para todos os lados da rua antes de voltar sua atenção para o interior da casa noturna. Outra pessoa apareceu à porta, uma mulher desta vez, provavelmente uma sexadoll. A andróide revelou logo atrás dela aquele a quem esperava; vinha sorridente, abraçado à outra andróide enquanto conversava com alguém de seu lado.
Ethienne não viu quem conversava com ele, e nem se importava, pois seu objetivo estava à frente. O momento que esperava há quase um mês estava se descortinando, era só a sexadoll desviar a cabeça um pouco...

Seu dedo pressionou o gatilho com tamanha naturalidade que parecia se parte do mecanismo da arma; o projétil deslizou pelo espaço-tempo e se alojou na testa do rapaz. Milésimos de segundos se passaram até que o barulho de algo se quebrando anunciou a saída da bala na nuca do mesmo. Ele hesitou por um instante, talvez não quisesse acreditar que o fim tivesse chegado, e tombou para frente revelando a nuca inexistente.

Gritos. Correria. Palavras de ordem. Por um momento o corpo foi esquecido sendo apenas velado pelos olhos de vidro e sem emoção das andróides de prazer.

Missão cumprida. Ela virou o corpo e, abraçada ao rifle, começou a observar o céu que anunciava o fim do dia. Sabia que naquele momento estariam procurando pelo responsável mas, como sempre acontecia, não encontrariam nada e quando as luas se fizessem alta na noite ela deixaria aquele lugar, voltando para o lugar de onde veio.

Esperaria a próxima missão. A próxima vez em que seus serviços seriam necessários. E, Ethienne, os cederia de bom grado, desde que pagassem seu preço.


ENDE