Dois Dedos de Prosa sobre Folhetim

Dois Dedos de Prosa sobre Folhetim



Material da antiga lista do projeto SciPulp, produzido pelo Lancaster

O que é, essencialmente, um folhetim? O formato surgiu no boom da revolução industrial - e podemos defini-la, sim, como literatura industrial. Feita para sair todos os dias nos jornais, em capítulos, com o objetivo de prender o leitor numa época onde não haviatelevisão ou rádio.

Qual a diferença do romance-folhetim para os romances que são publicados em folhetins? O romance-folhetim já é pensado para o formato, para ser picotado. Ele é todo cheio de ganchos e golpes dramáticos que ajudam a conduzir a trama. Vamos dar uma olhada MUITO superficial no que é um folhetim.

GOLPES DRAMÁTICOS: O folhetim é a estrutura básica onde gente como Alexandre Dumas fez a fama: diálogos chaves, eventos dramáticos, personagens tipificados(ora, convenhamos: o D'artagnan é o protótipo do garoto que sai de casa para se tornar mais forte com uma arma que a gente vê nos mangás de hoje). Dumas, aliás, foi quem consolidou a
forma. Homem de teatro, ele sabia da necessidade de golpes dramáticos que virassem o tapete da trama o tempo todo para manter o público interessado.

Pode se dizer que o folhetim é uma máquina literária de manter o interesse. Todas as narrativas longas necessárias para o entendimento do cenário e dos personagens são dadas logo de cara - para que o leitor não seja obrigado a aturar longas explicações que o façam dormir lá tarde. Em uma ficção científica pulp isso é essencial, porque além de se introduzir um personagem, você introduz um mundo.
Mesmo assim, no primeiro capítulo, você tem que logo quebrar a monotonia do "e foi assim que se formou a confederação dos planetas" com um evento que estabeleça um ponto dramático. No começo do segundo volume da série rocambole, iniciamos com a descrição dos domínios do conde bonzinho e sua esposa, somos apresentados a sua vida pregressa graças ao narrador, sabemos que o sujeito tem um bando de agentes secretos e de repente, pimba, surge um homem semimorto caído no meio do caminho e ele era o vilão do primeiro livro, num estado lastimável!
A partir daí, não precisamos saber mais nada, e os eventos se sucedem em profusão!

O PROCESSO DO ENQUANTO: Basicamente sua estrutura é definida pela forma: o fragmento de história suspende a ação no final, que prossegue no dia seguinte. As tramas são movidas pelos eventos dramáticos e sempre se adicionam novas tramas paralelas desencadeadas pela trama principal, e que só vão se reunir a ela no final. Qualquer semelhança com uma novela não é mera coincidência - a telenovela é filha da radionovela e neta do folhetim. Como a história não pode parar, o que temos é o que se chama de "processo do enquanto", e tudo tem que ser jogado para a frente por evento numa encheção de lingüiça que a gente nem liga, porque nos diverte. No entanto, você não pode encher linguiça para sempre. Tem que se haver a ilusão de que as coisas acontecem, e para que isso aconteça, tem que se haver uma virada de evento que sacuda todo o status quo da trama. De três ou quatro capítulos o cenário é mudado, os fatos são alterados, o leitor não pode ter certeza mais de nada e continuar acompanhando para ver como os protagonistas vão se livrar da profusão de nós que eles terão que desatar e que se acumulam contra eles. O final de cada capítulo tem que ser dramático o suficiente para que o leitor queira continuar acompanhando. No meu fanfic de Nadia, que estou mandando o link -
http://www.guaruhara.hpg.ig.com.br/nadia_fic.html - eu fecho o segundo capítulo com um tiro disparado contra a heroína. O primeiro capítulo é fechado com uma declaração dramática - os amigos do herói confirmam um fato desconfortável que muda a ótica com a qual os encaramos. O importante é manter o leitor lendo e lendo!

(Notem que isso é muito parecido com os ganchos das velhas revistas de super-heróis).

Os golpes dramáticos decorrentes da trama principal simplesmente despertam a curiosidade do leitor e desviam sua atenção um pouco da estrutura principal, que poderia acabar rápido demais dessa forma. Qualquer coisa pode ajudar nesse sentido. Uma dessas soluções é a "Lei Dashiell Hammett": Se você não sabe para onde conduzir uma história, faça que um bando de homens armados entre porta adentro; você agitou tudo e depois arruma uma explicação.

PRETO E BRANCO: Os personagens tem que ser tipificados. Qualquer aprofundamento tem que ser ilusório. Há um motivo prático para isso.
Sem o aprofundamento ilusório, o personagem se torna tão raso que não desperta empatia nenhuma. Se ele for verdadeiramente profundo, essa profundidade se torna um buraco negro que puxa a história em sua direção. O mangá rurouni kenshin é um exemplo perfeito disso. Todo mundo tem uma mais ou menos trágica para justificar o que se tornaram.
Mas os personagens continuam tipificados: Kenshin é o cavaleiro andante que luta pelos oprimidos, Kaoru é a mocinha geniosa mas que no fundo tem o coração feito de sorvete, Yahiko é o garoto que quer se provar como um forte mas tem um longo aprendizado, Sanosuke é o típico "durão com coração de ouro" e por aí vai. As histórias só servem para que criemos empatias e aceitemos esses personagens como reais.
"Aceitemos" não quer dizer que eles sejam.

E não precisam. Um dos melhores exemplos desse tipo de objetividade está nas bancas: Peach Girl. Os personagens que não têm importância ou não tem nome(como os pais da mocinha) ou não existem. Alguém sabe o nome do professor? E Peach Girl segue a mesma estrutura de folhetim, mas na sua vertente mais feminina, onde uma garota malvada de cabelos escuros torna a vida de uma doce mocinha loura um inferno. As artimanhas da pérfida Sae contra a pobre Momo são as artimanhas de uma pérfida malvada contra uma pobre moça, e as personagens não são mais do que isso! Mas para o bem da história elas não precisam ser mais do que isso. E no entanto adoramos Momo, e adoramos odiar Sae!

Essa dupla "introduz" um dado novo aqui: o jogo de difamação é perigosamente plausível. Ou seja, é fácil para uma garota se identificar com a Momo. E projetar em alguma garota canalha a figura da Sae - quer algo melhor do que comparar alguém que detestamos com
alguém que sabemos mas nem desconfiamos saber que não é humano?
Ou seja, os personagens tem que ser irreais, maniqueístas, para servir de engrenagem para a estrutura narrativa da qual fazem parte. Mas não podem ser tão irreais que o público não se identifique com elas, porque a empatia é fundamental.

Um personagem real demais não desperta empatia porque ele mergulha num mundo que é só seu.

Isso é só para começar. Alguém tem mais a que acrescentar?

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